No próximo ano vamos festejar o vigésimo aniversário daquilo que é considerado por muitos como um dos maiores momentos de anticlímax que assombrou o globo: o Y2K, vulgo "bug do milénio". 

Para quem nasceu após o ano 2000 e a memória não contempla vivamente a ansiedade vivida durante a passagem de ano de 1999 e os dias que se sucederam, trata-se de um problema informático mediatizado sob o nome de bug 2000 ("Year 2000 problem" ou Y2K, na sigla em inglês) que fez soar os alarmes um pouco por todo o mundo ocidental. Simplificando, os computadores/softwares mais antigos apenas reconheciam dois dígitos para o campo de data, podendo assumir o dia 1 de Janeiro de 20(00) como o primeiro dia do ano 19(00). Em Portugal, não foi diferente. Bancos não abriram por precaução, escolas levaram a cabo uma preparação para que não existissem problemas no dia. No final de contas, acabou tudo bem — e sem bug.

Pois bem, dezanove anos após a viragem do milénio, o mesmo receio: uma espécie de crash informático pode vir a virar o Japão do avesso. A razão? A mudança de uma Era. É que Akihito, o 125.º Imperador da história do Japão, aos 85 anos, vai abdicar do trono. 

(Ainda que o Imperador quisesse abdicar, tal só foi possível porque o Governo o autorizou, uma vez que foi necessário que o conselho de ministros japonês aprovasse um projeto de lei especial que autoriza a abdicação do imperador, uma modalidade excecional e válida apenas para o atual, Akihito.)

31 anos da Era "Heisei"

A presente Era "Heisei" começou em janeiro de 1989, quando Akihito sucedeu ao pai Hirohito, determinando o fim da Era "Showa". De recordar que o Japão define a sua história através de Eras e que, perante a constituição japonesa, o imperador desempenha "funções de representação do Estado" e é "o símbolo da nação e da unidade do povo". No entanto, a Era de Akihito fica marcada por ter sido aquela que acompanhou a revolução digital e os primeiros passos da Internet. Ou seja, nunca houve problema até então porque, simplesmente, nunca houve outra Era neste contexto.

De acordo com o Digital Trends (DT), o calendário japonês está presente em muita documentação oficial do país. Quer isto dizer que serviços como os correios, bilheteiras de transportes públicos, até à própria banca ou mesmo caixas de multibanco, podem vir a ser visados por este problema.

No ano passado, em abril, a Microsoft comentou no seu blog acerca desta possibilidade. "A magnitude deste evento nos serviços de computação que utilizam o calendário japonês poderá ser similar ao evento Y2K que utiliza o calendário gregoriano", pode ler-se. "Para o Y2K, existiu um reconhecimento à escala mundial desta mudança, resultando num esforço das entidades governamentais e fornecedores de software em trabalhar no problema vários anos antes do dia 1 de janeiro de 2000", revela o artigo. 

No entanto, ainda de acordo com o artigo do DT, a maioria das empresas japonesas que trabalha com parceiros internacionais e/ou emprega trabalhadores estrangeiros, já utiliza o calendário ocidental, pelo que não devem ser afetados por este problema. Porém, o Japan Times revela que há uma parcela considerável de empresas que ainda não realizaram testes e que o dilema informático é preocupante.

Restam poucas semanas para os que ainda não mudaram

As empresas no Japão já não têm muitas semanas para reformular o seu software para corresponder à primeira mudança de Era digital quando o novo Imperador for empossado no dia 1 de maio.

O Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI) está chamar as empresas que utilizem que o calendário japonês nos seus sistemas informáticos para testar novos programas e fazer testes para detetar possíveis anomalias. Ou seja, como exemplifica o Japan Times, os documentos oficiais do país — como jornais ou até entidades governamentais — marcam os anos com a calendarização japonesa. Isto é, o nosso ano 2019 é o “31 ano de Heisei” para os japoneses.

O METI espera que as empresas não só levem a cabo testes internos, mas também façam simulações com os seus associados. Contudo, até há pouco tempo, de acordo com o Japan Times, apenas 20 % das empresas o fez. O que levou a que um ministro, num seminário organizado em fevereiro pela Microsoft japonesa, apelasse para que esta medida não fosse esquecida.

Especialistas em cibersegurança relembram a importância das lições que retiramos do “bug do milénio” — é que estas podem ser bem úteis no futuro. E um bem mais próximo daquilo que se possa pensar, como explica o The Guardian ao alertar para este "bug do Imperador".

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