No longínquo mês de outubro de 2012, há mais de quatro anos, o site The Next Web descrevia a conferência F.ounders como o “Rolls Royce” dos eventos sobre tecnologia. Nos Estados Unidos, a nova vaga de startups tecnológicas era já uma realidade, mas na Europa o movimento acusava o atraso de anos, apesar de serem já visíveis alguns sinais de que algo estava a mudar. Portugal alinhava com a maior parte dos países europeus. Quatro anos depois, três dos mais influentes nomes no ecossistema de startups em Portugal – Stephan Morais, administrador da Caixa Capital, Carlos Silva, presidente e co-fundador da Seedrs e Pedro Rocha Vieira, CEO e co-fundador da Beta-i, já olham com naturalidade para este “Rolls Royce”. Continua a ser um evento exclusivo, o que significa de acesso restrito. Mas este tipo de encontros é hoje mais frequente. Ainda que a conferência da F.ounders de 2016 tenha tido a particularidade de, pela primeira vez, se realizar em Portugal enquanto evento associado à Web Summit.

E o que fez deste evento um “Rolls Royce”? Para Carlos Silva, da Seedrs, tem tudo a ver com a curadoria: “Há poucos eventos com uma curadoria tão boa ao nível dos participantes. É um evento que acrescenta imenso valor a quem participa”, afirma. Stephan Morais, para quem o termo “Rolls Royce” não é o mais adequado porque “há vários eventos para investidores e empreendedores com número reduzido de participantes onde o conteúdo é muito semelhante”, corrobora, porém, nesta ideia de valor: “dentro da Web Summit é talvez o evento mais interessante até porque o conhecimento dos participantes sobre tecnologia e investimento é muito alto e portanto para os profissionais do setor torna-se mais interessante a discussão em pequenos grupos”.

Para perceber a ideia de exclusividade associada ao evento da F.ounders é importante explicar do que se trata. Na génese, trata-se de um evento para fundadores (founders) de startups, venture capitalists (VCs) e empresas ligadas com o setor. Não é qualquer startup que tem acesso – das portuguesas, este ano, foram convidadas apenas algumas das mais emblemáticas como Farfetch, Uniplaces, Taldesk, Codacy e Hole19 (num total de mais de 1400 startups presentes na Web Summit). Além de investidores e de pessoas ligadas a entidades públicas ou privadas – como a Beta I, a Startup Lisboa, a Seedrs ou o próprio ministro da Economia - que dinamizam a inovação e a criação de novos negócios, são também convidados, habitualmente, alguns jornalistas e opinion leaders. A lista não fica completa sem algumas figuras da televisão e do meio artístico – o evento realizado entre 10 e 12 de novembro em Lisboa contou, por exemplo, com a presença da actriz Rita Pereira e da apresentadora de televisão Ana Rita Clara. Nos eventos da F.ounders realizados em Dublin estiveram presentes nomes tão diversos como o do músico Bono, Wael Ghonim, um dos nomes da primavera árabe no Egito, apenas para referir alguns.

“É essencialmente um evento informal para networking e para partilha de aprendizagens entre pessoas com desafios semelhantes”, diz Pedro Rocha Vieira, da Beta-i.

Sendo esta a sua essência, não é “nada elitista”, sublinha Stephan Morais. “Pelo contrário, as pessoas são bastante terra-a-terra como é apanágio do sector, exceto no que toca à visão sobre o futuro que é menos terra-a-terra e mais visionário”. Aliás, a informalidade que se espera é também uma das razões de o grupo de convidados ser forçosamente reduzido. “O facto de o evento ser relativamente fechado faz com que os participantes sejam mais honestos e abertos em relação ao problemas e dificuldades que enfrentam”, explica Carlos Silva.

O que acontece então durante os dois dias do evento que o torna tão especial?

“Essencialmente são discussões em pequenos grupos de 10 a 15 pessoas sobre o limiar atual do desenvolvimento tecnológico, liderados por quem está a desenvolver ou investir nessas tecnologias – temas como realidade aumentada ou virtual, robótica, inteligência artificial, veículos autónomos, expedições espaciais, angariação de capital, gestão de equipas, diversidade, alterações climáticas, gestão dos media, aquisições, fintech e muitas outras mesas redondas, bem como alguns painéis mais genéricos sobre a actualidade económica mundial”, detalha o administrador da Caixa Capital. O que o faz realmente diferente, acrescenta Carlos Silva, “é acima de tudo a qualidade das pessoas presentes. São cerca de 200 pessoas todas elas com projetos e experiências excecionais”.

A conferência da F.ounders começou quando a Web Summit acabou: na quinta-feira, dia 10 de novembro, à noite. Decorreu até sábado à noite e o programa incluiu jantares, nomeadamente na Penha Longa e no Estoril, almoços, passeios, desporto, conferências, mesas redondas e um tour nocturno por bares e discotecas. No primeiro dia, foram organizadas várias mesas redondas para discutir temas como a internacionalização, as fronteiras de Inteligência Artificial ou tecnologias do futuro. O segundo dia foi preenchido acima de tudo com atividades de networking.

Explicado o conceito, a pergunta que se impõe é mesmo a dos ‘million dollars’: é aqui que os negócios a sério são fechados? E a resposta é nim.

“De facto, a Web Summit acaba por ser mais uma feira e as conversas e contactos mais interessantes acontecem nos jantares, festas, eventos fechados, etc. que vão acontecendo em redor da Web Summit. Não é apenas no F.ounders que isso acontece”, adianta-nos o administrador da Seedrs. O que corrobora a experiência partilhada, em Lisboa como em Dublin, de vários gestores de startups. A Web Summit não é um encontro para casar com um investidor, mas pode dar oportunidade de se conhecer alguém, quem sabe para uma relação mais séria mais tarde. A F.ounders não é assim tão diferente – talvez apenas o namoro possa ser mais consequente. “Nem na Web Summit nem no F.ounders se fecham negócios em geral, contrariamente ao que se pensa. Quanto muito começam-se a discutir ideias nestes eventos porque se iniciam relações. Desenvolver e investir em tecnologia é demasiado complicado para que se tomem decisões rápidas”, remata Stephan Morais.

No fundo, o objetivo é simples: colocar pessoas a falar com pessoas em ambientes fora do formalismo de uma reunião de trabalho. “Os jantares e eventos de network em torno da Web Summit contribuem para isso. O F.ounders não é desenhado para fazer negócios, mas sim para criar relações e trocar experiências, mas como as conversas são mais honestas e de qualidade podem surgir e surgem várias oportunidades de negócio”, diz Pedro Rocha Vieira.

Na Irlanda, a F.ounders deixou frutos, como explica o CEO da Beta-i. “O F.ounders na Irlanda contribuiu para que cerca de 50 CEOs internacionais abrissem os seus escritórios europeus na Irlanda, pode ser que isso também venha a acontecer em Lisboa. Foi também uma forma alguns dos founders portugueses que vivem fora se encontrarem”.

“Naturalmente se não fosse cá, não haveria provavelmente quase nenhum português a participar no F.ounders”, acrescenta Stephan Morais.

A perceção de Carlos Silva é de que “estiveram presentes neste F.ounders mais portugueses do que em todos os outros F.ounders juntos. Isto diz bem da importância que tem o facto de este F.ounders ter acontecido em Portugal. Há inclusive várias pessoas que vieram ao F.ounders e não vieram à Web Summit e assim tiveram a oportunidade de aprender mais sobre oportunidades de negócio em Portugal”.

E depois da Web Summit, e depois da F.ounders? 

Os eventos, concorda quem acompanhou de perto, servem sobretudo para promover a cidade, o país e dar visibilidade às ideias e negócios desenvolvidos em Portugal. “São montras muito importantes para a qualidade das empresas portuguesas e o seu impacto será ainda mais evidente daqui a dois ou três anos quando algumas das startups que estão hoje a começar puderem tirar partido das ligações que agora foram feitas”, considera Carlos Silva. E, claro, há uma expectativa que mais empresas internacionais – startups, investidores, companhias de maior dimensão –possam escolher Lisboa para acolher os seus escritórios. “É importante que os founders nacionais possam conhecer bem outros founders internacionais e conhecerem-se melhor entre si. Houve várias conversas que podem resultar em novos negócios e vários founders internacionais podem vir a escolher Lisboa para ter parte das suas operações ou as suas segundas casas”.

Agora é não esperar para ver – é preciso fazer da Web Summit e F.ounders mais do que um evento no calendário.

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