Durante muito tempo a expressão “conheces alguém com Covid-19” entrou nas conversas de cada um de nós, mais ou menos acantonados, em sucessivos Estados de Emergência e subsequentes períodos de abertura decretados.

Se tal pergunta, porventura, fazia sentido durante a primeira avalanche da pandemia, a segunda vaga, pós-verão, tem levado, paulatinamente, ao desuso da interrogação. Apesar de estar a sair de moda, à questão respondo afirmativamente. Sim. Conheço. O último a saber com teste positivo fui eu. E acrescento a minha mulher e dois de quatro filhos. Fazendo as contas, num agregado familiar de seis, quatro estão infetados. Três, perfeitamente assintomáticos, comigo à cabeça.

A notícia chegou nas vésperas do Natal. Um teste positivo (rápido) levou à realização de seis testes num laboratório. Tudo no espaço de 16 horas entre o primeiro e os restantes.

Ligadas, antecipadamente, as sirenes, uma família inteira a preparar-se para o isolamento profilático, por contacto direto, antes de o estar, por teste positivo. A notificação sobre os resultados, caiu na caixa de correio eletrónico madrugada e manhã dentro. Seis e-mails depois entrámos, desta forma, na estatística de dia 24 de dezembro 2020, em que se registaram 4378 infetados pelo novo coronavírus.

Se, na véspera, já tínhamos revolucionado a casa devido ao caso positivo, devidamente isolado num quarto ventilado, alinhado com as boas-práticas aconselhadas pelo SNS — que respondeu com rapidez —, a soma de mais três e a subtração de dois, veio baralhar as contas nesta divisão.

Primeiro ato. Como lidar com os dois filhos que testaram negativo? Fácil. Passámos todos a usar máscaras em casa e luvas e a funcionar, tentativamente, por “bolhas”. Os positivos cruzam-se uns com os outros, os negativos mantêm-se à distância possível. O que não é fácil quando entram crianças na equação. Ainda para mais, quando há novos jogos da PS4 para jogar e abusar ou espingardas e munições novas prontas a disparar contra um alvo.

A escolha de quartos, devidamente e continuadamente desinfetados, tem parecido uma dança das cadeiras. Só um permanece imutável. Saiu a sorte grande a uma das minhas filhas. O estores servem de tela da Netflix. Os restantes cinco, já rodaram à procura da melhor solução. Da sala, aos quartos, da cama ao colchão, dormir juntos e/ou separados.

As refeições são feitas em mesas separadas. Há talheres, copos e pratos de plástico por segurança sanitária e poupança da máquina de lavar. O Natal 4.0 foi partilhado com a restante família, via câmaras de telemóvel. Troca de presentes incluída.

Segundo ato. O mapeamento de contactos. Recuei seis dias. Falei a cerca de 40 pessoas. Do jantar de amigos à família, passando pelos treinos de ténis e râguebi. Um telefonema, feito em dia de troca de presentes. Senti-me na pele do mensageiro de más notícias para o interlocutor. Um Pai Natal mau. Felizmente, o final foi feliz.

Escutei “obrigado” pela preocupação, “não te preocupes comigo, porque já tive”, “deixa lá, se estiver positivo pode ser teu ou da ida ao Corte Inglês”, um “F...” e uma mensagem que me sossegou no espírito “mais cedo, ou mais tarde, vamos todos receber um telefonema desses”. Tanto quanto a mensagem que ainda hoje recebi com a palavra mágica “negativo” de quem realizou o teste.

De lá de fora, da rua, vamos recebendo, desde a primeira hora, manifestações de vontade de ajuda e ajuda mesmo. De amigos, vizinhos, família e colegas de redação. Em forma de vinho, queijos, doces e pão. Muito pão aqui chega por várias mãos. Para a semana devo necessitar de papel higiénico, aviso já. E vinho e da troca de dois jogos da PS4 que não “rodam”.

As escadas do prédio têm sido o nosso supermercado diário. Parecia estar escrito nas estrelas a antecipação feita por Rui Portugal. As mesmas escadas nas quais os “negativos” descem para ir colocar o lixo repleto de máscaras, luvas e louça descartável.

Por falar em escadas, quem ficou a ganhar por sermos reféns na nossa própria casa foram as nossas duas cadelas. Habituadas ao quintal do R/C, à imagem do sucedido na primeira leva de Estados de Emergência, saltam, de novo, do isolamento para privarem com a família, quatro lanços de escada acima. Para elas, o ano 2020 foi atípico, sim. Mas em bom. Haja quem.

Terceiro e último ato. Os telefonemas do lado da Saúde. “Isto pode demorar uns dias”, avisou uma voz da linha Saúde 24/SNS. O “isto pode” refere-se ao telefona de quem compete telefonar a quem testa positivo. No nosso caso, quatro.

Na parte que nos toca, chamadas não faltam. Por vezes, repetidas, outras, ao lado. “Por vezes, acontece”, dizem.

No meu caso, quando informei ter tido contacto com o caso positivo, recebi de imediato uma chamada. Quando fui eu mesmo notificado com teste positivo, demorou três dias a ouvir uma voz do outro lado da linha. Para saber do meu estado de saúde e para informar que “fui parar aos Olivais e vão remeter o meu processo para a Médica de Família”. Isto depois de a minha mulher já ter transmitido anteriormente “somos seis cá em casa, quatro com teste positivo”. Outra vez, o “por vezes, acontece”.

Desvios numa família numerosa, a viver na mesma casa, e que deveria receber um só telefonema, mas vai recebendo vários, a conta-gotas e, por vezes, com as mesmas perguntas. Feitas à mesma pessoa.

Mas não é tudo. Diariamente, abro um link e preencho um formulário quanto aos eventuais sintomas, que não tenho. Até aqui, tudo normal. No entanto, para meu espanto, recebi ontem um SMS do Ministério da Saúde a dar conta do teste positivo... realizado no dia 23. “Acontece, nem sempre a informação dos laboratórios chegar”, informa a voz do SNS quando confrontada com o insólito aos meus olhos. Fico a aguardar o próximo telefonema.

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