Mas essa África não é, tal como explicaram ao SAPO24 horas antes de atuarem no NOS Primavera Sound, uma raiz tão profunda da sua música como se possa pensar. “A música feita por africanos sempre teve uma grande importância e um grande peso na música pop, influenciou todos os seus géneros, desde o rock n' roll ao reggae”, disse-nos João Gomes, teclista dos Fogo-Fogo, dez minutos entrevista adentro. A música africana que os influencia, continuou, “é música feita em África na segunda metade do séc. XX”, que teve influências, também ela, “da música norte-americana, das Caraíbas, da europeia”.

Importa dizer que esta é uma música que, nos últimos anos, tem sido redescoberta e reapropriada um pouco por todo o mundo. Exemplos claros disso são o êxito underground do gqom, género musical nascido na África do Sul e ligado ao clubbing, ou as edições do blogue-tornado-label Awesome Tapes From Africa. Se na música pop “sempre houve influências mútuas e comunicação entre todo o lado”, o destaque dado agora a sons talvez mais “tradicionais” tem a ver “com a globalização e a facilidade de contacto” existente hoje em dia.

Mas, ainda antes desta “explosão”, já os membros dos Fogo-Fogo olhavam para África, através de grupos como os Cool Hipnoise ou os Cacique '97. “Há vinte anos que temos estas influências [africanas], explicou João, coadjuvado por Francisco Rebelo, baixista. “Desde cedo partilhámos experiências com músicos africanos, e integrámos essas experiências nos nossos projetos”. O que mudou foi, talvez, a recetividade do público a este tipo de sonoridades.

“No fundo, as pessoas foram-se habituando ao caminho que nós fomos traçando”, comentou Francisco. “Não quero dizer, com isto, que fomos só nós [a fazê-lo]: houve mais gente envolvida no processo. Mas as pessoas, pelo menos em Lisboa, foram-se habituando a conviver com estas influências: mais grupos foram crescendo, aparecendo, a música eletrónica começou a puxar por essas influências... E a música foi crescendo”, rematou. Uma recetividade que é fruto, também, da maior exposição a que tem estado sujeito este tipo de música(s). “A nível nacional, houve muitos festivais que cresceram, que apostam nas 'músicas do mundo', músicas de latitudes diferentes da do mundo ocidental”, diz João.

Os próprios Fogo-Fogo não são alheios a festivais, tendo passado já pelo Boom, Sol da Caparica, Vodafone Mexefest ou Andanças, só para enumerar alguns exemplos. Ainda assim, não há lugar como a nossa – sua – casa, neste caso a Casa Independente, onde são uma das bandas residentes juntamente com os They're Heading West. “Espaços como a Casa Independente são fundamentais para a cultura pop crescer no país. Quanto mais [espaços do género] houver em várias cidades, melhor para os artistas poderem mostrar o seu trabalho”, afirmou João.

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Até porque esta ideia de independência, de faça-você-mesmo, não pode ser descurada por qualquer artista que queira seguir carreira no grande mundo que é a música pop. “Principalmente na cultura pop, não acho que devamos ficar a viver só a custa de subsídios ou só à espera dos apoios do estado. Claro que [estes] são muito importantes, muito necessários, mas a música pop – ainda assim – é um meio onde é possível sobreviver, crescer, aumentar e melhorar, de uma forma independente”, disse.

Para já, dos Fogo-Fogo escutámos apenas dois EPs: um contendo cinco versões de clássicos de funaná, e outro, editado há bem pouco tempo, com os seus primeiros dois temas originais. Esses clássicos, explicou Francisco, serviram “de guia, de processo de aprendizagem para a mecanização deste tipo de música”. Na criação deste novo EP, que tem como título “Nha Cutelo”, contaram com a ajuda de Alex Figueira, dos Fumaça Preta, na produção e nos arranjos. “Achámos que era importante ter um input de fora, um ponto de vista de uma pessoa que não estivesse a tocar mas que fosse músico”, disse. Os dois temas aqui contidos demoraram dois dias a ser gravados, e só a mistura “demorou um pouco mais”.

Um eventual álbum servirá como “complemento” ou “compilação” às canções que forem editando, de forma avulsa. “Gostamos de ter as coisas cá fora, de não as deixar guardadas muito tempo”, disse João. O formato 7'' permite-lhes não só dar ao público um objeto “especial”, indo também de encontro à cultura do DJing. De fora, ficará uma eventual participação no Festival da Canção enquanto Fogo-Fogo: “comigo, acho que não...”, salientou.

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