“Sou várias Simones e posso ser temperamental, até desbocada, mas não sou uma pessoa difícil. Faço o que é preciso ser feito. Faço o melhor que posso. Sempre que posso, nas circunstâncias mais absurdas. Já cheguei a cantar em cima de um poço a pensar:

- Ai, Cristo, se as tábuas não aguentam lá vou eu ao fundo.

Há, por isso, várias Simones. É verdade. Posso fazer de diva, coloco a voz, faço aquele olhar e apresento-me com o queixo uns centímetros para cima. É a isto que chamam altivez? Seja. Há alturas na vida em que temos de ser divas. Eu, com o passar dos anos, aprendi a ser quando é preciso.

A Simone de que mais gosto é aquela que me chateia menos, a que me faz rir, a que não sofre. Aquela que diz que hoje não há cabeleireiro e pronto. Mas depois vem aquela voz na minha cabeça, a voz que atormenta com o recado do costume:

- Ai, Simone, a tua imagem, afinal tens uma imagem.

E a outra Simone riposta de imediato:

- Mas eu sei apanhar o cabelo tão bem.

(…)

Comecei a namorar aos dezasseis com o homem com quem casei na Igreja de São João de Brito. Tinha dezanove anos quando subi ao altar. Não me lembro do vestido. E acho que não existem fotografias, não sei. Seja como for, ao fim de dois meses, regressei a casa dos meus pais. Com que dinheiro? Não sei, mas consegui chegar. A Concordata não me permitiu pedir o divórcio. Tive de esperar pela revolução de 1974 para o conseguir.

Até me casar fui uma pessoa. Depois mudou. E eu que subi até ao altar com a certeza de que iria dizer que não, que não aceitava, mas existia aquela gente toda ali, e a igreja estava cheia... Acabei por ceder, por dizer que sim. Era o único namorado que tinha tido, dos dezasseis aos dezanove anos. Portanto, lá fiz o que estava combinado e casei. Sabe aquelas cordas com nós? Não podia ser tudo direitinho, apesar do tal “sim”. Comigo, nunca nada é direito.

Tinha de pregar alguma naquela altura. Então, fiz uma coisa que adorei: quando chegou o momento do registo e o senhor perguntou o meu nome, eu respondi e não acrescentei o nome do meu marido. Sempre mantive o meu nome.  Sou Simone Macedo e Oliveira. Ponto final.”

Estes são dois excertos da biografia de Simone de Oliveira, Força de Viver, que tive o privilégio de escrever e publicar em 2013.

No palco do teatro Tivoli em Lisboa está em cena “Simone, o Musical”, a história de 60 anos de carreira desta artista única, incapaz de nos deixar indiferentes. É um espectáculo inteligente, de qualidade, comovente. Por ali passa a história de um país e Simone está bem acompanhada: FF, José Raposo, Maria João Abreu, Marta Andrino, Pedro Pernas, Rúben Madureira, Sissi Martins e Soraia Tavares. São todos maravilhosos e merecem o nosso aplauso e o mesmo é válido para o autor do texto e encenador Tiago Torres da Silva. Se não consegue vir a Lisboa, tome nota: Simone, o Musical” estará nos dias 10 e 11 de Novembro no Coliseu do Porto.

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