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O dinheiro apaga a morte? Ou como as notícias se esquecem das coisas

Pedro Soares Botelho
Pedro Soares Botelho

Lendo o que vou escrevendo neste lugar de crónicas, não há de ser surpresa para ninguém que estou a escrever a partir do Porto. Cidade Invicta de vida fascinante, com uma grande diversidade de espaços e ambientes. Um dos meus preferidos é a zona de Cedofeita, nome de história engraçada, tendo a ver com a igreja feita mais cedo neste lugar (ou seja, cedo feita).

É por aqui, entre as galerias do Bairro das Artes e a melhor fatia de bolo de chocolate num pequeno café com nome de especiarias dum centro comercial em Miguel Bombarda, que fica a rua do Breiner, que morreram 16 pessoas. E eu — e toda gente — não dei conta. Falhei também.

16 pessoas morreram num lar do Porto. Há um lar, no centro da cidade, cuja taxa de mortalidade entre os utentes infetados pelo novo coronavírus foi de 55%, em agosto. A notícia só chegou esta terça-feira, pela mão da jornalista Mariana Oliveira, do jornal ‘Público’.

O surto ficou conhecido no início do mês, mas só agora, depois das insistências daquele diário, os dados foram divulgados. E os dados são esses: mais de metade dos utentes infetados neste lar morreram. Tendo por base números disponibilizados pela Administração Regional de Saúde do Norte, o jornal adianta que o surto de covid-19 provocou a morte de 16 pessoas, num universo de 48 infetados, dos quais 29 são utentes e 19 funcionários da instituição. O diário acrescenta também que permanecem internadas três pessoas.

Porque só se sabe agora? Não sabemos. Comparando com o lar de Reguengos de Monsaraz, onde morreram 18 pessoas, a taxa de mortalidade nesta residência portuense ficou 35 pontos percentuais acima — no Alentejo, cifrou-se nos 20% e originou uma polémica com ons e offs do primeiro-ministro e da Ordem dos Médicos a entrar no debate público.

“Os números foram disponibilizados ao Público pela Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte, após pedidos insistentes de informação e numa altura em que o Público já informara esta autoridade que iria noticiar a morte de 14 das 24 pessoas que tiveram de ser internadas, dados apurados junto de fonte hospitalar”, explica o jornal.

A 10 de agosto, fonte oficial da ARS-Norte avançava à Lusa que o número de casos confirmados na residência sénior subia de 44 para 46 (34 utentes e 12 funcionários), e que havia 10 internados. À época, a mesma fonte afirmava que o surto estava "controlado e a ser acompanhado pelas autoridades de saúde pública".

No dia 29 de julho, surgiu o registo do primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus naquela residência sénior, tendo sido, "testados" todos os utentes e profissionais daquele lar, num total de 225 pessoas (109 utentes e 116 profissionais).

O secretismo é grande à volta da situação de uma residência para idosos, que se situa no coração de uma das zonas mais apetecíveis do Porto. Junto a uma escola de línguas, numa rua de grande passagem, um lar viu morrer 16 pessoas, sem que se desse grande conta.

Que lar é este? É uma instituição de luxo, pertença da Residências Montepio.

Esta tarde, já depois da notícia do Público, a Residências Montepio avançou que, apesar de "tudo ter feito" para evitar a propagação do novo coronavírus, "não foi possível" evitar o contágio no lar do Porto. Em comunicado, a empresa avança hoje que, apesar das medidas implementadas no âmbito da covid-19, na residência sénior do Montepio na rua do Breiner, morreram 16 residentes, que lá permaneciam "há mais de cinco anos".

Segundo a empresa, os 16 utentes apresentavam "várias comorbilidades", tais como, doenças cardiovasculares, patologias respiratórias crónicas, diabetes e elevado nível de dependência.

"O número de mortos nesta unidade do Porto é elevado face ao número de infetados, sendo a taxa de letalidade de 55%", refere o diário, mas a empresa contraria a percentagem, afirmando que a taxa de letalidade no lar do Porto situa-se antes nos 22%. "Percentagem considerada baixa, atendendo à média de idades dos residentes — 90 anos", lê-se no documento, citado pela Lusa.

As contas do ‘Público’, que cita uma confirmação do hospital, referem-se à mortalidade dos utentes (16 mortes em 29 utentes infetados).

Quanto aos colaboradores que testaram positivo para a covid-19, a Residências Montepio avança que sete já se encontram recuperados e seis já retomaram funções, salientando que "nenhum colaborador foi hospitalizado". "Todas as medidas de prevenção por contágio estão a ser continuamente implementadas e reforçadas na Residência Montepio Porto Breiner, assim como nas demais unidades residenciais", conclui a missiva.

Questionado hoje pelos jornalistas sobre a notícia do Público, à margem da sessão de lançamento da aplicação 'Stayaway covid', o presidente da ARS-Norte, Carlos Nunes, recusou-se a prestar declarações. Fonte da entidade disse à SIC que só no dia 24 de agosto teve conhecimento dos números.

Uma morte é sempre uma morte — independentemente do sítio onde acontece. É uma vida que termina. Cessa. E quando tal se verifica, há que apurar as causas: seja porque envolve teias políticas, ou porque mancha a imagem reputada de uma empresa. Aos media, cabe a ponderação e o equilíbrio de não encher o tempo com os pobres que morrem, fechando os olhos aos ricos que já estão mortos.

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