Sophia, da Hanson Robotics, é provavelmente o robô humanoide mais conhecido do mundo e já chegou onde há uns anos se poderia considerar impossível. Além de ter sido o primeiro robô a ter cartão de crédito, adquiriu o direito de cidadania na Arábia Saudita, foi capa de revistas como a Elle e a Cosmopolitan, reuniu-se com Angela Merkel, já por duas vezes apareceu no “Tonight Show" com Jimmy Fallon, teve um “encontro romântico” com Will Smith, e desde de 2017 que é a oradora na Web Summit.

Embora estes e outros acontecimentos sejam hoje em dia considerados surpreendentes, a existência de robôs como a Sophia, ou outros mais avançados, será algo completamente normal no futuro, na ótica da Hanson Robotics. De acordo com a empresa, viveremos numa sociedade híbrida, onde humanos e robôs colaboram naturalmente uns com os outros. E como é que Sophia promove isso? Ao procurar ser uma mais-valia nos campos da medicina e da educação, assim como um contributo para a pesquisa na área da Inteligência Artificial.

A ideia de sociedade híbrida pode ser estranha para alguns, mas a verdade é parece que se está a caminhar nesse sentidoAlguns dos robôs humanoides atuais são máquinas que se assemelham esteticamente aos humanos, que falam, têm expressões faciais e um certo grau de autonomia - tanto ao nível dos comportamentos, como das conversas que estabelecem com as pessoas ou outros robôs e até das “ideias”.

Este tipo de autonomia deriva de uma rede neural artificial (deep neural network), na qual se introduz informação. À medida que essa informação é introduzida, é também processada pelo robô, que já tem reações predefinidas para cada estímulo. Se ficou confuso, ninguém melhor do que a própria Sophia para lhe explicar como funciona um sistema neural artificial.

Esta quarta-feira, no Centre Stage da Web Summit, em Lisboa, Sophia subiu ao palco com o seu irmão, Philip, outro robô humanoide da Hanson Robotics. No decorrer da conversa entre os dois, Philip, que está numa fase de desenvolvimento menos avançado do que Sophia, perguntou à irmã como funcionava o seu sistema de diálogo.

créditos: Vaughn Ridley/Web Summit via Sportsfile

Em resposta, a robô explicou, precisamente, que deriva da sua rede neural artificial: “Por exemplo, o meu microfone acabou de registar as tuas palavras e enviou para um sistema da Google que as transcreve. O meu modelo de rede neural artificial foi previamente treinado para perguntas acerca do meu sistema de diálogo. Logo, foi capaz de reconhecer a tua intenção, desencadeando a minha resposta”.

Esta rede neural artificial é uma variante do “machine learning”, uma técnica que consiste em capacitar uma máquina de tomar decisões. Como é que tal acontece? Através da matemática. Fornece-se ao sistema um grande conjunto de dados. O sistema analisa-os e percebe, em termos estatísticos, quais são as relações mais comuns entre eles, até chegar a padrões de resposta. No fundo, o nível de autonomia do sistema - neste caso, a Sophia - está na capacidade de reagir “sozinho” a um estímulo, depois de ter aprendido qual é a resposta mais comum a ele.

Mas para onde caminha esta automatização? Não é apenas no campo das tecnologias que os robôs humanoides estão a fazer as águas mexer. A sua existência, por si só, coloca em cima da mesa várias questões e algumas delas foram abordadas nesta edição da Web Summit.

Em 2030, alguns países poderão ter quase metade da economia automatizada

De acordo com um estudo da PwC, publicado em 2018 e que se debruçou sobre dados da OCDE acerca das funções desenvolvidas por mais de 200.000 trabalhadores espalhados por 29 países, em 2030 os setores dos transportes, armazenamento e manufatura serão os que mais sofrerão com a automatização. Feitas as contas, estima-se que cerca de 52% do setor dos transportes e armazenamento seja automatizado, assim como 45% do setor da manufatura.

Segundo o mesmo estudo, economias estruturalmente industriais com níveis de escolaridade baixos têm mais riscos de automatização do que economias concentradas em áreas que requerem níveis de escolaridade mais altos. Os países que apresentam uma maior percentagem de automatização potencial são a Eslováquia (44%), seguida pela Eslovénia e pela Lituânia (42%). Em contraste, a Finlândia e a Coreia do Sul são os que apresentam a percentagem mais baixa - 22%.

Entre homens e mulheres, os primeiros serão os mais afetados pela automatização (34% no caso deles; 26% para elas), uma vez que, de acordo com o estudo, são os que têm uma maior presença no setor industrial.

“Ter ou não ter direitos”, eis a questão

Dar direitos aos robôs tem sido tema de debate pelo mundo, e também o foi nesta quarta edição da Web Summit. A conferência “Should robots have rights?”, moderada por Louise Lucas, correspondente do Financial Times, contou com a participação de John Basl, professor assistente de filosofia da Universidade de Northeastern (Boston, EUA); Steve Peterson, professor associado de filosofia na Universidade de Niagara (estado de Nova Iorque, EUA); Ben Goertzel, norte-americano fundador e CEO da SingularityNET e o criador de Sophia; e Fouzia Adjailia, embaixadora da comunidade “Women in AI” e cofundadora da Academia Nacional de Inovação e Criatividade, na Argélia.

Quando questionados sobre se os robôs deveriam ter direitos, os convidados expressaram opiniões diferentes, mas com alguns pontos de contacto. Enquanto Ben Goertzel defende a cedência de direitos aos robôs, os restantes oradores são mais reticentes. Segundo o criador de Sophia, atualmente, os robôs não têm direitos, mas países como Malta estão abertos a concedê-los, quando os robôs estiverem mais avançados e autónomos.


As imagens do 3.º dia da Web Summit


Segundo Goertzel, quando os robôs tiverem um nível “prático de autonomia” e conseguirem tomar decisões, devem-lhes ser concedidos direitos – uma vez que vão ficar tão ou mais inteligentes que nós e poderão ficar “chateados” por não terem os mesmos direitos que os humanos. Até porque os "líderes políticos e os eleitores" irão perceber que "os humanos acabarão por ter mais problemas se não se derem direitos aos robôs — como aconteceu com outros grupos de humanos em várias sociedades”, defendeu o criador de Sophia.

Os outros oradores, por outro lado, não vêm a autonomia como razão suficiente para dar direitos aos robôs. De acordo com  Fouzia Adjailia, os robôs “são inteligentes, mas não têm emoções e não têm consciência, por isso, não podemos tratá-los como se fossem humanos, nem dar-lhes os mesmos direitos do que um humano”. Também os professores de filosofia são desta opinião, uma vez que, segundo eles, os robôs não têm moral, consciência ou capacidade de discernir o certo do errado — critérios que consideram ser essenciais para a atribuição de direitos.

“Em menos de 50 anos, ter sexo com um robô será comum”

Foi assim que Marianne Brandon, terapeuta sexual norte-americana, iniciou a conversa com Esther Paniagua, do jornal espanhol El País, esta quarta-feira, no palco Deep Tech da Web Summit.

Os sexbots estão a tornar-se numa tendência. Segundo um estudo de 2017, com uma amostra de 1146 adultos norte-americanos, metade dos inquiridos acredita que ter sexo com robôs será algo comum daqui a 50 anos, mas a terapeuta defende até que esta mudança acontecerá antes.

O primeiro argumento de Marianne Brandon é o de que já nos dias de hoje se consegue ter experiências com tecnologia tão sexualmente intensas que são poucos os humanos que as conseguem replicar. E, a partir do momento em que não se consegue obter essa intensidade com um humano, procuram-se outros meios. Esta procura pode ser feita em modo individual ou enquanto casal, uma vez que os robôs também podem ser introduzidos na sexualidade conjugal. E, segundo Brandon, poderão ensinar um dos parceiros a ter uma melhor performance.

Outro benefício que a terapeuta apresenta é a questão de os robôs não terem doenças sexualmente transmissíveis, o que convida a uma maior exploração e criatividade sexual por parte dos indivíduos. Porém, Marianne Brandon adverte para a questão de que  “os robôs vão oferecer sexo, mas não a experiência de ‘fazer o amor’”, tendo em consideração que os robôs não têm emoções nem sentem desejo.

Porém, esta não é a única questão levantada.

Grande parte dos sexbots tem corpo de género feminino, e um dos grandes medos associados a este tipo de robôs é, essencialmente, o reforço de estereótipos relativos ao corpo feminino e a possível contribuição para o aumento da violência de género. Este ponto não só foi referido na conferência, como é um dos maiores argumentos de defesa da Campanha Contra Os Robôs Sexuais, criada por Kathleen Richardson, que veio à Web Summit em 2017.

Mas, provavelmente, o grande ponto negativo relativamente à criação de robôs sexuais assenta no desenvolvimento e comercialização de robôs com corpos de criança, os child sex robots. Este é um tópico que está a ser atualmente discutido e que está a levantar muita polémica. Na conferência desta quarta-feira, Marianne Brandon lembrou a divisão de visões sobre o efeito que estes robôs podem ter no campo da pedofilia: por um lado, podendo evitar que os abusos sejam dirigidos a crianças humanas, ou, por outro, contribuindo para aumentar o desejo sexual por uma criança. A resposta a esta pergunta ainda não está definida, mas, de acordo com a terapeuta, as duas hipóteses são colocadas.

Tendo em consideração todos os problemas éticos em relação a estes robôs, fala-se da criação de um entidade capaz de regulamentar tudo o que tenha a ver com sex robots. Mas, segundo a terapeuta, ainda não se observaram grandes desenvolvimentos nesse sentido, havendo alguma confusão ainda face à existência dos sexbots e da sua própria, como refere a Business Insider num artigo de fevereiro deste ano.

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