1. A estrada que arde

Não posso falar do Facebook. Não posso falar de mais nada. E, no entanto, o que posso dizer? A minha opinião é irrelevante. Sim, posso pôr-me para aqui a falar de excesso de eucaliptos, de gestão dos recursos, da limpeza das florestas, que parece ser a forma como nós todos, no Facebook, estamos a apagar esse fogo da indignação que, inevitavelmente, sentimos (o que é mais do que natural) — mas, para vos dizer a verdade, não percebo nada disso e serviria de pouco ou nada desatar a falar de soluções quando sei pouco mais do que nada. Sei apenas que morreram 19 pessoas quando iam a passar de carro numa estrada.

Aqui a bater nas teclas, sinto-me fora do mundo. Um dia ofegante, 40º — e acaba assim, com gente morta dentro dos carros por causa dum incêndio que veio depressa demais.

2. As memórias que desaparecem

Como vêem, ando às voltas ao assunto, sem saber o que dizer e, no entanto, não posso fugir dele.

Deixo a memória resvalar para outros incêndios — e penso numa das primeiras memórias que tenho de ver notícias na televisão: o incêndio do Chiado, que vi num pequeno televisor na mercearia da minha avó.

Lembro-me do silêncio dos meus avós, dos meus pais e dos meus tios a olhar para a televisão, onde víamos a coluna de fumo que se erguia dos telhados de Lisboa. Todos em silêncio. Não sabíamos razões, culpados, vítimas... Sabíamos apenas que aquela cidade que era também um pouco nossa estava a arder.

O fogo mata — como matou hoje, em Pedrógão — e o fogo também apaga ruas, edifícios, cidades. E apaga até as nossas memórias — sim, nesse incêndio lisboeta, desapareceu o arquivo sonoro da Valentim de Carvalho. Claro que a morte é sempre bem pior, mas para mim essa perda de registos sonoros é mais difícil de engolir que a perda dos edifícios em si. Vestígios, vozes, documentos... São as memórias que vamos deixando — talvez inutilmente.

Nós já fomos uma espécie nómada, sempre em direcção a terras com mais caça. Fomos uma espécie que conhecia o fogo natural, aquele que sempre existiu e queimava, em certas noites de Verão, as florestas que não eram nossas. Fugíamos do fogo — e até o aprendemos a controlar e a usar para nosso proveito.

Hoje, somos gente que tem casas, que faz aldeias e cidades, tem memórias escritas e vidas presas às paredes onde vivemos. É por isso que, para lá das mortes, o incêndio é sempre uma ferida tão profunda. É por isso que o incêndio de Londres, por exemplo, custa tanto: são as vidas daquelas pessoas, mesmo as que sobreviveram, que mudaram para sempre.

Quer isso dizer que devíamos voltar a ser nómadas? Que esse apego às coisas, às casas, às memórias é mau? Claro que não! O facto de nos doer tanto só prova o valor dos sítios a que chamamos nossos, das casas que habitamos, dos papéis, das gravações, dos fiapos de vida que vamos guardando.

3. Salvar a vida antes de morrer

Nesse outro incêndio que esta semana esteve na nossa cabeça — a torre que ardeu em Londres — houve uma mãe que atirou o filho pela janela para o salvar. Sim, ouvimos tantas notícias, tantas histórias, tantos acidentes ou ataques a que chamamos invariavelmente “tragédias” — e, mesmo assim, tenho quase a certeza que esta história não deixa indiferente nem o mais empedernido leitor de todas as desgraças do mundo.

Só desejo que a mãe da criança tenha percebido — antes de morrer — que o filho caiu nos braços de alguém e sobreviveu.

O que posso dizer? Morremos, por vezes, sem saber como — ou por ódio, como no caso dos ataques terroristas; ou por negligência; ou apenas por acaso. Mas há isto que nos une: o desejo imenso e para lá de qualquer razão de salvar aqueles que amamos, mesmo na hora da morte.

Marco Neves é autor do blogue Certas Palavras. Publicou em Janeiro o seu segundo livro, com o título A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra e Paz). É tradutor na Eurologos e professor na Universidade Nova de Lisboa.

(Nota: O balanço de vítimas do incêndio em Pedrógão Grande foi atualizado na manhã deste domingo, 18 de junho. Leia mais aqui)

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