O futuro da música à luz da Web3 foi o tema que juntou numa conversa sem moderação Luís Clara, o músico que assina como Moullinex, o editor responsável pela Discotexas e já agora o engenheiro de software, e Rui Mascarenhas, da Bondlayer, empresa responsável pelos sites e apps de festivais como NOS Alive, Paredes de Coura e Eminente, gerente do espaço Maus Hábitos, no Porto, e com um percurso ligado à música em operadoras de telecomunicações e na EMI / Valentim de Carvalho.

O tema juntou-os, mas a visão de futuro divide-os. Luís Clara acredita numa maior justiça na remuneração de músicos e dos próprios fãs com o avanço da Web3, Rui Mascarenhas duvida que a indústria e as grandes tecnológicas o venham a permitir. Mas ambos concordam que essa é, e sempre, foi a promessa adiada da internet.

Mas olhemos para o atual contexto através das palavras de Luís Clara. “Todos os players da música acabaram por contribuir para a desvalorização da música gravada e o valor que o consumidor atribui é muito baixo. Tendemos a achar que é gratuita e o valor para apoiar os artistas é direcionado para vê-los ao vivo”. Diz o músico que também é editor de 150 títulos, mais de 400 músicas e que tem em Portugal apenas o quarto mercado atrás de países como Alemanha, México e Estados Unidos.

O que leva à questão: e se um artista decidir não tocar ao vivo? “Os Beatles, a certa altura, decidiram só gravar discos e não tocar ao vivo – hoje em dia seria impossível para uma estrutura como a deles não fazer concertos”, responde Luís Clara. “E é aí que entra a Web3 e a blockchain em que sentimos que somos parte de uma patronagem de um projeto artístico ou de uma startup que é um projeto artístico”, afirma. “É por isso que me interessa especialmente esta área que me liga ao meu background mais antigo em tecnologia”.

“A complexidade que tem sido descrever os dados da música, de todos os que fazem parte – do músico, ao compositor, ao editor, todos, é o sonho de quem faz streaming”, considera, por seu lado, Rui Mascarenhas. Mas o percurso de 30 anos que já percorreu, quer do lado das operadoras de telecomunicações a negociar direitos de músicas, quer do lado de editoras como a EMI, leva a que veja como evidência que a “tarefa hercúlea” de digitalizar décadas e décadas de música gravada não será completada de forma a favorecer os músicos.

“Se o Spotify tivesse a música descrita desta maneira todos ganhavam”, sublinha, criticando o que designa como “alisamento” que a plataforma optou por fazer e “que se tornou o standard sem fazer identificação fina dos vários contributos”. Ou seja, não há convergência entre o real – que contempla todos os contributos que existem numa música – e o nominal, que é o que as plataformas digitais nos apresentam.

“Para a indústria da música era um sonho que o Spotify forçasse os metadados”, concorda Luís Clara. “Eu pago o Spotify e os meus 6 ou 7 euros podiam ir a 100% para os artistas que eu ouço, mas não vão, vão para o modelo estatístico”. E, neste modelo de distribuição suportado pela estatística, mais uma vez não há uma convergência entre o real e o nominal.

O que leva Rui Mascarenhas a questionar a aplicação prática da tecnologia, incluindo a blockchain. “Ou há enforcement da lei ou não é possível”, afirma.

Para Luís Clara, a solução estará nos tempos que temos pela frente. “O mundo real ainda não está descrito digitalmente, só porque ainda não foi encontrada a solução”. Uma das soluções, aponta, passaria por os criadores de música “poderem fazer o claim da música que fosse delas” em vez de serem obrigados a registar a música antes de fazer o upload para plataformas digitais.

“Se disso depender eu ser pago, eu faço”, afirma. “Quando os fãs ao contribuírem puderem pagar o trabalho do músico e ainda participar nos lucros, após esse trabalho estar pago, há um incentivo”.

A utilização de Inteligência Artificial (AI) para criar música, recurso que já está a ser usado pelo Spotify, é outra das forças transformadoras que se antecipam na indústria. Há anos que as editoras analisam padrões de consumo para definirem propostas musicais e estes padrões podem agora ser interpretados com as ferramentas adicionais de machine learning e AI – mas há também novas possibilidades criativas suportadas pela tecnologia.

Para Luís Clara esta “música sem músicos” não deve intimidar. “Não me assusta nada a IA como utensílio de criatividade. Provavelmente os pintores olharam para os fotógrafos da mesma maneira e os fotógrafos olharam para os cineastas da mesma maneira. Há um aspeto de curadoria na arte produzida por IA, como noutras formas de criar. Tudo o que possa ajudar o processo criativo é bem-vindo”, remata.

Como o Spotify se tornou a força que modela a música

A digitalização da música responde por vários nomes, mas a plataforma de streaming Spotify é hoje um nome incontornável ombreando – e ganhando em vários níveis – a um gigante com mais estrada feita como é o caso da Apple.

A indústria da música é hoje é 84% digital e, por isso, dependente do streaming em termos de receitas. Isto ao mesmo tempo que, depois de décadas em constante declínio, o vinil seja de novo aclamado, ultrapassando, em 2020, os CDs em termos de vendas totais pela primeira vez desde 1986.

O streaming democratizou o acesso à música e permitiu que muitas bandas e músicos alcançassem audiências que antes teriam mais dificuldade em chegar. Mas também reduziu em larga escala a margem de lucro que os artistas conseguiam tirar do seu trabalho e levou-os a apostar noutras formas de receitas (olá, concertos e discos de vinil!).

Em média, os discos custam 7 dólares a ser produzidos e são vendidos por 25 dólares, o que dá um lucro de 18 dólares. De acordo com a The Hustle, que abordou este tópico, a venda de 100 discos de vinil equivale à receita de:

+ 900 mil views no YouTube

+ 450 mil streams no Spotify

+ 250 mil streams na Apple Music

A força em números

Uma das formas de se ver a força (popularidade) do Spotify é através dos subscritores pagantes. E, desses, a plataforma sueca fundada em 2006 por Daniel Ek, tem muitos. De acordo com os dados da Statista, no primeiro trimestre de 2022, o Spotify tinha 182 milhões de subscritores premium em todo o mundo. Em 2021, no período homólogo, registavam cerca de 158 milhões. Para se ter ideia do crescimento galopante:

  • A base de subscritores aumentou exponencialmente nos últimos anos e mais do que duplicou desde o início de 2017.
  • Em 2015, no primeiro trimestre, quando apareceu o primeiro serviço premium por subscrição, o Spotify tinha 15 milhões. E desde então nunca mais parou de crescer.

Mas nem só de subscritores pagantes se fazem os números da sua força. Há que contar também com os utilizadores ativos. E, aí, o Spotify também brilha com 442 milhões de pessoas a utilizar recorrentemente a plataforma. Mais: isto significa um aumento de 60 milhões de utilizadores no espaço de um ano.

Segundo um relatório publicado pela MIDiA Research em janeiro, com dados referentes ao primeiro trimestre de 2021, existem mundialmente 532.9 milhões de subscritores pagantes de serviços de streaming de música. O Spotify tem 31% desse mercado, que continua a crescer de forma rápida. O TOP de subscritores segundo o documento:

  1. Spotify – 31%
  2. Apple Music – 15%
  3. Amazon Music – 13%
  4. Tencent Music – 13%
  5. Outros – 10%
  6. YouTube – 8%
  7. NetEase – 6%
  8. Deezer – 2%
  9. Yandex – 2%

No entanto, quando se fala de utilizadores ativos, existem outros “elefantes na sala” a ter em conta. É o caso da chinesa Tencent Musicque em março de 2022 tinha 604 milhões de utilizadores mobile ativos nos três serviços da empresa (QQ Music, Kugou e Kuwo). E, claro, o YouTube, que, segundo dados de 2020, tinha mais de dois mil milhões de pessoas todos os meses a ouvir música nos seus canais.

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