Uma ida às emergências e o consequente internamento são a melhor – a única – maneira de conhecer o dia-a-dia do SNS e avaliar se precisa de mais investimento ou se pode ser aperfeiçoado com os recursos disponíveis, sempre escassos.

Tivemos ocasião de ver o que acontece a um cidadão anónimo quando se vê obrigado a recorrer ao modelo português do chamado Sistema Social de Saúde Europeu – uma “conquista da civilização” que, infelizmente, não está ao alcance de muitas zonas do globo consideradas evoluídas.

Às dez da manhã de um dia de semana, uma emergência fez-me ligar para o 112 (que é o mesmo número em toda a Europa desde 1991). Explicada a situação, sem necessidade de grandes pormenores, em dez minutos, contados pelo relógio, chegou uma equipa de paramédicos da Cruz Vermelha, uma das organizações que integram o INEM. Dois profissionais bem treinados, firmes e compassivos, fizeram as perguntas processuais e levaram-me com todos os cuidados para o Hospital de Santa Maria. Só me deixaram depois de devidamente registado.

No Sudão do Sul

As Emergências do Hospital de Santa Maria (oficialmente chamado Centro Hospitalar Lisboa Norte) são uma espécie de descida aos infernos, ou estadia num daqueles países que têm mais telemóveis do que torneiras de água corrente. Uma série interminável de salas sem janelas ou ventilação adequada, dispostas num labirinto cheio de curvas, recantos e espaços inesperados, com cadeiras de plástico desconjuntado alinhadas por todas as paredes, deixando algum espaço para macas alinhadas lado a lado. As pessoas sentam-se, apáticas, por horas de espera, com o olhar perdido na dor e os ouvidos atentos a indecifráveis chamadas de nomes, enquanto nas macas outros se contorcem e gritam, ou jazem inanimados sob o olhar desconsolado dos familiares impotentes. A única forma de sustento são duas máquinas automáticas que vendem água, sumos, pacotes de doces e umas coisas que dão pelo nome de sanduíches – pão borrachoso gelado com uma fatia igualmente gelada de algo parecido com queijo. Noutros lugares do hospital, de difícil acesso a partir daqui e a quinze minutos de distância, existem bares baratos com comes de tasca, mas ninguém se atreve a abandonar o labirinto de espera, não vá uma daquelas chamadas longamente espaçadas chamar um feliz contemplado.

O sistema é simples: um médico avalia o recém-chegado e determina quais as análises necessárias; feitas as análises, o médico avalia-as de novo e pede outras, até finalmente dar o veredicto: ir para casa com uma receita ou o internamento. O problema é que entre cada um destes acontecimentos — ser recebido pelo médico ou fazer uma análise — decorre no mínimo uma hora, em média duas ou três. A Cruz Vermelha entregou-me às 10:30, o médico decidiu internar-me à meia-noite.

Não imagino o que possa acontecer a uma pessoa em estado desesperado de doença ou de dor; se tiver sorte, escapará, se não tiver, acontece-lhe como em dois casos noticiados na semana passada (noutros hospitais) em que os pacientes morreram antes de receber assistência.

A entrada em Auschwitz 

Decidido o internamento, o paciente é deitado numa maca que percorre intermináveis corredores cheios de ressaltos no soalho e curvas apertadas, a navegar por outras macas estacionadas em longas filas, até chegar à sala de triagem – um enorme armazém sem janelas, as paredes cobertas até ao tecto com estantes onde se empilham pijamas de flanela áspera, tipo lixa número seis (devido às constantes passagens pelos autoclaves de esterilização) dum tamanho único, dois números abaixo do que cobriria decentemente a pessoa. Dois funcionários frios e maldispostos fazem a lista dos pertences do "prisioneiro", que não poderá levar consigo (excepto a carteira com documentos) e atiram-lhe para os braços as calças e casaco modelo campo de concentração. Dali, já completamente despersonalizado, e sem a possibilidade de acompanhante, o proscrito é levado a correr por uma série de corredores e elevadores onde se misturam pessoas saudáveis, doentes, médicos, enfermeiros, auxiliares e carregadores de contentores de vários tamanhos, como no mercado de Marraquexe.

A estadia na Suíça com a compaixão portuguesa

O Hospital de Santa Maria foi desenhado em 1938 pelo arquitecto alemão Hermann Distel, que lhe concedeu a grandeza solene da imponência nazi. A construção, iniciada em 1940, com os melhores materiais disponíveis na altura, ficou concluída em 1953. Graças a estas circunstâncias, é uma construção excelente, com quartos, salas e corredores arejados e de grandes dimensões, e grandes janelas que ainda conservam em boa operação as persianas metálicas originais, com manípulos de aço. Mesmo os hospitais portugueses mais modernos não inspiram esta qualidade institucional, e mesmo a sobrelotação e acrescentos modernos não tiraram ao HSM o espaço confortável. As camas e demais equipamentos, mais recentes, têm bom aspecto e aquele ar sólido e higiénico que se espera num hospital.

Neste cenário que inspira segurança movem-se com eficiência os profissionais que juntam à competência aquela compaixão que é uma das nossas melhores qualidades. Enfermeiros e auxiliares não só fazem com despacho o que têm a fazer como também mostram uma simpatia e compreensão pelas dores e desconforto dos doentes. Há sempre um sorriso, um gesto, um interesse, que mostram que estão a tratar de pessoas em situações difíceis e querem aliviá-las dentro do possível.

Segundo o que corre, estes profissionais estão sobrecarregados de trabalho, têm horários excruciantes e são mal pagos. O trabalho deles, mesmo que fosse feito nas melhores condições, é desgastante e desagradável. No entanto, em nenhuma altura o doente sente essa aspereza.

Os médicos, sendo mais graduados e tendo maior responsabilidade, não são todos igualmente agradáveis, evidentemente. Alguns têm tendência para tratar os doentes com uma certa sobranceria ou indiferença. Estranhamente, nota-se nos mais novos. A impressão que dá (uma opinião pessoal) é que o curso de medicina, que exige notas muito altas na perícia técnica, não sensibiliza os alunos para a fragilidade emocional dos doentes. Essa percepção vem com os anos de experiência.

Os almoços no Iémen

Os menus de hospital, já se sabe, não são grande coisa. Uma razão será por causa das restrições alimentares diversas dos pacientes; nada de sal, açúcar, carnes vermelhas, etc., que leva à criação de dietas tão sensaboronas que só a fome leva a comê-las. Mas não foi essa a minha percepção. Uma refeição consta de sopa – sempre sopa de cenoura aguada -, um prato principal e sobremesa: pêra cozida ou fruta processada numa pasta, em copo de plástico com marca. O prato principal... nem num estabelecimento prisional se atreveriam. Uma massa quase líquida passa por puré, outra massa de cor diferente passa por abóbora esmagada, ou coisa assim. Em sete dias, nenhuma dessas substâncias era verde. Por razões inexplicáveis, o verde foi banido. A carne era invariavelmente frango, mas não uma pernoca ou peito; parecia as partes do animal eliminadas no empacotamento industrial. Uma vez, ao mexer nos bocados de frango, descobri que era peixe – e que peixe, fragmentos de solha ou algo tão deprimente que nunca se venderia nas lojas.

O facto é que a alimentação está muito abaixo de tudo o mais que o hospital usa. Soube que vem de fora. Portanto passa por alguma verificação ao chegar. É óbvio que quem fabrica e quem verifica não come o que faz e vê. Logo se deduz que a verba para alimentação seque o orçamento do Iémen (o pais onde há mais fome no planeta), ou então há alguém entre o produtor e o consumidor que fica com os bons nacos. Um hospital não é uma colónia penal.

Então, o SNS é bom ou mau?

De todo o sistema, que tem 114 hospitais e funciona 24 horas por dia, todos os dias, só testemunhei um único hospital, e num período muito curto. Tirando a ligeireza desta amostra, trata-se, contudo do maior e mais importante hospital público do país. O SNS, criado em 1979 por António Arnaut, foi um notável avanço na saúde pública e só tem sido melhorado desde então, embora o envelhecimento da população represente encargos sempre crescentes.

Posto isto, parece-me que se poderiam fazer melhorias sem afectar notavelmente os custos. Ainda usando a minha experiência: o serviço de Urgências podia ser substancialmente melhorado. As instalações deveriam ser mais funcionais e agradáveis, inclusive quanto à alimentação de quem fica um dia ali fechado. A maioria das análises não são feitas por médicos (embora sejam todas medicamente avaliadas), pelo que seria possível usar mais equipamento e mais pessoal treinado para não ter de se esperar horas pelos resultados. Os pijamas fornecidos não são dignos e certamente que se pode inventar um sistema em que as pessoas recebam roupa apropriada e com uma qualidade de primeiro mundo.

Estes senãos não têm nada a ver com a qualidade e humanidade do pessoal, a todos os níveis. Se têm condições deploráveis, trabalham como se não tivessem.

E o custo para o paciente é como queria Arnaut: paguei zero euros pela minha estadia.

Talvez as críticas e discussões sobre o SNS devessem descer à terra e resolver o que pode ser resolvido para já. O que seria preciso para isso? Talvez um ministro dar entrada nas Urgências como cidadão comum.

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