No sexto episódio de RESET, podcast apresentado por Mariana Cabral (Bumba na Fofinha) e que conta com o apoio da Delta Q, senta-se na cadeira de entrevistada Capicua. O nome é, claro está, meramente profissional. No cartão de cidadão, lê-se Ana Matos Fernandes, sim, Ana, sem mais nenhum nome pendurado. Mas “não é Ana só” (como se estivesse sozinha), é “só Ana”, assim meio “pãozinho de leite”, diz a rapper. Sobre este nome simples já falou ela em “Vayorken”, a música que provavelmente a lançou para o sucesso, mas que também lhe valeu algumas histórias embaraçosas, como quando tinha de fazer xixi para uma arrastadeira no hospital e o enfermeiro começou a cantá-la à sua frente. Mas não faz mal porque, afinal, este podcast é mesmo sobre o fracasso.

Defensora dos direitos das mulheres até aos ossos (o que se reflete nas letras de várias músicas, tais como “Maria Capaz”, “Mão Pesada” e “Madrepérola”), considera que “a lição mais feminista” que aprendeu na vida foi no hip hop, um meio dominado por homens. Foi nos primeiros espetáculos que fez questão de marcar logo terreno, ao entrar em palco “sem pedir licença a ninguém” para “calar logo a primeira fila de gajos” e mostrar que não estava lá só para “mostrar o decote”.

“Para mim foi uma bênção eu não ser uma mulher propriamente bonita, porque me tornou uma pessoa mais interessante”, diz Capicua. Nascida e criada no Porto, numa zona junto ao mar, na adolescência “os rapazes faziam bodyboard e as miúdas estavam à espera que eles saíssem da água”. No mundo onde, afirma, a beleza muitas vezes é vista quase como algo identitário, preferiu passar a juventude a fazer grafitis, a ligar-se a causas sociais e a ser voz ativa em associações de cariz político. A rapper diz que já foi magra, mas que não gostou, porque estava deprimida e hoje afirma que não quer emagrecer, como explica na música "Casa de Campo", até porque está ciente de que a "validação" tem de vir de si mesma em primeiro lugar.

Essa época, em que emagreceu, foi durante o doutoramento que fez para uma universidade em Barcelona, período em que se tentava autodisciplinar perante uma certa ansiedade, já que se afirma muito “obstinada”, a “roçar o masoquista” com o trabalho, ela que responde a todos os e-mails e que organiza milimetricamente a sua rotina. Por outro lado, não gosta muito de redes sociais, mas tem a noção de que são uma ferramenta útil para promover os seus discos, mesmo que as suas partilhas se percam entre fotos de “tostas de abacate” e “pratos de sushi”.

Desde 2012, lançou um disco quase todos os anos, um deles, “Madrepérola”, foi mesmo antes de começar a pandemia. Com um bebé em casa e letras para escrever, este trabalho foi feito com “sangue suor e lágrimas”, um segundo “parto”, depois do parto do próprio filho. E ver os concertos serem cancelados depois de se ter esforçado para ser produtiva enquanto passava dias de “fato de treino, com manchas de leite bolsado” foi, diz Capicua, o seu maior fracasso em termos profissionais. “Enquanto eu não for para o palco, o disco não está consumado”, acrescenta.

Apesar de muito metódica, não lhe peçam para fazer contas. Este era o fracasso de Capicua nos tempos de estudante: matemática, física, geometria e tudo o que implicasse ciências exatas. Pouco amiga dos números, ela, que é “mesmo de humanidades”, dá-se melhor com as letras. Ainda não conseguiu ganhar alento para fazer desporto, o seu “calcanhar de Aquiles” são as fobias, de doenças e de efeitos secundários de medicamentos e – veja-se só – de grelos de batata, que parecem, diz Capicua, “bracinhos à procura da luz”. Sobre os dias difíceis, escreveu a música “Gaudí”, tema onde fala da loucura de ter de estar em todo o lado ao mesmo tempo e de “juntar esses caquinhos” para construir algo.

 

Marcar na agenda:

O RESET vai já no sexto episodio. Os episódios anteriores podem ser vistos ou revistos em formato áudio no Spotify e em vídeo no canal de Youtube. Capicua foi a última convidada de um leque de entrevistados que são sempre surpresa. Por cá, já passaram também Ricardo Araújo PereiraCarolina DeslandesRui Maria PêgoGisela João e Salvador Sobral.

Este projeto tem ainda um cariz social. Para além de valerem uma boa conversa, os convidados escolhem ainda uma associação à qual a Delta Q doa 500 euros. Desta vez, Capicua escolheu a UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta, "pela sua realidade à causa feminista".

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