Era, à partida, uma das atuações mais imprevisíveis, já que não estamos propriamente a falar de música. Mais que uma banda, as Pussy Riot são um coletivo artisticamente ativista – e vice-versa –, cujo nome é reconhecido até por quem não ouve muitos discos, bastando-lhe para isso ler jornais e acompanhar a atualidade mundial. A sua fama (ou infâmia) teve início em 2012, quando três das suas figuras foram presas após um protesto na Catedral de Cristo Salvador, templo da Igreja Ortodoxa Russa situado em Moscovo. Uma prisão que levou todo o mundo ocidental a apontar o dedo a Vladimir Putin, exigindo a libertação das ativistas e transformando as balaclavas com que se apresentaram numa imagem de marca.

Também em Paredes de Coura as houve, embora tenham sido a dada altura retiradas para revelar os rostos de Nadya Tolokno, uma das Pussy Riot detidas, e do DJ que a acompanhou; outras duas dançarinas permaneceram anónimas. Não que saber a identidade das Pussy Riot seja de todo relevante. Aliás, é naquelas balaclavas que muitos encontram um espelho para o seu próprio ativismo, sem necessidade de construir mitos ou mártires. O mito é o próprio grupo, que premeia o coletivo sobre a individualidade. A vocalista explica isso mesmo, perto do final do concerto: qualquer pessoa pode escrever canções para as Pussy Riot, e qualquer pessoa poderá fazer parte da banda.

Antes das máscaras, houve as mensagens: cerca de 30 pontos, todos eles versando roboticamente sobre a desigualdade, a globalização, o imperialismo norte-americano e russo e a concentração de boa parte da riqueza mundial em apenas 1% da população. Pelo menos isto sabíamos antes da performance: iria existir algum ativismo no palco secundário de Paredes de Coura. Só não sabíamos em que formato. A surpresa veio logo depois, com uma batida techno nos píncaros e dança desconexa em palco, com as projeções em vídeo a sofrer de alguns problemas técnicos, que continuariam ao longo de 40 minutos.

40 minutos esses em que houve espaço para praticamente tudo. A alfinetada da praxe a Donald Trump, através de um tema intitulado 'Make America Great Again'; uma dedicatória ao cineasta ucraniano Oleg Sentsov, a cumprir atualmente uma greve de fome em protesto contra a sua prisão (foi detido pelas autoridades russas após a invasão da Crimeia, de onde é natural); rap e trap em língua russa, com as traduções a serem exibidas por detrás do DJ; uma mensagem muito própria para Putin, que acusam de ter «trocado a sua pila por um míssil balístico intercontinental»; Hello Kitty dançando ao som de uma canção sobre borbulhas, em toada anti-body shaming; e, como não podia deixar de ser, um tema pop eletrónico adocicado sobre vaginas – estamos, afinal, a falar de pussy.

Se este tipo de ativismo, que recorre a dezenas de referências infanto-juvenis para fazer passar a mensagem junto dos mais novos, resulta ficará ao critério de cada qual que assistiu ao espetáculo das Pussy Riot em Coura. Por um lado, será difícil fazer com que uma vasta multidão que pagou entrada num festival patrocinado por diversos tipos de marcas ligue o que seja a uma mensagem anti-capitalista. Por outro, provavelmente não teriam acesso à mesma de outra forma. Ficou-se, sobretudo, com a sensação de que depois das Pussy Riot o mundo não mais será o mesmo – se para melhor ou pior, o futuro o dirá.

Um futuro que quase não existiu para Skepta, ícone do grime (que é como quem diz: hip-hop com sotaque britânico) que regressou a Portugal para fazer o que quase todos os rappers fazem ao vivo: levar uma multidão imensa à loucura através de rimas certeiras e batidas com origem no dub jamaicano, o som dos guetos de Londres trazido até à vila. Tão loucos ficaram que foram atirando os mais variados objetos para cima do palco, o que muito irritou o músico, que a dada altura ameaçou abandoná-lo de vez. Após uma hora em que o circo ameaçou arder, os miúdos saíram dali satisfeitos. E, no fundo, isso é o que mais importa.

Não que por Paredes de Coura não deambulem espécimes mais adultos, que encontraram nos Slowdive uma fuga à ditadura da batida. Tudo ali é ambiente e etéreo, música para flutuar eternamente no espaço, ou ancorar a estação espacial que os britânicos tão bem erguem em 'Souvlaki Space Station'. Em nova demanda por território luso, os Slowdive não mudaram muito o alinhamento dos seus dois concertos anteriores por cá, em Lisboa e no Porto em março, servindo-se de temas como os maravilhosos 'Alison' e 'When the Sun Hits' (também de “Souvlaki”, o seu disco mais celebrado e um clássico do chamado shoegaze) para embalar o público num doce e apaziguador ruído.

Antes disso, os DIIV passaram pelo palco principal para um concerto único, no sentido em que voaram propositadamente de Los Angeles para se apresentar em Paredes de Coura. Os norte-americanos fizeram algumas dezenas de pessoas delirar com as suas melodias psicadélicas e dançantes, partindo uma corda logo à primeira canção e agradecendo «aos seus patrocinadores», nomeadamente os do festival: a Vodafone e a Super Bock. Pouco depois, os ...And You Will Know Us By The Trail Of Dead, mais conhecidos por estas três últimas palavras, dariam uma lição rock no palco secundário: um rock assumidamente norte-americano, com diversas influências do hardcore dos anos 80, carregado de grandes riffs e versos em coro. No entanto, a lição não parece ter sido aprendida por quem lá estava, com a experiência a ser assimilada sobretudo pelos connoisseurs e não por quem só queria destilar suor.

Ao final da tarde, já depois de muitos festivaleiros terem trocado o fato de banho por algo mais confortável, foi a vez de Kevin Morby ter subido ao palco principal do Vodafone Paredes de Coura para apresentar um pop/rock viajante e literário, que se explica melhor através de discos como “City Music”, lançado em 2017 e considerado pela crítica especializada como um dos melhores desse ano. De fora ficou a camisola do FC Porto que envergou há dias, mas não temas como 'Harlem River', bastante bem recebido pelos presentes (e alguns desses, sim, envergaram a dita camisola). E também houve Lucy Dacus, moçoila simpática que abriu o palco principal com guitarras ruidosas e melancólicas, e que pediu desculpa por qualquer coisinha que os Estados Unidos possam ter feito ou continuem a fazer. Também não é preciso tanta auto-comiseração.

Alojamento "Couraíso"

É no campismo que a maioria pernoita (antes e) durante o festival, e é lá que se encontram todo o tipo de “bagunças”— o termo não é nosso. O destaque máximo irá, evidentemente, para os dotes culinários dos festivaleiros, para não falar dos musicais. Mas também há quem decida não fazer nada; o "Couraíso" por isso puxa. Veja aqui as melhores fotos do alojamento fluvial. 

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