Depois de uma sessão de abertura que contou com a intervenção surpresa da primeira-dama da Ucrânia, Olena Zelenska, o anúncio de que o Governo vai acenar com 90 milhões de euros a startups de green tech, e da intervenção de agentes políticos, nomeadamente do presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, a Web Summit arrancou de forma "oficial" e pronta a virar o foco do evento para o empreendedorismo.

Tecnológicas mais poderosas do que Estados

Sabemos hoje que, para dominar e crescer, na Uber, valeu quase tudo. E sabemo-lo graças a uma fuga de informação que reuniu documentos internos e revelou as estratégias da empresa para a sua expansão global entre 2013 e 2017. Porém, estes dados só são conhecidos graças a Mark MacGann, que esteve esta quarta-feira em conversa com o jornalista Paul Lewis, do The Guardian, jornal a quem forneceu mais de 100 mil documentos.

Esta foi a primeira vez que Mark – que chegou a ser um dos homens mais poderosos na Uber – falou publicamente desde que disponibilizou a informação confidencial. Durante a conversa, revelou a razão pelo qual o fez: “se estás numa sala a testemunhar estes atos, então tens o dever de falar”. Tendo estado dentro do meio, sabe bem do que fala, pelo que deixou o aviso: “algumas tecnológicas são agora mais poderosas do que os próprios Estados”.

E remata o assunto afirmando que os governos estão a perder no campo de batalha no que diz respeito à monitorização e regulamentação das Big Tech.

"Her", não é um filme. É o futuro

Rohit Prasad, cientista chefe da equipa responsável pela Alexa (a assistente pessoal da Amazon), explicou como é que a filosofia de 'inteligência ambiental' está a impulsionar o desenvolvimento de inteligência artificial (AI) - e de como esta se está a tornar cada mais invisível, ainda que mais inteligente. Porque a missão deste departamento é clara: o objetivo é tornar a Alexa "indispensável" e disponível "em todo o lado, para todos".

Para isso, a AI está a ser treinada para estabelecer uma relação de intimidade. E como é que uma máquina cria este sentimento humano? Sabendo, por exemplo, o clube de futebol de uma pessoa. Este pequeno detalhe vai fazer com que ao perguntarmos o resultado de um jogo a Alexa responda de forma mais alegre caso a nossa equipa esteja a ganhar.

Moral da história: a intenção passa para que no futuro a Alexa seja mais uma companhia do que uma mera assistente virtual. No fundo, tornar o conceito do filme "Her", de Spike Jonze, numa realidade.

No OnlyFans, 10 mil milhões foram para os criadores de conteúdo

A plataforma é conhecida sobretudo pelo conteúdo de cariz sexual, mas desenganem-se os que pensam que é sítio somente com pessoas a fazer e publicar vídeos para adultos. E foi precisamente isso que a CEO da plataforma, Amrapali Gan, que assumiu o cargo há um ano, foi tentar fazer ver no Center Stage.

O OnlyFans é uma plataforma britânica de subscrição e cada criador decide o que publica e quanto custa cada conteúdo que disponibiliza. Ou seja, ainda que a esmagadora maioria das subscrições esteja ligada a conteúdo para adultos, na verdade, cada um é livre de criar o conteúdo que bem entender. Tanto que há subscrições de criadores de culinária ou de praticantes de yoga. O que cada um publica para outros subscreverem é "da escolha do criador", como sublinhou Anrampali durante a conversa.

Aliás, a escolha e a segurança são duas coisas (ou valores) da qual a empresa não abdica. "A segurança é o coração do nosso negócio", explicou Gan, que no arranque da conversa brincou ("há aqui muitos mentirosos!") com o facto de quase ninguém na plateia ter levantando o braço quando perguntou "quem é que daqui tem uma subscrição no OnlyFans".

Outro dado curioso revelado durante a talk foi o de que a plataforma rejeita cerca de 60% dos novos criadores que tentam aderir. Depois, Gan indicou algo que já tinha sido notícia no mês passado por alturas do TechCrunch Disrupt 2022: a empresa já pagou mais de 10 mil milhões de dólares aos seus criadores. (No modelo atual, os criadores recebem 80% do que ganham pelas suas subscrições, ficando a empresa com os restantes 20%.) E a fazer jus a algumas notícias, há quem ande a ganhar bom dinheiro (entenda-se 20 milhões de dólares por mês).

Metaverso, NFTs e Web3 com Herman Narula

Sendo o metaverso um dos temas do momento, não é de estranhar que Herman Narula, CEO da Improbable, tivesse direito à totalidade do palco da Altice Arena. Afinal, a plataforma que lidera tem como frase de apresentação "somos a empresa tecnológica do metaverso". É o que dá estar há 10 anos a criar a infraestrutura e tecnologia que muitos dizem ser o futuro. (A título de exemplo, a Epic Games, a dona do Fortnite, é apenas dos seus parceiros.)

Na Web Summit, Narula falou do facto de o próprio duvidar, inicialmente, dos tokens e das criptomoedas. Mas, agora, admite acreditar que este é o modelo financeiro a seguir num mundo cada vez mais digital. E explicou o porquê. "O metaverso é uma rede de experiências interligadas, muitas das quais não podem viver por si". Por outras palavras, no seu entender, no metaverso, a única maneira de gerir a economia é através da Web3 e da sua descentralização. "A Web3, a curto-prazo, é a única coisa que oferece soluções plausíveis para se conseguir gerir a economia do metaverso".

De outra forma, como seria possível seguir um registo de propriedade? De uma t-shirt, por exemplo? Como é que seria possível saber qual era a empresa que a fez ou a moeda digital em que estava a ser feita a transação de uma compra ou venda? Como é que se resolviam estes problemas? Estas foram algumas questões que colocou, antes de começar a criticar o "modelo tirano" praticado pelas grandes empresas como o YouTube, em que uma das partes engorda demasiado por ser a dominadora do mercado, deixando as migalhas para o criador.

Por fim, não resistiu em mandar uma alfinetada à Meta, ex-Facebook, rival nestas andanças do metaverso. "[A Meta] forçou a noção de que isto é algo a ver com realidade virtual; avatares assustadores sem pernas, a mexerem-se dentro de escritórios", começou por dizer, antes de rematar, que, no seu entender, esta visão é uma "sem alegria" e que perde "uma oportunidade incrível" de ser o que o metaverso "realmente pode ser".

O foco é a tecnologia, mas o desporto não ficou esquecido

Dos atletas olímpicos Fernando Pimenta (que admitiu querer "lutar pelo ouro" nos próximos Jogos) a Patrícia Mamona (enfatizou a importância de se falar da saúde mental dos desportivas de alto rendimento), passando pelos treinadores portugueses Bruno Lage e André Villas-Boas, os palcos secundários da Web Summit receberam bastantes figuradas ligadas ao desporto.

Porém, pelo palco principal, as intervenções mais relevantes foram as do ucraniano Alexander Usyk, campeão de pesos pesados de boxe (que fez questão de fazer as suas intervenções na língua materna, sendo o foco da conversa a guerra na Ucrânia) e Patrice Evra, ex-futebolista do Manchester United e ex-colega de Cristiano Ronaldo, que comentou a responsabilidade que sente, nomeadamente naquilo que publica ou diz nas redes sociais, por ser uma figura pública com muitos seguidores.

O dia, em números:

  • Dia de recordes. Se é verdade que na parte da manhã quem andou mais pelo palco principal, na Altice Arena, a ver os principais oradores, até pôde pensar por momentos que não "estava assim tão cheio", a realidade é que quem andou pelos pavilhões chocou com uma realidade diferente. Ou seja, deparou-se com um mar de gente. Tanto que a organização anunciou que o evento atingiu o máximo de capacidade ao albergar um total de 71.033 participantes, oriundos de 160 países.
  • "A escala do evento deste ano é extraordinária. O espaço do evento está no máximo capacidade e estamos a receber mais participantes, 'startups', oradores e investidores do que nunca. Estamos muito satisfeitos por estar de volta à capacidade total e desejosos em continuar a crescer nos próximos anos”, afirmou Paddy Cosgrave, o responsável pela Web Summit, citado em comunicado.
  • 1 Milhão. Sensivelmente 1 em cada 10 portugueses é cliente da Revolut em Portugal. O anúncio foi revelado esta quarta-feira em comunicado e corroborado pelo CEO da fintech no Center Stage da Web Summit durante a sua participação no evento. Mais concretamente, a empresa fez saber que duplicou o número de clientes em 2022.

Welcome, nómadas digitais!

"Portugal tem de ser um país aberto e moderno". Esta foi uma das mensagens passadas pelo primeiro-ministro, António Costa, durante a sua passagem pela cimeira, onde esteve um par de horas a visitar os pavilhões de exposição de startups na Feira Industrial de Lisboa (FIL), em que se fez acompanhar pelo ministro da Economia, António Costa Silva.

Em declarações aos jornalistas, o líder do executivo frisou que o país não pode ter receio de acolher os nómadas digitais. “Temos de saber acolher e temos de acarinhar. Se queremos ser um país cada vez mais inovador, com empresas que crescem à escala global, é fundamental termos essa dinâmica”.

A resposta surge depois de ser instado a comentar o regime especial fiscal e de permanência concedido pelo Estado ainda que isso possa significar um agravamento do preço dos imóveis em várias cidades portuguesas.

Soundbites que ficam no ouvido

"61% dos Gen Zers estão a escolher as empresas onde trabalham tendo em conta os seus valores."

- Harris Reed, CEO, Edelman no palco Corporate Innovation Summit

"Adoro a tecnologia que democratiza tudo. E o metaverso ainda não está nesse ponto."

- Laura González-Estéfani, cofundadora e CEO, TheVentureCity no palco Venture

"Nós [atletas desportivos] precisamos de estar nas plataformas digitais e sociais. O futebol é para a sociedade e educação. Se não as utilizar para fazer a diferença, ia sentir-me tremendamente mal."

- Patrice Evra, jogador de futebol e empreendedor, no palco Q&A

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 O The Next Big Idea vai estar na Altice Arena até sexta-feira e vários oradores e participantes da Web Summit vão passar pelo nosso espaço. As entrevistas acontecem ao longo do dia e serão transmitidas em direto na nossa página de LinkedInCarlos Moedas, Daniela Braga ou Gil Azevedo foram apenas algumas das personalidades com quem já nos sentamos a conversar durante o evento. 

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Um artigo do parceiro

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