A cadência é permanentemente militar. A folk apresenta-se introspetiva e negra. Por vezes, escutam-se samples do antigo hino do NSDAP, o Partido Nazi alemão, ou de marchas de guerra antigas. Há ruído e poemas misantrópicos. E, claro, existem enquanto símbolos uma sorridente totenkopf  (o símbolo das SS), camuflados, máscaras cobrindo o rosto ou parte dele e lamentos diversos, sobretudo pela Europa – ou por uma ideia de Europa que terá, ou não, morrido aos olhos de Douglas Pearce, Douglas P. para quem o conhece melhor. Muito resumidamente, é isto o que se entende como Death In June, projeto que celebra este ano 35 de existência e que atuou, esta segunda-feira, na Sala 2 do Hard Club, perante um público considerável e eclético: jovens sintonizados com sonoridades mais extremas, a velha guarda que nos anos 80 já estava ligada à chamada música industrial, e até alguns curiosos – porque se há coisa que as sucessivas polémicas geram é a curiosidade.

“Polémica” é também a palavra que melhor descreve a carreira dos Death In June, desde 1981 até hoje. E, no entanto, escutar a sua música ou ser confrontado com a iconografia fascista ou nacional-socialista utilizada pelo grupo nunca fez tanto sentido quanto hoje. Em tempos de maior acalmia económica e paz mundial, talvez se pudesse, enfim, relegar estes símbolos para as sombras. Numa Europa ainda aturdida pelo Brexit, e onde o espetro do totalitarismo voltou à tona e granjeou um apoio considerável (especialmente em países como a Grécia ou a Hungria, e grosso modo em França), principalmente entre aqueles que vivem no medo perpétuo de perder o emprego ou o seu modo de vida para “outros”, os estrangeiros, os corpos estranhos, os Death In June obrigam-nos a olhar para os nossos próprios fantasmas enquanto parte desse povo que é o Europeu. É mais que uma performance artística com recurso a símbolos que sempre olhámos como sendo de terror; é algo que está mesmo a acontecer, naquela realidade que existe fora dos palcos ou das canções.

Contudo, e não fazendo qualquer apologia da utilização desta imagética, há que salientar que, na grande maioria das vezes, tudo nos parece, apenas e só, uma enorme peça de teatro. O uso de símbolos nazis e o gosto pelo esoterismo, pelo oculto, não é novo no rock e precede em muito os Death In June: lembremo-nos da suástica que Sid Vicious envergava com orgulho punk, ou nos versos mais extremos dos Throbbing Gristle; que se usam como exemplos, porque foram ambos, à sua maneira, uma influência para os Death In June.

créditos: Virgílio Santos

Tudo começou em 1981, mas as sementes já haviam sido plantadas anos antes, com os Crisis, uma banda punk que – curiosamente, ou talvez não – estava conotada com a extrema esquerda. Aliás, os Crisis, fundados por Pearce, Tony Wakeford (que se juntou a ele nos Death In June e formou depois os Sol Invictus, outra banda descrita como neofolk – termo cunhado para descrever não só a sua música como a dos Current 93) e três outros membros, marcaram presença na célebre campanha Rock Against Racism. Esta foi organizada após declarações de um “alcoolizado” Eric Clapton durante um concerto em Birmingham, expressando o seu apoio ao conservador Enoch Powell – que havia pedido a expulsão do Reino Unido de todos os imigrantes. Não só isso, como também deram espectáculos apoiados pela Liga Anti-Nazi. A sua sonoridade, no entanto, era algo similar ao que se seguiria: a revista Sounds descreveu os Crisis, no final dos anos 70, como “música para se marchar”.

Que levou então Douglas P. e Tony Wakeford a mudar tão radicalmente a sua ideologia política? Um simples fascínio com a iconografia? Uma pretensa desilusão com as esquerdas? Ou o facto de tanto um como outro terem sido estudantes de história que, segundo os próprios, um dia descobriram o que era o Nacional-Bolchevismo? Não é certo, porque tudo, ou quase tudo nos Death In June é ambíguo. Atraem vários proponentes destas ideologias aos seus concertos, verdade. Mas também é verdade que Douglas P. é homossexual – algo que não é lá muito bem visto em círculos neo-nazis, tendo o próprio dito em entrevistas que é esta “a sua maior influência”. Aliás, na banca de merchandising, era possível adquirir um patch com uma totenkopf sobre bandeira arco-íris. E também é verdade que, em 1984, Wakeford foi forçado a sair da banda por se ter filiado na Frente Nacional Britânica. Não existe preto ou branco; tal qual a música, o campo político proposto pelos Death In June é um glorioso cinzento. No Hard Club, o palco foi adornado com bandeiras da União Europeia, totenkopf ao meio pintada com uns grandes lábios carnudos...

Death In June
créditos: Virgílio Santos

A ambiguidade já valeu a Douglas P. vários dissabores: em 1998, foi proibido de tocar em Lausanne, na Suíça. O mesmo sucedendo em 2003, em Chicago, nos Estados Unidos. Na Alemanha, um dos seus álbuns – intitulado Rose Clouds of Holocaust – foi proibido pelas autoridades de ser vendido a menores, e Brown Book, outro dos discos, foi proibido em toda a Alemanha devido – lá está – à utilização de “Horst-Wessel-Lied”, o hino do NSDAP. A polémica não lhe irá fugir tão cedo, mesmo que o músico negue ser fascista, neo-nazi ou ter afinidade por qualquer outra ideologia mais ligada à extrema-direita, professando ao invés um interesse “histórico” pelo Terceiro Reich e declarando que já leu mais páginas d'O Capital que de Mein Kampf.

Death In June
créditos: Vírgílio Santos

Contudo, quem foi ao Hard Club não viu juras de amor a Adolf Hitler ou Mussolini, mas sim um velho senhor simpático que, à semelhança de muitos outros concertos “intimistas” mais ou menos pop, foi perguntando à audiência se tinham algum pedido em especial (de canções: estes foram-se sucedendo, da belíssima “Fall Apart”, a “Little Black Angel”, à divertida “All Pigs Must Die”), foi enfiando referências a Portugal e ao Porto nos versos de alguns dos temas e mostrou-se envergonhado quando alguém grita, num inglês carregado de sotaque portuense, que era “uma superstar”. Os mais céticos poderão dizer que tal não passa de uma tentativa de dar ao fascismo um rosto humano. Os outros defenderão a utilização desta iconografia em nome da arte e da liberdade. Os fãs? Continuarão a ouvi-lo, alheios a estas discussões, e a marchar a seu lado.

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