E qual é a última palavra dos Lusíadas? Não, não é inveja. Embora inveja seja um sentimento, ou será uma atitude?, que grassa com imensa facilidade. O pior é quando temos inveja do passado dos outros e essa sensação nos sufoca e deprime. Acontece-me ver essa inveja nos olhos de jovens jornalistas e fotojornalistas. Eu teço as minhas histórias de quando era jovem e trabalhava em jornais sem internet, sem telemóveis, com um sentido ético, deontológico, com a perspectiva quase romântica de que ser jornalista era ser testemunha da verdade. Mitifiquei, já se sabe. Os jornalistas mais novos, desta nova geração, os ditos millennials, olham para mim com alguma incredulidade e depois com a tal inveja. Uma redação de um jornal é um lugar mítico e não apenas no imaginário de quem é fascinado pelas notícias. Escreveram-se muitos romances, guiões de filmes e de séries de televisão sobre jornalistas, sobre o bom ou mau jornalismo.

Rui Cardoso Martins, jornalista (ia escrever da velha guarda, porque somos ambos almas com mais de 50 anos e começámos a trabalhar na década de 80 do século passado, e depois recuei por me impressionar a maldade do tempo), escreveu a peça de teatro que está em cena no Teatro Nacional Dona Maria II, Última Hora. Podem ver a peça até dia 15 de Novembro e diria que vai ser complicado arranjar bilhetes, mas façam um esforço. São três horas e pouco de duração, não é para gente fraquinha e adicta ao telemóvel de tal forma que fica em privação. E têm de usar máscara e estar separados por uma cadeira de qualquer outra pessoa que levem convosco, mas vale a pena. Vale muito a pena. Não é um exercício saudosista do jornalismo do século passado, isento de redes sociais e outras atrocidades, é um texto muito bom, cómico e sério em simultâneo, actualíssimo, capaz de nos fazer recordar o que é prioritário e o que é acessório, o que é verdade e o que é mentira. Sim, as tais fake news também por ali se discutem.

O texto está nas mãos do encenador Gonçalo Amorim (a minha vénia) e de actores de primeira água, actores excelentes que temos de saudar: Catarina Couto Sousa, Cláudio Castro, Ema Marli, Inês Cóias, João Grosso José Neves, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Maria Rueff,  Miguel Guilherme, Nadezhda Bocharova, Paula Mora e Pedro Moldão. A música é da responsabilidade de Paulo Furtado também conhecido por The Legendary Tigerman. A cenografia e figuras são da responsabilidade de Catarina Barros.

E a peça é sobre? É sobre a democracia, sobre o desgaste de uma profissão que tem de se encaixar nos esquemas financeiros e no universo do digital. É sobre o romantismo de uns e o pragmatismo de outros. É sobre o bem e o mal, se quisermos simplificar, já que a maioria das coisas muito boas são sobre isso mesmo, portanto está certo dizê-lo deste modo. Do director de jornal atormentado, boémio, alcoólico, à estagiária que fará todos os lives que quisermos e mostrará as pernas, até ao jornalista que se adapta, pois claro, ele faz cultura, mas também fará gastronomia, passando pela miséria do administrador manipulador e pouco sério ou pelo coração partido da directora-adjunta, está ali a humanidade por junto. É um retrato irónico, é uma sátira ao jornalismo, às cedências que se fazem, à fragilidade da democracia num país no qual os jornalistas não têm o poder de fazer o que consideram certo. Porquê? Por causa da tal inveja e dos interesses económicos, por causa da corrupção e do perdão da dívida fiscal que só calha a quem tem dinheiro na Suíça. É o mundo real no palco do Dona Maria II e Última Hora o nome do jornal que tem uma direcção que tudo fará para que, amanhã, o jornal possa sair para as bancas, o jornal a cheirar à rotativa, a deixar as mãos sujas, mas a trazer a transparência de quem sabe que o jornalismo sério ainda é possível. E é crucial, caso contrário chegaremos à tal última palavra dos Lusíadas, que não é inveja, é fim. Não queremos o fim do jornalismo, como não queremos da cultura. Precisamos que existam para que possamos viver melhor e com garantias de que a nossa liberdade não está comprometida. Por tudo isto, e mais umas tantas coisas que descobriram no Teatro Nacional Dona Maria II, corram a ver.

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