“O que é que fazes quando és um homem feito e estás numa boy band?”. A frase é de Brian Littrell, “o” Brian dos Backstreet Boys, e foi retirada de um documentário, lançado em 2015, que acompanhava o regresso aos palcos da banda (Kevin Richardson tinha abandonado o conjunto em 2006), bem como o lançamento de um novo álbum.

Estávamos em 2013 e os Backstreet Boys não eram o que já tinham sido. “De 1999 a 2002 éramos imparáveis. Éramos a maior banda do mundo”, disse também AJ McClean no mesmo documentário. É um facto, e eu lembro-me disso. Todos nos lembramos disso. E este sábado, na Altice Arena, durante quase duas horas de concerto, provavelmente voltaram a sê-lo.

Grande parte do público que encheu a maior sala de espetáculos lisboeta para assistir ao regresso da banda a Portugal é de uma geração. Tinham 13, 14, 15, 20 anos e, na altura, os Backstreet Boys eram “a” cena. E porque uma das sensações que a música nos provoca é, inevitavelmente, levar-nos a sítios, obrigando-nos a recuar no tempo, é impossível ouvir temas como “Everybody (Backstreet’s Back)” ou “I Want It That Way” e não recordarmos essa altura em que, para a maioria das pessoas, tudo era mais simples e fácil. O concerto deste sábado parecia, a certa altura, um karaoke gigante, com o público a entoar todas as canções de uma ponta a outra perante o ar satisfeito da banda que iniciou em Lisboa a sua tournée europeia. Quase pareceu que nem tinham passado 26 anos desde que Lou Pearlman deu a conhecer estes cinco rapazes ao mundo.

Em 1993, Pearlman, um empresário norte-americano que tinha constituído fortuna em Orlando, na Florida (EUA) decidiu criar uma boy band, inspirado pelo sucesso dos New Kids on The Block (entre outros projetos musicais do género), cujo principal período de atividade situou-se entre 1984 e 1994 (regressaram em 2007, sem a mesma notoriedade de então, apesar da tournée conjunta que realizaram precisamente com os Backstreet Boys, em 2011).

Juntam-se então cinco rapazes, apadrinhados por Pearlman, que começam uma tour por liceus dos EUA, partindo depois para a Europa onde atingiram um enorme sucesso, apesar do pouco reconhecimento na sua terra-natal. Até que chega 1997, quatro anos depois da sua formação, período em que atingem o estrelato mundial, conquistando o continente americano. 26 anos depois, os Backstreet Boys chegaram a Lisboa em alta, depois do lançamento do novo álbum (“DNA”) ter atingido o primeiro lugar da Billboard, quase 20 anos depois da última vez.

Ao longo deste quarto de década, contudo, foram muitos os altos de baixos da banda: do abandono de Kevin Richardson em 2006 (passou pela Broadway até regressar ao grupo em 2013), à reabilitação de AJ McClean, passando pela acusação de violação (entretanto retirada) a Nick Carter e, claro, pela fraude cometida pelo seu mentor Lou Pearlman (que foi também o criador dos seus “rivais” N’SYNC), que os lesou em milhões de dólares e cuja história está contada num documentário estreado no mês passado e disponível no YouTube Premium.

Mas nesta noite, em Lisboa, nada disso importava. A noite foi de nostalgia e de euforia. O fenómeno Revenge of the 90’s construiu, nos últimos tempos, em Portugal, a ponte que nos levou de volta aos anos 90 onde, para toda uma geração. O país vivia os anos dourados e, por isso mesmo, quando se ouvem, por exemplo, as primeiras notas de “All I Have To Give”, tudo se esquece. A nostalgia, neste caso, atenua tudo o resto, mesmo que as músicas (essa e outras) falem de corações partidos e de desesperos amorosos: é uma tristeza a que não nos importamos de voltar porque, no final de contas, já a ultrapassámos.

É certo que o sucesso do novo álbum fez-se ouvir nas vozes do público – que, como expectável, era maioritariamente feminino. “Chances”, “Don’t Go Breaking My Heart” e, principalmente, “No Place” foram bem recebidas e entoadas por uma plateia que, segundo Nick Carter, tinha “algumas caras novas”. Os anos passaram mas, após um período de menor fulgor, uma série de espetáculos em Las Vegas e este novo álbum, que dá nome à digressão da banda, parecem ter dado nova vida aos Backstreet Boys.

E este concerto teve tudo isso: luzes, cor, movimentos pélvicos, mudanças de roupa (e sim, numa das vezes os rapazes apareceram todos de branco, quase uma assinatura da banda e que, de resto, foi replicada por vários fãs presentes na sala) e, claro está, os “clássicos”.

Kevin (muito ovacionado, apesar de pouco interventivo), Howie, AJ, Brian e Nick (por quem muitos corações suspiraram ao longo da noite) deram tudo e quem lá esteve deu-lhes tudo. “The Call” colocou toda a gente de pé, “Show Me The Meaning of Being Lonely” e “Incomplete” foram cantadas em coro, “Drowning” puxou ao sentimento e à pele de galinha, “Quit Playing Games With My Heart” levou-nos (novamente) de volta à adolescência, “Larger Than Life” fechou o concerto em euforia.

26 anos depois, os rapazes cresceram e já são homens feitos. Mas ninguém parece importar-se.

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