Alerta spoilers, que é como quem diz, este artigo contém algumas revelações sobre o desenrolar do filme, que podem surpreender que ainda não viu “Clueless”.

Em português, foi apresentado com o nome “As Meninas de Beverly Hills”, mas foi sob o nome original, “Clueless”, que ficou mais conhecido. Com alguma inspiração no livro “Emma”, de Jane Austen, que também teve direito à sua adaptação para longa metragem este ano, “Clueless” foi escrito e realizado por Amy Heckerling e produzido por Scott Rudin (também conhecido por “A Família Addams”).

Este é o típico filme sobre, e para, adolescentes dos anos 90: há calças descaídas, telemóveis com antenas e combinações de cores e padrões extravagantes (o mundo nunca vai esquecer o mítico outfit amarelo). Mas nenhum destes traços da época fez com que, um quarto de século depois, a longa-metragem ainda esteja presente e haja toda uma geração marcada pelas suas referências, tornando-se num filme de culto.

Os cerca de 90 minutos giram em volta de Cher Holowitz, personagem interpretada por Alicia Silverstone, uma adolescente que, no fundo, não passa de um cliché. É filha de um advogado de sucesso e sempre viveu rodeada de luxo. É mimada, procura constantemente a aprovação do pai, está habituada a ter sempre tudo à sua maneira e, acima de tudo, gosta de ser o centro das atenções. De forma resumida, e como é vista por muitas das pessoas que estão à sua volta, os únicos traços de personalidade de Cher são ser má e ter o shopping como habitat natural.

Ao seu lado, tem a sua melhor amiga, Dionne, com quem tem uma ligação muito próxima e honesta. As duas raparigas, cujos nomes têm origem em duas divas da música, como as próprias dizem nos primeiros minutos do filme, são, ou, pelo menos, tentam ser as rainhas do liceu. Consideram-se intocáveis e superiores, e veem muitas vezes aqueles que estão à sua volta como “projetos de caridade”.

Se, durante grande parte do filme, Cher parece ser uma adolescente superficial e vazia, tudo muda quando conhece Tai, uma miúda nova na escola, que acolhe como a sua próxima grande missão. A rainha do liceu pretende virar a vida de Tai do avesso e, como não podia faltar, assistimos a uma sequência de planos que mostram de mudança de look com uma música catchy no fundo. A miúda nova faz agora parte da elite e ninguém melhor do que Cher para a ajudar a conquistar um dos rapazes mais cobiçados da escola.

É neste processo que surge mais um cliché: Cher percebe que também ela quer encontrar o amor. E adivinhem só: depois de muito procurar, descobre que, afinal, o homem da sua vida estava mesmo debaixo do seu nariz. Acontece que, em “Clueless”, a pessoa por quem está apaixonada sem fazer a mínima ideia é, nada mais, nada menos, do que o seu meio-irmão, Josh (interpretado por Paul Rudd). Assim se desencadeia aquele que se torna no maior problema na vida de uma miúda que parece ter tudo.

Há 25 anos fez sucesso. E se saísse agora?

Quando estreou, o filme foi uma surpresa para toda a indústria. Para além de ter tido um orçamento bastante modesto, de cerca de 20 milhões de euros, tornou-se num sucesso de bilheteiras. Segundo os números do Box Office, a receita internacional do filme foi de cerca de 60 milhões de dólares.

Se hoje falamos de “Clueless” como um dos maiores chick flicks (um adjetivo atribuído a filmes cujo público alvo são raparigas adolescentes) dos anos 90, a verdade é que, num mundo hipotético, se este filme icónico fosse lançado hoje, o sucesso não seria garantido. Para começar, e tendo em conta o panorama atual, quase podemos prever que seria uma longa-metragem produzida pela Netflix, juntando-se à lista de filmes para adolescentes que a plataforma tem lançado. Depois, podemos ainda projetar que, tendo em contas as temáticas que aborda, teria mais motivos para ser centro de discussão do que entitulado de um ótimo filme.

A personagem principal, à volta da qual toda a história gira, é aquilo que hoje em dia a geração da Internet chama de uma rapariga tóxica e shady, que se aproxima mais do papel de uma vilã do que de heroína. E toda a gente sabe que aquilo que está na moda hoje em dia é promover o outro lado da história, os “desajustados” que acabam sempre por encaixar.

Depois, há várias situações controversas no filme que falam sobre o culto da personagem “loira, burra e materialista”, o incentivo à objetificação feminina como forma de atrair um homem, a ideia de que a elite só se envolve com a elite, de que há grupos superiores a outros e de que há uma segregação sócio-económica entre as diferentes camadas de adolescentes do liceu.

Ainda assim, “Clueless” funciona e Cher fez sucesso porque, ainda que seja uma miúda mimada, tem também um lado cómico e diz coisas como ““Ela é um Monet completo. É como um quadro. Ao longe parece bem, mas depois, visto de perto, é uma confusão”. Acha-se a rainha do mundo, mas fica ofendida quando lhe dizem que ela é uma rapariga virgem que não sabe conduzir. Esta mistura entre o lado dramático e a comédia mostram que a própria história não se leva a sério, apresenta-se quase como uma paródia, e disso a audiência gosta.

Para além das frases que foram eternizadas por Cher, e que ainda hoje circulam nas redes sociais, como o conhecido “As If!”, que pode ser utilizado como resposta a qualquer cenário de desprezo, há ainda cenas que não se esquecem. Uma delas acontece logo no início do filme, quando a rainha do liceu se está a preparar para mais um dia de aulas. No seu closet de luxo, Cher escolhe a roupa através de um computador que dispõe todas as suas peças, mostra como ficariam no corpo da jovem e indica se combinam ou não. A cena ficou tão conhecida que, vários anos depois, serviu de inspiração para várias aplicações de telemóvel.

Será que vamos voltar aos 90’s?

A moda dos remakes não escapou a “Clueless”. Depois de, no ano seguinte à sua estreia, ter servido de inspiração para uma série homónima, e de, recentemente, ter visto o seu universo replicado no videoclip da música "Fancy", de Iggy Azzalea, começaram a surgir os rumores de uma nova versão do filme original. As primeiras pistas surgiram em outubro de 2018, quando a realizadora Tracy Y. Oliver anunciou na sua conta de Twitter que o seu próximo projeto estava ligado a um dos seus filmes preferidos de sempre, “Clueless”.

Mas as notícias sobre esta nova produção ficaram por aí e, em outubro do ano passado, surgiram os rumores de uma mudança de planos. Como noticiado pela 'Vanity Fair', a nova versão da história será, afinal, uma série de televisão escrita por Jordan Reddout e Gus Hickey. A maior surpresa deste rumor é que, em vez de termos Cher como personagem principal, a trama vai ser contada na perspetiva de sua melhor amiga, Dionne.

Será que a série vai mesmo andar para a frente? Resta-nos esperar para ver. Nenhum dos projetos tem data anunciada, mas é possível que estas, como tantas outras produções, tenham ficado suspensas devido à pandemia que o mundo enfrenta. Enquanto esperamos por novidades, o original está disponível na Netflix para ver ou rever, e matar saudades da vida quase perfeita de Cher.

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