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No fim restam as cinzas do que já teve vida

Alexandra Antunes
Alexandra Antunes

A história repete-se todos os anos. As temperaturas começam a aumentar, o calor faz-se sentir e a terra arde — seja por mão humana ou não. Onde havia árvores que pintavam a paisagem de verde passa a haver chamas, fumo.

Na tarde de ontem, um incêndio deflagrou no concelho de Monchique. Depressa se estendeu para duas frentes, uma delas atingindo o município de Portimão. Quase 500 bombeiros estiveram no terreno, ajudados por meios aéreos.

Quem vê o fogo chegar perto tem medo. Há casas, carros e animais a proteger. E famílias inteiras. Passado o susto, reflete-se sobre o que se perdeu — e sobre o que podia ter sido se as chamas continuassem o seu caminho incerto, sem mãos que as travassem.

"A GNR quis que saíssemos [de casa] mas não saímos. Salvei os meus animais e o que pude porque estava lá e porque o vizinho andou sem parar com a máquina [de rasto] de um lado para o outro. Foi ele que salvou as casas", conta Francisco, morador na aldeia de Pereira, em Portimão.  "Foi um susto e bem grande, dá para ver que está tudo queimado aqui à volta".

Do lado de Monchique ainda se está de olhos postos na terra. José Conceição tem 80 anos e vai atacando como pode um pequeno foco de reacendimento à beira da estrada.

"Sempre vivi aqui e nunca vi isto tão bravo como ontem, foi uma coisa fora do normal", revelou à Lusa, enquanto usava um balde com água e uma pequena ramagem para evitar mais chamas.

Mais à frente, outras pessoas faziam contas aos estragos, uma vez que as chamas chegaram também a atingir colmeias e terrenos agrícolas. Neste sentido, o Governo informou que os agricultores que sofreram prejuízos no âmbito do incêndio já podem reportá-los à Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve.

Agora, na serra, os bombeiros ainda observam o possível regresso do fogo: o vento não dá tréguas e podem despertar alguns focos. Os meios aéreos continuam a cruzar o céu, atuando assim que necessário. E, até agora, não há resposta para a origem do fogo — mas a Polícia Judiciária está a investigar.

Mais a norte do país, na Sertã, distrito de Castelo Branco, um incêndio começou neste domingo. O alerta foi dado às 15h15 e o fogo atinge uma zona de mato, não havendo até ao momento informação sobre habitações em risco. Cerca de 150 bombeiros e oito meios aéreos estão no local e o combate está a "evoluir favoravelmente". Há ainda um outro fogo no concelho, que deflagrou por volta das 14h44 e estava a mobilizar 58 bombeiros, 14 meios terrestres e um meio aéreo.

Em Monchique, um elemento da GNR que controlava o trânsito junto da zona do incêndio ia indicando às pessoas que "não podem passar". Na mente de todos ainda estão as imagens do incêndio de Pedrógão Grande, com a sua Estrada da Morte que ninguém quer ver repetida. Mas há sempre curiosos: "Continuamos a ter o turismo dos incêndios, é uma tristeza", lamentou o militar. Afinal, aquilo que se vê depois das chamas é sempre o mesmo: no fim restam as cinzas do que já teve vida.

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