“Francamente, acho que isto é importante, mas eu preferia que houvesse um investimento maior do governo português nas traduções para o estrangeiro, apoiar os autores. Em vez de gastar tanto nisto [na participação na feira de Guadalajara], que se desse mais bolsas para os escritores. Os que vivem só da escrita não podem viver bem. O investimento mais sério é no trabalho direto com os autores e com os editores estrangeiros, a apoiá-los para poderem publicá-los”, disse em entrevista à agência Lusa no México.

No ano em que Portugal é o convidado de honra, Bárbara Bulhosa está pela primeira vez na Feira do Livro de Guadalajara, acompanhando alguns autores que edita, como Ricardo Araújo Pereira, Dulce Maria Cardoso, Pedro Mexia e Rui Cardoso Martins.

Fora de Portugal, a Tinta-da-China tem trabalhado, sobretudo, com o Brasil e Bárbara Bulhosa reconhece que a tradução de autores portugueses para espanhol abre portas para o espaço alargado dos países ibero-americanos.

“Todos os escritores o que querem é serem publicados e lidos em mais sítios. Qualquer tradução é fundamental. (…) Acho mesmo importante este tipo de ações, mas não são tudo aquilo que se diz, não vai mudar de repente a edição portuguesa, os autores portugueses vão invadir o México, não acho isso”, disse.

Até porque, argumentou, “grande parte dos autores portugueses estão traduzidos para espanhol. O mercado espanhol é diferente do português. A mesma tradução vale para Espanha, México, Colômbia, Argentina, isso é uma facilidade enorme. Depois é muito mais fácil os livros circularem pela América Latina".

"No caso português não. Quando compras é só para Portugal e depois há alguém que está a comprar para o Brasil. Há duas traduções o que é um profundo disparate”, disse.

Até ao dia 02, a presença de Portugal na Feira de Guadalajara traduz-se num programa cultural com sessões de debate, de leituras e de entrevistas com cerca de 40 escritores portugueses. Há ainda concertos, dança, exposições e cinema, num investimento do Governo de cerca de 2,5 milhões de euros, no âmbito da estratégica de internacionalização da cultura.

“Quando vês esta festa toda pensas ‘se calhar se fosse um bocadinho mais pequenino e metade dito pudesse ser para fazer um trabalho mais concreto’ eu pessoalmente preferia. Se calhar não teríamos tanta festa, mas teríamos trabalho a longo prazo”, sublinhou a editora.

Em Guadalajara, onde percebeu que a edição literária mexicana é “fortíssima”, Bárbara Bulhosa tem já marcadas algumas reuniões com editores mexicanos e calcula que poderá fazer algumas parcerias.

“Querem que eu traduza para Portugal autores mexicanos. É sempre difícil, porque numa editora mais pequena é muito específico”.

A Direção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas (DGLAB) tem vários programas de apoio à criação, edição e tradução de autores portugueses, mas por causa da Feira de Guadalajara lançou um programa especial de apoio à tradução de cerca de 50 obras literárias no México, Venezuela, Colômbia ou Chile.

De acordo com a lista divulgada pela DGLAB, entre as obras escolhidas contam-se "As três vidas", de João Tordo, "A doença, o sofrimento e a morte entram num bar", de Ricardo Araújo Pereira, "Vamos comprar um poeta", de Afonso Cruz, "A costa dos murmúrios", de Lídia Jorge, e "Uma menina está perdida no seu século à procura do pai", de Gonçalo M. Tavares.

Foram ainda apoiados vários títulos de José Luís Peixoto, como "Cemitério de pianos" e "Caminho imperfeito", além de algumas obras de literatura africana, nomeadamente "A rainha ginga", do angolano José Eduardo Agualusa.

Segundo a base de dados online da DGLAB, e desde que há registos, 980 obras de literatura portuguesa e em língua portuguesa foram já traduzidas para espanhol, em programas de apoio desta direção-geral e do Instituto Camões.

A DGLAB recuperou também recentemente o programa de atribuição de bolsas de criação literária, de seis e 12 meses de duração.

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