créditos: PEDRO SOARES BOTELHO / MADREMEDIA

As fotografias encantam. Ir aos Açores é vir de lá com a conta de Instagram cheia de cores cintilantes e paisagens fantásticas. Qualquer canto para onde se olhe mostra mistério e beleza. Mostra a pureza envolta na bruma abismal duma meteorologia insular.

Se olharmos para lá das cores, vemos as casinhas e as estradas apertadas. Vemos as infraestruturas de que a civilização precisa: os edifícios públicos, os hotéis, os pavilhões. Os aeroportos e os portos.

No Corvo, que não é diferente de nada, está lá tudo isso. Porém, como era antes disso tudo? Que vila havia antes do porto e antes do aeroporto? Antes das casas, da escola grande e da Santa Casa? Antes, era uma ilha. Agora, ilha continua.

Guardador de memórias e paisagens, o Ecomuseu do Corvo decidiu pedir aos corvinos que fossem às gavetas. Pediu-lhes que procurassem lá por casa as fotografias que têm da ilha, das festas, dos labores. O resultado é um vasto arquivo fotográfico, ainda a ser trabalhado.

As quatro imagens antigas neste trabalho foram cedidas por esse arquivo. As fotografias de José Saramago, Leonete Rego e Eugénio Rita foram enquadradas por Andreia Silva, co-coordenadora do projeto do Ecomuseu do Corvo.

Aqui ainda são poucas, mas chegam para mostrar diferentes locais da ilha, comparando-os com a atualidade. Nalguns casos a diferença é grande. Noutros, a semelhança ainda é maior.

Daqui já não se veem as Flores

Ei-la, erguida. Ao lado de onde hoje é a farmácia, nasceu a escola da Vila do Corvo. Inaugurou-a, a 25 de setembro de 1998, o então presidente do governo regional dos Açores: Carlos Manuel Martins do Vale César. Sim, esse Carlos César, atual líder parlamentar do Partido Socialista.

A Escola Básica Integrada Mouzinho da Silveira, no coração do povoado corvino, tem poucas dezenas de alunos, mas acolhe-os do primeiro ao décimo segundo ano. Está bem no centro da ilha, à beira da rotunda com as armas da vila, diante dos correios e em frente à Caixa Geral de Depósitos.

Na fotografia da esquerda, de José Saramago (não o escritor), a ilha ainda é outra. Veem-se os moinhos, diante dos quais passa agora a pista do aeroporto; veem-se os vizinhos florentinos, pedaço de terra subindo do mar.

Entretanto, a estrada levou betão por cima. Cresceu no terreno do canto uma garagem e o cultivo deu lugar ao jardim da escola.

No lugar das pedras, o betão. No lugar dos bois, um cão

Aqui a mudança é mais drástica. Por aqui falamos da fotografia. O enquadramento exato é difícil, já que a paisagem mudou. O muro é hoje mais alto que na altura da fotografia do padre Leonete Rego. Agora é alto e cobre o cemitério, esconde o aeroporto que logo ali se espraia.

Isto era o porto. Nele atracam agora caravelas portuguesas, esse bicho esquisito de bojo transparente e enormes fios de veneno. Um punhado de gente, de corpo ao léu, apanha sol no betão.

Estamos no sul da ilha. Em frente, o mar até às Flores. Do lado de cá da pista do aeroporto, sobram uns três moinhos, um restaurante e a ETAR. Rente ao muro, mas do lado de lá dele, que daqui não se vê, vai uma estrada, lá para a praia de areia negra, contornado a pista.

As ilhas e as pernas que não têm

Quem vir isto até pensa que as ilhas têm pernas. Quem vir isto ainda julga que o Corvo se levantou e acartou com a terra que o faz e se pôs ao caminho, porventura à procura de melhor posto ao sol.

Ou, antes, foram as casas que se desviaram donde estavam. Lá foram elas, igreja e tudo, com os sinos a tremer dentro da torre, andando às arrecuas, para se pôr mais para o lado da Europa.

Poderá ser que as ilhas se mexam, ou poderá ser que as câmaras se alterem, tal como as geografias urbanas. A malha corvina mexeu-se. E a diferença é visível quando comparamos a fotografia de hoje com a imagem recolhida pelo padre Eugénio Rita.

A grande diferença na perspetiva deve-se sobretudo a distintos enquadramentos e aparelhos fotográficos, que alteram o ângulo — e não a revoluções na geografia das ilhas (como, aliás, a ilha das Flores, quieta lá ao fundo, prova).

Na foto da esquerda, não há aeroporto, não há porto. Não há telhados derrubados. Ainda lá está o moinho, que, apesar da modesta altura, era demasiado alto para as necessidades aeroportuárias do progresso. E a verdade é que os Dash 8 da Sata passam rentes, ficando o passageiro a duvidar das habilidades do piloto, da sorte e da engenharia.

Nos campos plantaram-se casas — e nasceu uma pista

No Miradouro do Portão, este alto donde se tiraram as fotografias, vê-se a vila quase toda. Cabem todos e cabe tudo, da igreja ao hotel. Na altura em que o padre Eugénio Rita subiu ao miradouro, ali na estrada que vai para o Caldeirão, a Vila do Corvo era pequena. Fechada sobre si, não tinha nem porto, nem aeroporto. As casinhas juntavam-se todas a um canto. Só os mais ricos se davam ao luxo de habitar fora do casco urbano.

O prédio onde hoje está a GNR ainda está no mesmo sítio. No meio dos campos nasceu a escola, a Santa Casa, a câmara municipal. Uns pavilhões. Comprido, avista-se o Comodoro, o hotel da ilha.

Os moinhos permanecem. Só um foi derrubado, como já se viu atrás.

Porém, a grande diferença está nesse traço de negro asfalto que atravessa agora a ilha: a pista do aeroporto. A pista, que parece cortar a vila ao meio, está na verdade a ligá-la ao mundo. Nos anos oitenta em que aqui nasceu, foi a derradeira abertura.

Hoje, a ilha tem outra abertura. Estar aqui ou no coração do Saldanha (em Lisboa) ou da Boavista (no Porto) é o mesmo. Há a internet, onde há as lojas que aqui faltam, os trabalhos para fora e essas fotografias que fascinam, coloridas, nos feeds das redes sociais.

Entre o preto e branco e o garrido cromático há um mundo — mas o mesmo Corvo.

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