A nomeação de Steve Bannon como “chefe-estratega” da Casa Branca logo na primeira equipa de Trump levantou imediatamente reparos e críticas. Das várias actividades que se lhe conheciam – produtor cinematográfico, oficial da Marinha e consultor financeiro, entre outras – a mais destacada era como director executivo do Breitbart News, o site oficial da neo-direita radical, a “alt-right”, como ele próprio a baptizou.

Fundada em 2007 pelo místico-supremacista Andrew Breitbart, a página sempre pugnou por uma ideologia que misturava racismo, anti-semitismo, fundamentalismo branco e uma visão apocalíptica do mundo, segundo a qual existe desde a Idade Média uma luta mortal entre os valores cristãos ocidentais e o islamismo, luta essa que só pode terminar com a destruição de um deles. O racismo propõe a expulsão de todos os imigrantes, especialmente os hispânicos e muçulmanos, e a atribuição de todos os postos-chave do país à raça branca. Por outro lado, também combate a globalização da economia e favor num nacionalismo industrial, aquilo a que chama de  “suprematismo” ou “etno-nacionalismo”.

Ou seja, o que Breitbart, falecido em 2012, propôs foi um suporte filosófico e político para o ativismo da extrema-direita. E foi esta plataforma de diversos grupos radicais que Bannon passou a dirigir em 2012, recorrendo tanto a artigos de opinião como a notícias falsas ou modificadas para confirmar as suas ideias. Dois milionários destacaram-se a subsidiar o grupo: Robert Mercer, investidor tecnológico e cientista informático, e Sheldon Adelson, dono de muitos casinos, de Las Vegas a Macau.

Em 2016, Bannon deixou oficialmente (mas não realmente) o grupo de Breitbart para organizar a campanha presidencial de Trump. São-lhe atribuídos os dois pólos essenciais da retórica de Donald, a anti-imigração e anti-ecologia, assim como o slogan “America First”.

Quando o presidente foi eleito, Bannon fez parte da equipa inicial como principal estratega, participando activamente nas lutas internas da administração. Considerado uma espécie de “sombra maléfica” de Trump, era representado no programa humorístico “Saturday Night Live” como a figura da morte, um esqueleto de manto negro com uma gadanha; e a imprensa liberal classificou-o logo da pior maneira.

A sua influência chegou ao ponto de ser nomeado para o restrito Conselho de Segurança Nacional, que tradicionalmente reúne apenas os chefes das várias agências de contra-espionagem e anti-terrorismo. Mas em abril o novo secretário de Segurança Nacional, o general McMaster (que substituiu outro general, Flynn, acusado de negócios obscuros com russos e turcos), tratou de retirar Bannon do Conselho, naquela que foi considerada a sua primeira derrota. Continuou contudo a ter todo o apoio de Trump, apenas limitado pelos feudos com os outros membros da equipa, especialmente o poderoso genro Jared Kushner, a filha Ivanka Trump e o conselheiro económico de longa data de Trump, Gary Cohn.

À medida que as lutas internas na Casa Branca iam fazendo razias entre o staff, numa lista crescente de 'despedidos' que envolveu o porta-voz oficial, Sean Spicer (demitido a 21 de julho) e o chefe de gabinete, Reince Preibus (demitido a 31 de julho) parecia que o poder de Bannon se mantinha intocável. Anthony Scaramucci, nomeado director de comunicações a 21 de julho, não aguentou 24 horas depois de numa entrevista ter insultado o mesmo Bannon. A entrevista saiu na revista “The New Yorker” no dia 30 do mês passado e Scaramucci foi sumariamente despedido a 31.

Até que aconteceu a situação em Charlottesville.

Trump tem insistido em considerar ao mesmo nível os fascistas que promoveram a manifestação contra o derrube das estátuas dos heróis sulistas (esclavagistas) da Guerra Civil, e os esquerdistas (“antifas”, na gíria americana) que se contra-manifestaram. A atitude de Trump, considerada inaceitável até pelos republicanos mais à direita, é atribuída à influência do seu chefe-estratega. Nos Estados Unidos, mesmo nos meios mais conservadores, existe um forte sentimento anti-fascista, que vem da II Guerra Mundial, em que centenas de milhares de americanos morreram a lutar contra os nazis. O ideal conservador e religioso fundamentalista defende menos controlo estatal e não se identifica com fardas e suásticas.

As reações de desagrado e repúdio à atitude que o presidente insiste em repetir permitiram que o novo chefe de gabinete, o general John Kelly, minar a posição de Bannon e, pelos vistos, convencer Trump de que mandá-lo embora será a melhor maneira de apaziguar o partido Republicano que o sustenta no Congresso.

O que traz de volta, agora na prática e não em teoria, a questão se Steve Bannon será mais perigoso junto do presidente ou longe dele.

Sair da Casa Branca não diminuirá o poder de Bannon. Logo à partida, passa a ter uma liberdade de movimentação que não tinha rodeado de inimigos e desafectos. A sua popularidade junto da direita radical e do eleitorado em geral aumentou exponencialmente nestes oito meses de exposição permanente. Bannon é agora o campeão incontestado do nacionalismo branco e já mostrou o seu carácter vingativo e o desprezo pela normas legais. Não lhe será muito difícil unir os muitos grupos de extrema direita e estender a sua influência para os outros países onde têm prosperado.

Para já, Bannon regressou ao Breibart News como diretor-exectivo. Uma fonte não identificada e apresentada como sendo um amigo de Bannon disse a uma repórter da revista “Atlantic” que “agora é que ele vai ser termonuclear (sic) contra os globalistas e transformar o Breitbart numa máquina de morte.”

Certamente que todos os grupos de extrema-direita juntos não representam uma fatia relevante da população, mas a sua capacidade de perturbar a ordem e agitar é muito maior do que o seu número. Com uma orientação concertada e coerente podem influenciar, até pelo medo, uma percentagem do eleitorado – é preciso não esquecer que 40% dos que votaram em Trump ainda considera que o seu discurso sobre Charlottesville faz sentido.

Dinheiro não lhe falta. Diz-se que pretende criar uma rede de comunicação – televisão, Internet e rádio – que faça concorrência à conservadora Fox News. Não é provável que, para já, ataque directamente o presidente, mas com certeza que pode condicionar as suas decisões, uma vez que Trump no fundo não pensa de uma maneira muito diferente de Bannon – apenas pensa menos e tem uma agenda mais simples, que é a sua sobrevivência.

Como muito bem resume o site Quartz, a saída de Steve Bannon da Casa Branca não é o fim, mas apenas o princípio.

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