A gestão do sistema financeiro durante o mandato de Passos Coelho foi um desastre. Não há outra forma de o dizer. Herdou o caos, sim, com o BES, mas foi incapaz de gerir os problemas que estavam diretamente dependentes de uma sua decisão, como acionista. No caso o Banif e a CGD. E por razões puramente políticas, leia-se, partidárias, nem sequer usou os 12 mil milhões de linha de recapitalização da banca prevista no acordo da troika. Passos privilegiou a aplicação do programa da troika no Estado, e deitou para debaixo do tapete o que poderia por em causa a saída limpa. O que se passa agora com a CGD, o esforço que vai ser pedido aos contribuintes, não pode ser assacado à geringonça, provavelmente explica-se agora porque é que o antigo primeiro-ministro lançou dúvidas e mostrou preocupação com a incapacidade da CGD de devolver 900 milhões de euros de empréstimos do próprio Estado. Já saberia mais do que nos dizia.

Os últimos anos foram penosos, a arrastar problemas. A CGD não foi um caso de polícia, foi um caso de política, dos maus, há mais de 20 anos que é assim. A incerteza sobre o futuro do sistema financeiro privado, a venda do Novo Banco e a OPA do Caixabank sobre o BPI são oportunidades para a CGD, se se souber o que deve ser o banco público. Tal como está, serve para muito pouco, não se diferencia, não acrescenta verdadeiro valor. A escolha de António Domingues foi um sinal positivo, cria a expetativa de que, desta vez, a política ficou à porta. Será?

A CGD tem um oportunidade única para se afirmar, por fragilidade dos outros, porque tem uma nova equipa de gestão, porque esta equipa poderá ter os recursos financeiros – com autorização de Bruxelas, desde que não se verifique uma ajuda de Estado – para limpar o balanço, melhorar os rácios e reestruturar a sua atividade.

Não, a CGD não pode fazer pelas empresas o que as empresas não fazem por si próprio, não pode suavizar os critérios de gestão de risco, não pode emprestar sem garantias, e sem avaliação económico-financeira dos projetos, não pode concentrar risco nos mesmos financiamentos. Porquê? Porque um banco não cai por causa de uma notícia, cai porque a gestão de risco não existiu.

No limite, se o Novo Banco vier a ser vendido a um grupo espanhol dos que já estão no mercado, o Millennium bcp ficará como único banco privado com autonomia de gestão portuguesa, e exposto a novas ofensivas. Sobrará a CGD, fraca como está ou forte como deve estar.

As escolhas

E porque estamos a falar de banca e de bancos, convém ler com atenção a entrevista de Peter Praet, do conselho executivo do BCE, hoje no Público. A mensagem é clara: o BCE quer bancos pan-europeus. Para quem tinha dúvidas sobre as intervenções do BCE na reconfiguração do sistema, aqui ficam desfeitas.

A Europa comunitária está em crise, sim, e a económica não será a mais grave, e mais difícil de resolver. Mais grave é a humanitária, a crise dos refugiados que já não está à porta da Europa, entrou sem pedir licença. Esta semana, a ONU promove a primeira cimeira humanitária, precisamente na Turquia, o país-tampão da Europa dos 28, que pode acompanhar aqui. Como é regra neste tipo de cimeiras, não vale a pena criar expetativas excessivas, a política é muitas vezes insensível, vale a pena aproveitar a oportunidade para chocar o mundo,e os cidadãos europeus em particular. Para não deixar banalizar as imagens da morte.

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