Deitámos os foguetes antes da festa?

Tomás Albino Gomes
Tomás Albino Gomes

É a pergunta que se repete a todo o momento: o “milagre português”, anunciado primeiro lá fora para ser depois confirmado cá dentro pelos sorrisos rasgados de Marcelo Rebelo de Sousa, foi ou não o celebrar de uma vitória antes do tempo?

Portugal registou hoje mais seis mortos relacionados com a covid-19 do que na sexta-feira e mais 323 infetados, a maioria na Região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT), segundo o boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde. As mortes foram todas registadas na região de Lisboa.

Os dados da DGS indicam 1.561 mortes relacionadas com a covid-19 e 41.189 casos confirmados desde o início da pandemia.

O grande problema é mesmo a região de LVT que hoje, por exemplo, registou 79% dos novos casos de covid-19, com 255 das 323 novas infeções, com os concelhos de Lisboa, Sintra e Amadora a concentrarem o maior aumento na região relativamente a sexta-feira.

A região de LVT tinha na sexta-feira registado 75,2% dos novos casos, 77% na quinta-feira, 82,2% na quarta-feira, 87% na terça-feira, 63,3% na segunda-feira e 77% dos novos casos divulgados no domingo.

Rui Rio já veio dizer que "olhando aos resultados da ação governativa em Lisboa e Vale do Tejo nas últimas duas, três semanas, naturalmente, são dados objetivos que correu mal".

Aos jornalistas, o dirigente considerou natural que existam críticas ao Governo "sob a forma ao retardador que foi a resposta pública à evolução da pandemia em Lisboa e Vale do Tejo", quando já existia experiência a lidar com a pandemia.

Também hoje, a Ordem dos Médicos, num comunicado assinado pelo bastonário Miguel Guimarães, referiu que “os números preocupantes de novos casos de infeção” nas últimas semanas, sobretudo na Grande Lisboa, “resultam da incapacidade de antecipação que a autoridade nacional de saúde tem revelado nesta fase de desconfinamento".

Para o bastonário da Ordem dos Médicos, “é urgente antecipar e não correr atrás do prejuízo, o que implica ter a humildade de ouvir os profissionais de saúde agora, como foi feito no início”.

“É verdade que muito do plano de combate à pandemia e das medidas que foram sendo tomadas acabaram por seguir os apelos da sociedade civil. Nessa altura os profissionais foram ouvidos, nomeadamente, especialistas que estão no terreno e integram o gabinete de crise da Ordem dos Médicos. Agora, numa fase tão delicada como o desconfinamento, houve um excesso de otimismo e uma incapacidade de antecipar as medidas preventivas necessárias em função da evolução da pandemia”, afirmou.

Ontem, investigadores do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge afirmam que "a tendência e a magnitude" dos valores da curva epidémica em Lisboa e Vale do Tejo não permitem concluir que se está perante uma segunda vaga de covid-19.

Hoje, as incertezas parecem ser mais do que as certezas. Não fosse isso e a capa do jornal El País não teria acontecido, nem gerado a indignação que gerou, numa polémica que acabou com um esclarecimento por parte do correspondente do jornal espanhol em Portugal.

Num país a três velocidades, a única decisão correta parece ser a suspensão das festividades até que cheguem novos dados, novas certezas sobre o futuro.

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