- “Foi para o quarto dele, estava à espera de quê?". Provavelmente sou eu que estou errado, mas eu quando entro no quarto de uma pessoa, não estou à espera de que o meu rabo fique por lei automaticamente à sua disposição para ser escavacado.

- “Ah, claro! Depois de beber copos e andar para ali a dançar, ia para o quarto para jogar às cartas?”. Ou com as alternativas “dominó” e “uno”. Em qualquer das hipóteses, se a determinada altura de um “date” demonstrares vontade de ter sexo, já não podes voltar atrás. Ainda estás só a comer o pão com manteiga e a ver o menu, mas olhas com ar lascivo enquanto mordes o lábio para o teu “date”? Tarde demais para mudar de ideias. Agora não podes deixar o outro pendurado porque ele é mais importante que a tua vontade.

- “Dizes que não, que não, que não, mas quando me tiveres dentro de ti não vais querer outra coisa!” – Esta é uma frase de Afonso Noite Luar. Também calha sempre bem um apologia da violação na nossa literatura. Como sabemos, Portugal nem sequer tem uma cultura machista enraizada há séculos, o que se passa é que as mulheres gostam de se fazer difíceis. Sim é sim, não é sim, desde que o homem queira muito.

- “Mas se a pessoa tem um decote até ao umbigo e uma racha até cá acima e o outro não faz amor há não sei quanto tempo, o que é que a pessoa está a fazer senão assédio ao homem que tem à frente?” – frase da ginecologista Maria do Céu Santo. Fiquei fã. Nada como o bom velho clássico “anda de mini-saia, está mesmo a pedir para ser violada”. Tão verdade, não é? Não conheço uma única mulher que use saia acima do tornozelo sem ser com o propósito de provocar tanto os homens – que são todos uns primatas descontrolados – até serem violadas. Devíamos também adoptar o “anda de Crocs, está mesmo a pedir para ser esfaqueada”, porque aquilo não é calçado que se apresente.

- “Por – inserir determinado número – dólares também não me importava de ser violada!” – Este é giro porque ao pôr um preço na sua dignidade, assume que é o mesmo para todas as outras pessoas do mundo.

E como estes, muito mais tenho visto. A mulher que até mereceu ser espancada porque traiu o marido, a mulher que foi violada enquanto estava desmaiada numa discoteca, mas como estava num sítio com muito álcool foi sedução mútua (que atire a primeira pedra, quem nunca ficou cheio de tesão a olhar para uma mulher desmaiada no chão com os olhos revirados e a bolsar ligeiramente).

Com tudo isto e mais alguma coisa, podemos ficar todos descansados. Para grande parte dos portugueses, violar não é assim tão grave. É andarmos todos com um tubinho de vaselina no bolso para doer menos.

Sugestões mais ou menos culturais que, no caso de não valerem a pena, vos permitem vir insultar-me e cobrar-me uma jola:

- Sexo anal: Experimentem fazer quando as duas partes querem o mesmo. Costuma correr melhor.

- Follow This: A série de reportagens / mini-docs do BuzzFeed News tem uma nova temporada na Netflix.

(Artigo corrigido a 10/10/2018).

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