Xi Jinping, Presidente da República Popular da China, Secretário-Geral do Partido Comunista, Director da Escola Central do Partido e membro mais importante do Comité Permanente do Politburo (o orgão que controla de facto a China), é dono e senhor do país mais populoso do mundo (1,428 mil milhões de habitantes em 2018), terceiro em área (9.600.000 km2) e primeiro em PIB - 14,140 triliões de dólares em 2019. (Segundo, se se considerar o valor do câmbio internacional).

Embora a China tenha 56 etnias e fale vários idiomas, o controlo do Partido Comunista é completo, baseado numa fidelidade cultivada desde 1949 e nas tecnologias mais modernas. É o único país que tem reconhecimento facial generalizado e avalia todos os cidadãos segundo um sistema de pontos que dá prémios, como a possibilidade de viajar, e castigos, como a impossibilidade de comprar certos produtos. O controlo da comunicação social é total e a internet tem censura prévia individualizada, o que é considerado praticamente impossível mesmo nos países tecnologicamente mais avançados.

Para chegar à presente situação a China percorreu um caminho que começa em 1949, com a tomada do poder por Mao Zedong. Depois de um período imperial distante (que durou até ao século XVII), o país foi sistematicamente humilhado pelos europeus no século XIX – as Guerras do Ópio e a entrega de Hong Kong aos ingleses em 1842 – e esmagado pelos japoneses em duas guerras, em 1894-95 e 1937-45, além de sofrer diversas rebeliões e guerra civis. Embora se tenha tornado uma república em 1912, o poder nunca foi centralizado e era basicamente um imenso território retalhado em poderes regionais, entre o medieval e a ditadura.

Com a unificação de 1949 (de que ficou de fora a ilha da Formosa), Mao entrou numa série de experiências de “poder popular”, a mais famosa das quais foi a Revolução Cultural de 1966-76. Paralelamente anexou o Tibete em 1950. Hoje em dia a governação de Mao, que continua a ser venerada na China, é vista como uma era de brutalidade e ineficiência.

Tudo mudou depois da sua morte, com a subida ao poder de Deng Xiaoping, em 1978.

Tirando lições da queda do comunismo na Rússia, o Xiaopinguismo apostou no desenvolvimento económico, mantendo a mão de ferro do Partido Comunista. Nas décadas seguintes, o crescimento económico manteve-se acima dos 10% anuais, criando uma classe empresarial e uma classe média que, embora estritamente controladas, tinham mão livre para tomarem iniciativas capitalistas. Em 2013, já com o país a ter uma voz na arena internacional, o 18.º Congresso do Partido Comunista escolheu Xi Jinping como Secretário Geral.

Mas quem é, afinal, Xi Jinping? Há uma hagiografia oficial, evidentemente, que mostra como o filho de um alto dignitário maoista, caído em desgraça na Revolução Cultural, fez o seu caminho a partir do escalão mais baixo do Partido. Esse percurso natural, digamos, de um obediente funcionário partidário, que na China é também um funcionário público, mostra um homem eficiente e determinado em fazer funcionar a ortodoxia herdada de Deng Xiaoping. Começou a carreira na província de Fujian, foi escolhido para chefiar o partido na província de Zhejiang e chegou a chefe do aparelho em Xangai.

Em 2014, há um ano no poder, lançou um livro em que delineava uma nova era política para o país: a expansão mundial. As suas teorias foram oficialmente aprovadas em 2018, quando o Congresso Popular o nomeou Presidente vitalício. A partir de agora pode dividir-se o comunismo chinês em três períodos: maoismo, xiaopinguismo e xijipinguismo.

Tudo parecia correr bem: desenvolvimento económico prodigioso, controlo político total, expansão dos interesses chineses por todo o mundo. Eleito pela revista conservadora inglesa “The Economist” como o homem mais poderoso do mundo, em 2017, enunciou o seu sistema político, o “comunismo do tipo chinês”, que se pode definir como uma ditadura política apostada no desenvolvimento económico. Xi Jiping está convencido de que as pessoas, desde que tenham uma boa qualidade de vida, não precisam de liberdade e não se interessam por quem as governa. Um modelo de grande eficiência, a exportar para todo o mundo, não através de conquistas militares, mas do domínio económico.

Seguindo uma mistura de confucionismo e materialismo dialéctico, os chineses têm a característica inata de pensar a longo prazo. Embora tenha lançado um plano de domínio do comércio internacional a médio prazo, a “Nova Rota da Seda”, Xi Jinping mostra que sabe calcular para mais longe. Não tem pressa em anexar a ilha da Formosa (Taiwan) – o último território chinês ainda fora do seu domínio — e sabe esperar as oportunidades para se expandir internacionalmente, aproveitando as fraquezas dos Estados Unidos e as necessidades dos países asiáticos e africanos. Enquanto isso, persegue impiedosamente a minoria muçulmana Uigur, à semelhança do que os seus antecessores fizeram com o Tibete, e joga a Coreia do Norte (que depende da China para sobreviver) contra os Estados Unidos, criando um espaço para negociar com o único país que ainda lhe faz sombra.

E então, o inimigo surge donde menos espera. Não estamos a falar de Hong Kong, uma mera vírgula no processo de eliminação da oposição interna, onde ela ainda pode existir. O inimigo não pertence ao mundo da economia ou da política, mas tem efeitos nefastos nos dois: trata-se da peste, que desperta nas pessoas os instintos mais básicos de sobrevivência e as piores atitudes.

O aparecimento do Coronavirus/COVID-19 na província de Wuhan tem implicações muito negativas para a China e para Xi Jinping, uma vez que prova que ele não controla tudo – logo, tem uma fraqueza que pode ser explorada pelos seus inimigos, internos e externos.

A epidemia em si, pelo menos por enquanto, está longe de ser a pior que a Humanidade já enfrentou. Basta lembrar a Peste Negra, no século XIV, que matou entre 75 e 200 milhões de pessoas (nessa época as estatísticas ainda não tinham sido inventadas). Em 1918-19, a febre pneumónica matou entre 20 e 40 milhões de pessoas, mais do que a I Grande Guerra. Também lhe chamavam Gripe Espanhola, porque morreram oito milhões de pessoas no país vizinho.

Mas, para a China, o aparecimento de uma epidemia potencialmente ligada à má higiene alimentar não dá uma boa imagem do país. E a reacção do Governo, inicialmente de negação e depois de repressão das liberdades individuais, mostra pela primeira vez um Xi Jinping hesitante, sem saber como minimizar o impacto da doença.

Mas o pior está para vir. Mesmo que a epidemia não tenha um alto índice de mortalidade, os efeitos económicos são devastadores. A produção pára, o consumo baixa. Pela primeira vez em décadas, a China arrisca-se a ter um crescimento económico negativo – e quando a China espirra, o resto do mundo constipa-se (numa analogia um bocado infeliz...) As exportações reduzem-se, não só pela falta de produção, como também pelo estigma que imediata (e estupidamente) fica ligado aos produtos chineses. A China produz um terço dos produtos manufacturados no mundo. É o maior produtor mundial de carvão e o segundo de algodão. O quinto em petróleo. Tem a terceira maior área agrícola.

Por outro lado, o país é o segundo maior consumidor do planeta (depois dos Estados Unidos). As maiores fábricas da Mercedes, BMW e Volvo estão lá. Como também está a produção de smartphones, que se calcula que baixe 12% no primeiro trimestre deste ano.

Xi Jinping parecia imbatível, em todas as frentes. Agora já não parece. As consequências da sua descida de prestígio, num sistema em que o prestígio é fundamental, são imprevisíveis.

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