Os cegos e pessoas com baixa visão, que estão a frequentar uma formação da ACAPO na área da assistência familiar e apoio à comunidade, ouviram as explicações, geralmente bem-humoradas, dos profissionais do Museu Nacional de Machado de Castro (MNMC), que acolhe uma exposição de nove litografias de Paula Rego.

Virgínia Gomes, coordenadora de projetos de inclusão do MNMC, desafia os visitantes a fazerem comentários às descrições criativas que ia fazendo junto a cada uma das obras, povoadas por homens, mulheres e até crianças, nalguns casos em estado de embriaguez e quase sempre com uma garrafa de vinho tinto ao lado.

Logo na segunda paragem, perante um quadro intitulado “Dois amores”, chama a atenção para a imagem de “uma mulher com uma garrafa ao colo, ainda cheia de vinho, como se fosse um bebé”.

Junto à quarta peça, a seguir a uma denominada “Vómito”, que representa uma mulher maldisposta debruçada sobre uma sanita e o chão inundado pela cor roxa do vinho, a conservadora do museu graceja mais uma vez, afirmando que o quadro “Demais” chega a traduzir “um requinte de malvadez” de Paula Rego.

“É demais, mas esta mulher só abusou um bocadinho”, comenta Virgínia Gomes, quando o seu colega Carlos Santos, técnico superior do MNMC, já prepara os materiais em relevo que os formandos da ACAPO deverão tatear e discutir à volta de uma mesa no fim da sessão, a qual foi seguida também pela diretora do museu, Maria de Lurdes Craveiro.

Noutra das imagens, Paula Rego apresenta “um homem completamente inconsciente”, deitado no chão, devido ao estado de embriaguez, e a sua mulher sentada sobre ele a “tirar-lhe o casaco”, numa tentativa de o fazer recuperar.

Nalguns casos, as garrafas surgem meias de vinho, enquanto noutros estão completamente vazias ou derrubadas e a derramar os néctares de Baco, à semelhança de uma célebre pintura de José Malhoa, em que um grupo de homens bêbados está a festejar o dia de São Martinho.

Abel Duarte, formador que acompanhou o grupo enquanto responsável pelo módulo “Cidadania” do curso, realça aos jornalistas a importância de as pessoas cegas ou com baixa visão “acederem também à cultura e usufruírem dos seus direitos”.

A formanda Sandra Cavaleiro, pessoa com baixa visão e que entrou pela primeira vez no Museu Machado de Castro, destaca “a forma muito entusiástica” como Virgínia Gomes e Carlos Santos orientam a visita.

Por sua vez, o visitante Marco Santos salienta que os materiais em relevo, produzidos pelo profissional Carlos Santos, responsável desde 2011 pelo projeto de inclusão “Tateando o Museu”, “ajudam a construir as imagens” inicialmente apresentadas por Virgínia Gomes.

“O tatear complementa as explicações”, acrescenta este formando, com visão nula.

Carlos Santos diz à Lusa que as pessoas com problemas de visão “querem sempre uma explicação” durante as visitas ao museu, na Alta de Coimbra.

A exposição “O Vinho” inclui um cálice de prata e prata dourada, do século XVI, que faz parte do espólio do MNMC.

Virgínia Gomes frisa a propósito que, além de ser muitas vezes origem de perdição, se for bebido em excesso, o vinho pode estar também associado à salvação da Humanidade, enquanto “sangue de Cristo” da cultura e liturgia cristãs.

As obras de Paula Rego ilustram o conto “O Vinho”, escrito por João de Melo.

Realizada em parceria com a Associação Cultura e Risco, no âmbito da edição de 2021 da iniciativa “O Mundo do Vinho”, a exposição pode ainda ser apreciada até 05 de dezembro.

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