Trump, o subversor da tradição, não hesitou em requisitar a Casa Branca e assim privatizar o símbolo máximo do poder executivo nos Estados Unidos, a residência oficial dos chefes de Estado, para ali celebrar em apoteose familiar o encerramento do grande teatro político da convenção do Partido Republicano.

Aquela noite de fecho, com pompa e atmosfera triunfal e espetacular fogo de artifício, com milhar e meio de apoiantes convidados nos jardins presidenciais, quase todos sem máscara, resume a estratégia que está a alimentar o ressurgimento de Trump como candidato capaz de voltar a ganhar. Ele é mestre a mudar o assunto.

O que é contado pela campanha de Trump é uma história alternativa à realidade, em que as derivas na gestão da covid que já infetou 6 milhões de pessoas e que causou a morte a até agora 182 mil nos Estados Unidos, mais a tremenda recessão que veio a seguir, são transformadas em êxito do presidente no combate ao mal do “vírus chinês”. A abordagem que faz aos efeitos calamitosos da pandemia é mínima, fugaz e conjugada no passado. Já foi. Ele é mestre a dar a volta à realidade.

Em vez da pandemia, o foco do espetáculo político da campanha de Trump é o posicionamento dele como “salvador da civilização Ocidental” (assim foi apresentado pelo filho, Donald Trump Jr.) e a promessa de imposição da “law and order” na América que “os socialistas aliados com os extremistas” estão a colocar em caos. Trump coloca-se como porta-estandarte da cruzada da lei e da ordem.  Os democratas, pelas críticas à atuação policial em casos como o de George Floyd, deixaram-se apanhar pela armadilha de discurso de que “estão contra as forças da ordem”. Embora, hoje, Biden contra-ataque com a pergunta oportuna colocada aos americanos: quem é que está a ameaçar a segurança das pessoas no país?

A onda mediática, mesmo que sem essa intenção, dá cobertura a esta “outra realidade” contada pela campanha de Trump: os efeitos da covid já estão secundarizados no fluxo das notícias (apesar de 870 mortos só no dia de sexta-feira passada) e os ecrãs estão cheios de imagens de guerrilha urbana que suscita a inquietação e o medo que remete para o apelo à “law and order”.

Enquanto Biden tenta explorar a esperança, Trump serve-se do medo. E o que está nos ecrãs é a emoção que faz medo. Os focos dos episódios de guerrilha são pontuais na imensa América: Minneapolis, Portland e Kenosha. Mas bastantes para a dramatização com diferentes grelhas de análise.

O caso de Kenosha, no estado de Wisconsin, merece ponderação: há uma semana, um polícia branco disparou sete tiros nas costas de Jacob Blake, um negro com 29 anos, cuja vida foi salva pelos médicos, mas que é dado como paralítico. 

De imediato surgiram manifestações de protesto, lideradas por negros mas com gente de todas as cores e muitos brancos. 

Há gangues que se serviram do protesto para assaltar quatro lojas, partir-lhes as vidraças e roubar o que estava lá dentro.

Em resposta a estas pilhagens por esses gangues, um grupo de brancos organizou uma milicia de vigilantes civis armados. Logo no dia seguinte houve um incidente que se tornou trágico: um jovem com 17 anos, branco, Kyle Rittenhouse, disparou, ao que é dito em descontrolo, e matou duas pessoas e feriu outra. As imagens não deixam dúvidas sobre quem disparou. Mas as reações dominantes no discurso republicano branco são indulgentes com Kyle.

Trump quer ir nesta terça-feira a Kenosha, apesar de o mayor lhe pedir para não aparecer neste momento porque a presença do presidente é vista como mais lenha no braseiro.

Na América do lado do Pacífico, em Portland, caravanas de apoiantes de Trump e ativistas Black Lives Matter desafiam-se reciprocamente nas avenidas. O mayor de Portland acusa Trump de “encorajar a violência”.

Está à vista o contraste entre duas Américas, ambas muito polarizadas e mergulhadas no medo difundido pelo país. De um lado, há os negros que continuam com medo dos abusos da polícia e da repressão das manifestações. Do outro, está muito da população branca que tem metido na cabeça o medo dos negros, que teme vê-los mais influentes e que receia violências e pilhagens.

É o quadro que interessa à campanha de Trump, com todo o foco na mensagem de “law and order”. Quantos mais episódios de violência sucederem nestes dois meses, tanto melhor para o candidato com este argumento, nesta América radicalizada em duas partes que se diabolizam uma à outra.

Na convenção dos democratas, Biden apresentou-se como o líder capaz para voltar a unir o país, “a puxar o melhor de todos e não o pior de cada um” e a “proteger a América”. Porém o cumprimento do protocolo assético ditado pela emergência da pandemia pôs toda a gente a falar no aquário dos ecrãs. Apesar do carisma dos Obamas e da obamaniana Kamala, com discursos generosos, vibrantes de estímulo ao regresso da convivência civil e do diálogo, aquele teatro político foi mais cerebral do que emocional. Não galvanizou multidões. Em contraste.

Trump apareceu em carne e osso com o habitual modo “one man show” e versão distorcida da realidade. As primeiras sondagens sugerem que Trump não terá ganho novos eleitores, mas recuperou alguns dos que tinha perdido nos últimos meses. É uma recuperação que o recoloca em jogo em alguns dos “swing states” que lhe estavam a escapar e que costumam ser decisivos, por um escasso punhado de votos, para eleger um presidente: Arizona, Carolina do Norte, Florida, Michigan, Ohio, Pensilvânia, Texas e Wisconsin, entre outros. Biden continua na frente na maior parte destes estados, mas a vantagem deixou de ser tão confortável. Nate Silver, no fivethirtyeight, tem fama (e crédito) de acertar e continua a prever, embora com margem ligeira, a eleição de Biden.

Arquivada a fase das convenções, segue-se nestes próximos dois meses o teste dos debates. Biden e Trump têm três confrontos diretos, certamente imperdíveis, em 29 de setembro e a 15 e 22 de outubro. Trump tem o trunfo de ser um “animal da comunicação nos reality shows” através dos ecrãs. Biden vai conseguir um antídoto eficaz? Vai conseguir impor que a lei e a ordem não são impostas com uma bota sobre o peito ou com tiros nas costas mas com eficiência controlada e decência? Em 7 de outubro há o debate dos vices, Mike Pence e Kamala Harris. 

A lenda política da América diz que John F. Kennedy bateu Richard Nixon em 1960 através da sedução no ecrã. Mas não há história de muitos outros debates que tenham sido decisivos. Talvez estes debates de 2020 venham a revelar-se determinantes na batalha “pela alma da nação” e a escolha de quem deve liderar.

A ter em conta

Chega esta semana A Vida Mentirosa dos Adultos. O novo romance da misteriosa e genial Elena Ferrante tem lançamento mundial neste 1º de setembro e vai certamente seduzir como os anteriores. Já agora: o reconhecimento de Lídia Jorge em Guadalajara é um incitamento para voltarmos à leitura de Os Memoráveis. Ou o inicial O Dia dos Prodígios, entre tantos outros dos romances da escritora portuguesa.

Veneza volta a ser um arquipélago do cinema. A Mostra começa nesta quarta-feira e vai até 12 de setembro. É um dos três mais clássicos festivais europeus de cinema. Ainda em formato estranho, em salas com reorganização para precauções e distanciamento.

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