Talvez o NOS Primavera Sound já precisasse de um concerto assim. Tido desde sempre como Meca para uma certa população mais ligada à cultura e música “alternativas”, o festival nunca soube – ou nunca quis saber – da pop mais descomplexada, sem rodeios ou manias, que não tenta ser mais daquilo que é ou mostrar algo para além do óbvio. Até hoje. Este foi o ano em que o NOS Primavera Sound abraçou em definitivo aquilo que se faz a pensar no mundo inteiro, e não em meros nichos de mercado ou pensamento. Bastou, para tal, uma única figura: a de Lorde.

Foi sobre a artista neozelandesa que incidiram todas as atenções do primeiro dia do festival, e foi ela que se ergueu, como uma verdadeira lorde da pop, sobre todos os demais nomes que compuseram o cardápio da primeira noite da edição deste ano do NOS Primavera Sound. Era, de certa forma, inevitável que assim fosse. Desde a sua estreia na música, com apenas 16 anos, até aos dias de hoje, em que conta apenas 21, Lorde conseguiu trilhar um percurso a todos os níveis notável, e com apenas dois discos: Pure Heroine, de 2013, e Melodrama, de 2017, o mesmo que veio apresentar ao Porto.

Fê-lo através de uma música onde o capricho não encontra qualquer espaço, uma espécie de R&B branco que, mais que fazer dançar, serve para decorar os cadernos e diários dos adolescentes que a seguem – e muitos eram os que o fizeram esta noite. Ela bem o disse, em palco: as canções que escreve transformam-se na vida de quem as escuta. São readaptadas por todos estes. Não existe em Lorde a preocupação de soar mais ou menos intelectual, e sim a de dar ao público algo que este queira ouvir sem compromisso, cantarolando posteriormente os versos ou as melodias no âmbito de fazer esquecer qualquer agrura que os incomode.

Apresentando-se rodeada de dançarinos, em palco (que, a dada altura, a fizeram planar sobre este), Lorde ofereceu ao público portuense um espetáculo coeso, sem a atmosfera espampanante que boa parte da pop costuma ter. A neozelandesa não precisa de fogo de artifício; basta-lhe cantar, dirigir-se suave e genuinamente ao público, mostrar que aquele seu coração é o de todos nós. Entoar “Royals”, o maior dos seus êxitos, perante uma multidão vasta que sabia cada palavra de cor e salteado. Ela é a efígie através da qual muitos extravasam as suas emoções. E quando, em boa parte do concerto, não se percebe quem canta mais alto – se ela, se o público –, é sinal de que está a cumprir o papel que lhe foi dado por Apolo.

Um papel que não é o de Father John Misty. Não que o músico norte-americano não tenha apostado seriamente na música pop – já compôs, aliás, para nomes como Lady Gaga ou Beyoncé, duas das maiores divas do género. Mas o que em Lorde parece genuíno (mesmo que, no fundo não o seja; mas essa parede nunca é quebrada, e saímos a acreditar que o é realmente), em Father John Misty soa apenas a uma tentativa bacoca de ir para além da intelectualidade, abraçando com ironia e condescendência a cultura de massas. É provavelmente o seu maior problema: a arrogância de se achar melhor que os demais, de pensar que faz um favor aos menos ricos ao descer do pedestal em que se quis enfiar.

Não obstante a enorme ovação que recebeu assim que pisou o palco, mesmo com quinze minutos de atraso, Father John Misty (Joshua Tillman no bilhete de identidade) não conseguiu puxar-nos para aquele que é o seu lado. Os trejeitos de estrela rock cativante e atraente estão lá – quando se balança e remexe em palco, há centenas de mulheres que ovulam em uníssono –, faltando apenas a música. Que é, como deve ser sempre, o mais importante. E falta a música porque tudo o que dali se desprende é um folk rock sem chama, mesmo que a sua banda se apresente coesa q.b. e, de quando em vez, alguns dos versos que entoa possam ter a sua graça. Mas quando tudo soa a lados B dos Fleet Foxes (banda na qual foi, aliás, baterista), pouco ou nada mais há a fazer. O melhor que conseguiu mostrar, no Porto, foram dez segundos de caos free jazz. Um pouco como encontrar um diamante numa sucateira.

Se de Father John Misty pouco se esperava, de Tyler, the Creator muito menos. Não porque haja algo que falhe na sua música, mas sim porque chegou até ao público português com sete anos de atraso. Longe vão os tempos em que discos como Goblin soavam a uma pedrada no charco no mundo do hip-hop; os versos que entoava eram maníacos, sociopatas, os beats opressivos e eletrónicos, e a toada geral um sinal claro de que a miséria e a raiva, quando juntas, transformam o mais podre dos cenários em algo de assumidamente belo.

Hoje, Tyler está mudado. Cresceu. Já não é o rapaz que sentia que o mundo lhe devia algo, e sim o homem que sente que tem algo a provar ao mundo. O hip-hop que faz hoje em dia continua a conter vernáculo e a contar histórias menos delicodoces, mas há uma diferença: o rapper está apaixonado – por alguém, pela vida em geral. Parece ter feito as pazes com uma qualquer entidade suprema. Já não procura ser para o hip-hop o que os Sex Pistols foram para o punk; a soul e o funk, utilizados em milhares de milhares de temas hip-hop, já compõem grande parte do instrumental que utiliza para os seus raps. De um concerto morno o que mais se destacou foi a forma como o público, que encheu o Palco Seat, o acolheu: sempre nos píncaros. Um sinal claro de que, agora sim, podemos começar a acreditar que Portugal está a abandonar lentamente o rock n' roll.

Pela tarde, era ainda pouco o público que se encontrava dentro do recinto, talvez afastado pela chuva ou por compromissos profissionais; não nos esqueçamos de que este era, afinal de contas, um dia de trabalho e não um fim de semana convidativo. Ainda assim, os escoceses The Twilight Sad conseguiram juntar à sua frente umas largas centenas de fãs e de curiosos, naquele que foi o seu regresso a Portugal, dois anos após abrirem o concerto dos The Cure na (então) MEO Arena, em Lisboa.

O rock dos Twilight Sad (que agradeceram o tempo nublado: “faz-nos sentir como se estivessemos em casa”, justificaram) aproxima-se muito desse universo gótico, acrescentando-lhe algum ruído e uma melancolia próxima da dos Depeche Mode de discos como Songs of Faith and Devotion (1993). Fora isso, não há muito a acrescentar; não existe aqui nada de novo. Há quem o faça melhor e ande nisto há mais tempo que eles, que serviram apenas como antídoto à festa dos Fogo Fogo – a quem coube a honra de abrir o NOS Primavera Sound com uma sonoridade embebida em África, qual dança gostosa que tentou – e conseguiu – afastar a água que caía do céu.

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