Para Jonathan McDowell, astrónomo no Centro de Astrofísica da Harvard- Smithsonian, o espaço “é intrinsecamente global” e perante o crescente número de satélites ativos – que está a disparar – isso é um problema. “Há cerca de um ano, havia cerca de 2000 satélites ativos e agora estamos com mais de 3000 e estamos a olhar para, talvez, até 100 mil satélites em órbita na próxima década”, explica. Se tal se confirmar, teremos um problema de gestão de tráfego espacial que não existiu até agora, além de uma elevada quantidade de resíduos espaciais, acrescido ao perigo e colisões eminentes.

No dia anterior à intervenção de McDowel na Web Summit, a 3 de dezembro, a Agência Espacial Europeia teve dois dos seus satélites de observação e monitorização em rota de colisão com lixo espacial.

O astrónomo sugere então a implementação de diretrizes para que possa ser estabelecida alguma ordem, destacando que as Nações Unidas são uma organização importante para promover a discussão do tema e que será necessário um comité internacional.

Peter Martinez, diretor executivo da “Secure World Foundation”, reitera o rápido aumento de países na “caminhada espacial” e concordou que o “tráfego espacial é uma questão que terá de ser abordada à escala global". Sugere, porém, que a solução poderá começar a nível nacional, com o desenvolvimento das melhores práticas e de regulamentação, com a possibilidade de se tornar um bom modelo para outros países.

Com o volume de dinheiro que tem inundado o domínio espacial, Martinez destaca que, além das diretrizes, surge a necessidade de informar os investidores sobre a importância de realizar investimentos responsáveis no espaço para que não haja “pessoas apressadas a investir em constelações” e depois saírem do negócio, deixando para trás um rasto de satélites em órbita que não são controlados por ninguém.

Perante este cenário, McDowell sugere que umas das respostas a estas questões será o início de um movimento ambientalista espacial, que combina a preocupação em relação ao lixo espacial com a preocupação sobre a proteção planetária e outras formas que afetam o ambiente espacial.

Os quatro cenários sobre o futuro da exploração espacial

Perante a intenção da NASA de estabelecer uma base na Lua e chegar a Marte, de a China desenvolver os seus próprios projetos e, ainda, os novos intervenientes corporativos, como a SpaceX que pretende chegar a Marte e estabelecer o seu “próprio regime legal” no planeta, certamente, o futuro da exploração espacial torna-se incerto.

Para o futuro, o diretor executivo da “Secure World Foundation” considera que pode haver vários tipos de cenários e que, havendo colaboração governamental mundial, e se o espaço comercial continuar a prosperar e florescer, poderemos assistir a um futuro semelhante ao verificado no filme de Kubrick, 2001: Odisseia no Espaço, em que “o destino da humanidade avança para o espaço e se expande para o sistema solar”, e, tal como previsto no filme, poderemos ver a economia espacial a valer milhares de milhões de dólares.

O futuro espacial também pode ser um pouco mais sombrio e, mantendo a analogia cinematográfica, o astrónomo sugere a possibilidade de um futuro como no filme Elysium, em que o setor comercial evolui muito rapidamente, mas a cooperação governamental do espaço não se mantém e, nesse caso, “o espaço estaria cheio de oportunidades, mas apenas para alguns”, movidos pelo interesse das empresas.

Outro futuro possível, sugere, seria ver as questões de governação cooperativa resolvidas, mas a humanidade não ver o seu futuro no espaço, mantendo-se ligada à Terra. Neste cenário, a exploração espacial seria pouco mais desenvolvida do que hoje em dia.

No quarto e último cenário especulado por Peter Martinez, as questões de governação não seriam resolvidas e os confrontos militares estender-se-iam ao espaço, gerando ainda maiores problemas de lixo espacial. Seria “um futuro muito pouco atrativo para investimentos comerciais no espaço, pelo que o espaço comercial seria muito limitado e serviria, sobretudo, necessidades militares e governamentais”.

O astrónomo refere que este, certamente, não seria um futuro que deveríamos aspirar e que, na sua opinião, estamos a caminho da dominação da exploração comercial, a não ser que se comece a reagir rapidamente.

Questionado sobre o futuro que preferia, Martinez indica que gostaria que fosse semelhante ao “cenário que reflita o '2001', pois é o mais otimista, inclusivo e expansivo para a Humanidade no espaço”, reiterando que não quer dizer que “a visão do Espaço comercial seja má”, apenas pensa “que o melhor futuro possível será um em que a governação acompanhe o ritmo do espaço comercial”, relembrando que “temos de trabalhar para o futuro que queremos ver”.

Além destes hipotéticos futuros, considera que uma eventual descoberta de vida e a prova de que não estamos sozinhos teria efeitos profundos na maneira como nos vemos e ao Universo e, por isso, poderemos esperar que continuem a haver projetos à procura de vida extraterrestre, além de outros para uma melhor compreensão sobre a composição dos planetas do Sistema Solar e outros astros.

“Não vamos 'voltar à Lua', porque ‘voltar à Lua’ significaria voltar à corrida ao espaço. Desta vez devemos fazê-lo juntos”

O futuro da exploração espacial também foi debatido com uma visão europeia, no painel “ESA: The future of space exploration”, que contou com o diretor-geral da Agência Espacial Europeia (ESA da sigla em inglês), Jan Wörner. O diretor-geral que referiu que esperam desenvolver, no espaço de cinco anos e meio, um novo programa de exploração espacial, que visa três destinos: Estação Espacial Internacional, a Lua e Marte e, portanto, esta é realmente uma “nova era de exploração da ESA”.

Para explicar a importância destas missões, explicou que a Lua é um arquivo da Terra e, por isso, há muito interesse numa “expedição conjunta”.

“Digo sempre que não vamos 'voltar à Lua', porque ‘voltar à Lua’ significaria voltar também à história e à corrida ao espaço. Desta vez devemos fazê-lo juntos e, por isso, vamos 'avançar para a Lua'. Muitas agências espaciais, por todo o mundo, estão agora a unir forças para ir à Lua, seja com robôs em órbita, com astronautas”, explicou.

Destacou, assim, a importância da colaboração na exploração espacial, em vez de promover a competição. Como exemplo de colaboração, referiu a missão conjunta, levada a cabo com a NASA, para recolha de amostras extraídas de Marte com um robô.

Dirigindo-se aos críticos que são contra a exploração espacial e argumentam que “já há problemas suficientes na Terra”, explicou que, além de “o fascínio ser um movimento positivo no nosso cérebro e de estes movimentos positivos serem necessários para o futuro”, há descobertas que servem para melhorar a vida na Terra.

“As alterações climáticas foram descobertas através da exploração espacial no planeta Vénus, que tem um efeito de estufa mais forte. E Marte, no passado, teve uma situação melhor do que hoje e teve uma atmosfera semelhante à da Terra, por isso podemos aprender também sobre nós ou talvez possamos aprender como evitar tal futuro”, esclareceu.

Além disso, existem ainda as tecnologias como a purificação da água desenvolvida para a Estação Espacial, a impressão 3D – utilizada durante a pandemia para a criação de viseiras –, entre outras, que são aplicadas na Terra.

A Agência Espacial Europeia questionou aos cidadãos europeus sobre qual o valor que estariam dispostos a dar anualmente para o “espaço” e a resposta foi de cerca de 287 euros por ano. Atualmente, todos os programas espaciais da ESA têm apenas o custo de oito euros por ano a cada cidadão europeu, o que engloba também a fazer observação da Terra, navegação, comunicações. “A exploração é uma pequena parte destes oito euros por ano”, assinalou Jan Wörner.

Questionado sobre a inteligência artificial, elucidou que é uma importante base de apoio para os humanos no espaço, principalmente na realização de tarefas, mas que não pode substituir humanos. “Não podem medir a pressão sanguínea de um robô ou o seu sistema imunitário”, justificou, argumentando que o papel dos humanos no espaço também é de “testes e experiências”. Além disso, considera que “está no nosso ADN ir além das nossas fronteiras”, dizendo que foi o que fizemos quando saímos das cavernas ou atravessamos oceano Atlântico, e que “agora, é ir para o espaço”.

Sobre a pandemia de covid-19, rematou dizendo “pelo menos, temos um lugar seguro, na Estação Espacial Internacional não existe covid-19”.

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