É possível encontrar algo que devamos agradecer à pandemia: faz-nos entender a importância de pessoas (antes tão expostas a críticas) que todos sabemos estarem a dar tudo o que podem para cumprir o seu dever, para nos proteger e tratar do mal que está a atacar tantos de nós – é o caso, sobretudo, de todo o corpo de pessoal sanitário, também muita gente mais, seja quem cuida dos idosos nos lares, sejam outros cuidadores, os bombeiros, os polícias, os militares, tantos que, com dedicação e generosidade, nos estão a proteger.

Estão na memória de todos as, ao longo de vários anos, constantes críticas ao Hospital de São João, no Porto, designadamente pela falta da Ala Pediátrica. Sucessivas reportagens neste tempo da pandemia mostram como o São João está a ser exemplar em organização, cuidado e eficiência médica avançada. É grandeza profissional e humana dos que lá trabalham. Estas constatações fazem parte do lado bom na pandemia.

Entre o tanto que é ruim, também há a atitude de pessoas. Há para lastimar nesta pandemia quem continua entrincheirado no azedume e no acrescento de tensão quando o que precisamos é do bálsamo de boas soluções para os problemas.

Ouvimos na última semana o líder da Associação de Administradores Hospitalares, Alexandre Lourenço, a lastimar falta de planeamento e de transparência no ministério da Saúde. Parece de lastimar que o líder dos administradores hospitalares, apesar de com vasto currículo, não tenha conseguido administrar pelo melhor para “garantir a qualidade e excelência dos resultados de saúde em Portugal”. Se entendia que faltava ambição nos planos do ministério da Saúde, seria de esperar que interviesse a tempo para, com eficácia, tratar o possível.

Que contraste entre o dito pelo administrador num momento crítico da pandemia e a sábia mensagem de confiança ontem uma vez mais lançada por um “comandante” de serviços de Medicina Intensiva como é José Artur Paiva, com 30 anos de dedicação ao ofício: “o que as equipas nas UCI precisam é de continuar a receber mensagens de motivação e de confiança”. Acrescentou que, apesar de exaustos, aqueles profissionais continuam a ter energia para encontrar as soluções necessárias, e estão a encontrá-las, adaptando-se às necessidades que o dia a dia vai impondo, em ordem, sem caos.

É isto o Serviço Nacional de Saúde. Exemplar, feito por pessoas fora de série. O SNS merece que, de uma vez por todas, tenha os meios para continuar a ser exemplar, mas com fôlego.

O já referido dirigente dos administradores hospitalares, tal como o líder do SIM (sindicato de médicos) e ex-deputado Roque da Cunha, também criticou a possibilidade de transferência de doentes para hospitais estrangeiros. É uma lástima que seja questionado um recurso para cuidar vidas – um país poderoso na Europa, a França, organizou na passada primavera uma vasta operação de transporte de doentes críticos para tratamento na Alemanha, na Áustria e na Suíça, então ainda com folga para tratar. A Itália fez o mesmo.

Ambos têm razão quando lastimam que faltem médicos e que não haja condições para atrair enfermeiros que emigram. Como se resolve? Como concorrer com o mercado luxemburguês onde o salário mínimo é de 2.142€? Ou o da Suíça, onde o mínimo de remuneração está acima dos 3.000€, sendo de quase 4.000€ em Genebra? É um problema do país, transcende o SNS.

A vigilância crítica, frequente em Lourenço e em Roque da Cunha é necessária. Mas, numa época como a que temos, prioritário é juntar soluções.

Todos sabemos que o coronavírus está para nos golpear ainda de modo mais tremendo. Quando a crise sanitária estiver dominada sobrará, catastrófica, a económica e social. O mundo vai perder uma parte do progresso e da qualidade que foi possível conquistar nos últimos anos.

A panela de pressão de cada pessoa, todos nós em alta fadiga pandémica, está no limite do tremendismo e do azedume.

É admirável a atitude médicos, de enfermeiros, assistentes e outros cuidadores que, dentro dos hospitais, apesar de exaustos, amortecem os problemas  e continuam a conseguir inventar soluções. Em colaboração, conseguem. Há quem esteja a considerá-los como heróis. O dia a dia faz-me lidar com alguns. Sei que preferem não ser colocados nessa categoria moral suprema. São seres humanos que exercem o ofício com competência, dedicação e também generosidade no cuidado. Não abusemos da palavra heróis, mas tomemos inspiração na atitude exemplar desses profissionais.

Precisamos de informação séria, rigorosa, serena. Não precisamos da especulação que insufla a indignação momentânea e dispara a ansiedade que está alta.

Tantos médicos e outros profissionais de saúde, daqueles que estão a cuidar de quem desespera, estão a cumprir exemplarmente essa missão de informar e esclarecer, desfazendo as interpretações especulativas. Eles estão também a ser preciosos facilitadores no acesso à boa informação.

Evidentemente, há muito a lastimar em tudo o que envolve o combate à pandemia.

Tentando sistematizar, com a perspetiva de quem estando fora observa e anota o máximo que pode:

É de lastimar que o sistema privado não tenha sido mobilizado mais cedo, pelo menos para o atendimento geral a patologias não-Covid.

É de lastimar que a desescalada no verão, ainda que a incidência fosse baixa, tenha levado muita gente à perceção de que a pandemia era uma ameaça que já não mexia com a nossa vida. A curva tinha caído mas o vírus não tinha desaparecido.

É de lastimar a lassidão nas restrições. O confinamento preventivo firme poderia ter amortecido o tão dramático confinamento curativo.

É de lastimar que as capacidades de vigilância epidemiológica, apesar dos esforços e dos progressos, tenha sido insuficiente. Está visto que precisamos de mais rastreadores.

É de lastimar o descuido de todos nós, cidadãos, que apesar de avisados para usar a liberdade com responsabilidade, abrimos portas à propagação do virús.

Também é uma lástima nestes dias que uns quantos oportunistas se tenham servido dos cargos públicos (o que se sabe envolve alguma gente ligada ao PS) para o estratagema de passar à frente a receber a vacina. Mas são casos pontuais entre tantas dezenas de milhar de vacinados. Quem abusou não pode continuar nas funções dirigentes de serviço público. Mas escusamos de ser bombardeados com estes casos pontuais. O essencial é a motivação para superar a pandemia.

Ainda as vacinas: parece incontestável que o corpo de profissionais de saúde tenha sido considerado prioritário para receber a vacina. Precisamos de todos a salvo para tratar de todos. A prioridade a quem está nos lares também é entendida por todos. A dúvida que em dezembro levou a esperar para vacinar quem tem mais de 80 anos ficou resolvida logo nas semanas seguintes.

Dá confiança ter a noção de que a comissão coordenadora da vacinação está a promover os ajustes em função da evolução do conhecimento. Estar sempre pronto para corrigir é uma virtude. Esta comissão coordenadora da vacinação, liderada por Francisco Ramos inspira segurança para a boa gestão de um recurso que por enquanto ainda só está disponível em quantidade limitada de lotes.

Há muita gente ansiosa, o que explica o nervosismo de alguns envolvidos em próximas fases do processo por não saberem logo tudo. A gestão flexível, ajustada às possibilidades é preferível ao plano rígido.

Mas é uma lástima a gestão da vacinação dos dirigentes políticos. Faltou coragem para logo de início incluir, como devido, os principais decisores do Estado. Depois, a possibilidade de vacinação demasiado vaga e larga instalou a perceção de privilégio aos políticos.

Há muita gente a queixar-se de falta de planeamento no combate à atual vaga da pandemia. Evidentemente há falhas. Mas alguém previu que a vaga que se levantou em janeiro fosse uma catástrofe como está a ser? Quem poderia prever que dezenas de ambulâncias iriam entupir a entrada nas urgências hospitalares, sendo que muitas com pacientes não urgentes?

Parece ajustado que a tomada de decisão seja flexível, ajustada ao conhecimento de cada momento. Reconheça-se que a resposta à acumulação de ambulâncias foi rápida e teve eficácia em 24 horas.

A abertura no Natal contribuiu para a atual calamidade. Mas alguém, nessa ocasião, defendeu o confinamento? Sim, levantaram-se vozes a pedir limitação do número de pessoas à mesa da ceia. Mas quase toda a gente quis o alívio do Natal e houve reclamações pelo fecho na Passagem de Ano.

Antes, houve protestos pelas limitações à restauração. É justificado o desespero de quem trabalha neste setor, que deve contar com atempada ajuda do Estado. Com os restaurantes, tal como tudo o que envolve o turismo, em aperto extremo vai para um ano, é de esperar que não demore mais a solidariedade do país, através do orçamento de Estado. A mesma solidariedade para setores também dizimados, como o da cultura e espetáculos.

Obviamente, não faz sentido que possa haver ajudas de Estado para um negócio multimilionário como é o do futebol. O presidente do FC do Porto, ao já ter conquistado duas Champions, tem de ser craque na função. Mas é lastimável a contundente pressão que fez no outono sobre a DGS para que fosse autorizado público nas bancadas dos estádios. A DGS fez muito bem, como está demonstrado, ao não ceder.

Ainda sobre apoios extraordinários: há muita gente a lastimar que muitos dos computadores prometidos para a escola digital ainda não tenham aparecido. Protesto legítimo, é lastimável falha do governo. Como é que esses computadores poderiam ter sido distribuídos a tempo se, como se lê no portal da contratação pública, a compra, no valor de 3,180 milhões de euros, foi assinada apenas em 30 de dezembro com entrega apontada para este fevereiro. Como explicar a contratação apenas em dezembro do prometido para setembro?

Há tanto a lastimar nesta pandemia, mas também tanta dedicação a elogiar. Entre as muitas pessoas que merecem o nosso reconhecimento estão duas mulheres dirigentes: a ministra da Saúde e a Diretora Geral da Saúde. Naturalmente, tanto Marta Temido como Graça Freitas em algumas vezes não acertaram. Mas mostraram, como líderes, serem valentes servidoras públicas.

A pandemia faz-nos olhar para a frente. Quando estiver definitivamente dominada, é de esperar que peritos independentes avaliem o que correu mal e proponham medidas para que não volte a acontecer. Necessariamente, para melhorar o Serviço Nacional de Saúde e o reforço da capacidade assistencial. Desejavelmente, a cuidar as desigualdades sociais e o que pode ser feito para qualificar os transportes públicos e promover bairros e habitação mais saudável. Depois de tratar as pessoas há que cuidar das pessoas.

Antes, mesmo um apenas cidadão interessado, observador mas sem sabedoria específica apesar de antigo frequentador do curso de Medicina, como é o meu caso, sabe que será preciso um muito criterioso e exigente plano de desconfinamento.

E, evidentemente, há que promover a homenagem às até agora mais de 12 mil vidas perdidas pela pandemia. Falta-nos saber de cada uma daquelas pessoas. Temos números, falta-nos saber daquelas pessoas perdidas.

Será que conseguimos sair dito todos juntos, naturalmente com as democráticas discrepâncias de opinião? Temos fadiga pandémica, dispensa-se o envenenamento da convivência.

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