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“Interesso-me por pessoas porque acho que estamos a chegar ao fim de uma era em que quem ganha é quem mais se parece com uma máquina, quem dorme menos, trabalha mais, quem faz mais folhas de excel. Andamos a preparar seres humanos para serem máquinas de segunda e não seres humanos de primeira”.

Entusiasmada, as palavras saem-lhe de atropelo, como se a conversa corresse atrás do tempo. Os gestos enchem o espaço e dão corpo às ideias. Paula Marques diz que é “super tímida”, mas que quando está em cima de palco é “super expansiva”. “Sou de opostos, precisei de me conhecer também, e percebi que ser fonte de contraditório não é mau”, diz.

O palco, esse, já se encontra vazio, agora estamos só nós e um gravador, mas por ali passou uma violinista, um contrabaixista e um guitarrista — convidados por Paula para nos ajudar a explorar os acordes da nossa humanidade neste segundo encontro de lançamento da Rock in Rio Innovation Week, que terá lugar de 2 a 5 de julho, em Lisboa, cujos bilhetes já estão à venda. Porque se a música (mais do que uma paixão) é uma obsessão humana, como escreveu Daniel Levitin, então diz-me o que ouves e te direi quem és. Voltaremos a palco, mas para já queremos saber mais sobre esses “super-humanos”.

Paula Marques é Diretora Executiva para a Educação, Inovação e Digital na Universidade Nova e Manager de Conhecimento e Inovação na Mercer. Antes esteve na PWC e passou pela banca. Nas “horas vagas” dedica-se ao projecto que denominou de “super-humanos”, ao lado de Ricardo Caiola. O objetivo, diz, é “preparar as pessoas para o que vier a seguir… seja o que for que vier a seguir”.

“Eu durante anos usei metodologias para levar as pessoas de A para B, mas o que é que acontece agora se não há B? Hoje B pode ser C, D, H44. Eu não sei o que vem aí, então eu tenho de preparar as pessoas para tudo, e há competências que são precisas em qualquer cenário”, explica.

“A maior vantagem competitiva que vamos ter no futuro é ser humanos. As máquinas serão sempre melhores a fazer coisas em que somos péssimos, como armazenar informação. Também são mais rápidas, não precisam de comer ou dormir. Mas como é que eu faço uma máquina ser corajosa? Não é possível. E imaginar o futuro? As máquinas não imaginam, é uma competência humana. Onde as máquinas não boas, deixai-as ser boas. Nós temos é de nos preocupar em fazer o que elas nunca vão fazer, nem agora nem nunca”, prossegue.

“Não há homem vs máquina, há homem e máquina. Temos de usar a máquina e o digital como um enabler [um elemento facilitador] da aprendizagem humana. Nós somos mais produtivos com a máquina, mas que tipo de junção é que queremos?”

A pergunta fica no ar porque, sem perder o fôlego, Paula avisa de imediato que não vamos ser todos filósofos e criativos no futuro. Isso é um “mito”. “Não há espaço para isso, seria boring [aborrecido] e o engenheiro voltaria a ser o criativo da hora. E nem todos temos skills [competências] para isso, e nem o queremos, porque o mundo não vive em leisure [ócio]”.

Os estrangeirismos saem de forma escorreita, é a forma que Paula encontra para ser mais precisa na ideia de que deseja passar, mais rápida.

“Os seres humanos não estão feitos para leisure. Quem diz isso [que no futuro os robôs vão trabalhar e os humanos vão aproveitar o tempo para atividades de lazer] não conhece os humanos. Eu sou economista e sei que há ciclos, até para nós. Não estamos feitos para ser ricos e estar sentadinhos na praia. Estamos feitos para subir a montanha, temos de ter uma motivação, algo que nos faça levantar de manhã”. Paula parte direto para o exemplo: “Há uma grande correlação entre a reforma e a morte. O que quer dizer isto? Que o trabalho não serve só para me ocupar e para ganhar dinheiro. Hoje fala-se muito do unretirement. A ideia do ‘não me vou reformar’".

Até a este ponto da conversa o foco está no indivíduo, mas e as empresas? Paula trabalha estes conceitos e competências com algumas e respectivos funcionários. “As empresas recebem isto muito bem, porque as receitas usadas até agora também já não estão a funcionar”.

“Antes as empresas vinham ter comigo e diziam-me ‘eu quero um programa de negociação’ ou ‘quero uma estratégia para ir de A para B’. Agora dizem-me ‘olha, não sei o que quero, só sei que preciso de ajuda a formar pessoas para o que vem aí’. E o que vem aí nem eu sei”, assume. A certa altura, conta, foi abordada para organizar uma formação cujo principal objetivo era ajudar os funcionários conseguirem manter uma conversa com o cliente, olhos nos olhos, empática.

Quando a questionamos sobre o valor que hoje se dá a competências que não são meramente técnicas no momento de recrutar, Paula diz que prefere não dividir o mundo dessa forma, até porque as soft skills [competências pessoais como a atitude, a capacidade comunicar, flexibilidade, capacidade de tomar decisões] são hard [difíceis] e as hard skills [competências técnicas] é que são soft [fáceis] de trabalhar".

“Para mim a divisão não faz muito sentido porque o que considero são human skills, competências humanas, e para desenvolver essas competências humanas é preciso tempo, não é algo que se faça depressa, como aprender um Excel. E nós tendemos a ser muito nervosos”.

"Temos de começar a ser mais inteligentes no return of innovation [a avaliar o retorno que a inovação nos traz], medir o que ganho e o que vou perder"

Num palco e num evento em que inovação é palavra de ordem, onde se encaixa o conceito aqui? 

“A grande inovação é nós admitirmos que não nos conhecemos”, diz Paula. “Admitirmos que temos de nos estudar a fundo e, à medida que nos vamos descobrindo, vamos mudando algumas metodologias, a forma de fazer as coisas e de aprender. A inovação está na forma como trabalhamos e aprendemos, como nós nos relacionamos no dia-a-dia”, resume.

E como tudo o que leva tempo, a inovação “é um processo, não é um rasgo. A inovação é dura, requer horas com meaning, com sentido”, alerta Paula, acrescentando que precisamos de “encontrar palavras novas”. "A palavra inovação começa a ser um pouco como o chavão do ‘digital’ ou da ‘liderança’, é tudo e não é nada ao mesmo tempo, é um saco de gatos. Tudo é inovação, mas é incremental? É disruptiva? É transformação de negócio? Para mim inovação é um processo, é uma maneira de estar na vida. E inovar também é ter coragem de dizer ‘eh, pá, não mudo’, porque não acho que isto seja melhor. Temos de começar a ser mais inteligentes no return of innovation [a avaliar o retorno que a inovação nos traz], medir o que ganho e o que vou perder, porque às vezes parece que estamos todos um pouco drunked [embriagados] com a ideia da inovação”.

E é no processo da descoberta do ‘eu’ que Paula vê oportunidades. “Somos seres completamente emocionais e irracionais que às vezes param para pensar”. E dá um exemplo: “nós cuidados uns dos outros. Imaginemos um ninho com um pai pássaro e dois passarinhos. Um deles está doente e o outro está bem. O que vai fazer o pai pássaro? Focar-se no que está bem porque tem mais possibilidades de sobreviver. É a teoria da evolução das espécies. Nós os humanos fazemos precisamente o contrário. Temos dois filhos, um deles está doente e o outro está bem, e o que é que nós fazemos? Vamos tratar do que está doente e deixamos o que está bem, porque ele vai aguentar-se. Isto é anti-teoria de evolução. E para mim foi um wake up call [uma chamada de atenção]. Nós somos de facto seres fascinantes e estranhos, muito loucos”.

“A nossa grande fortaleza é essa fragilidade humana, a nossa irracionalidade, a nossa imperfeição. Tudo o que é perfeito é perigosíssimo porque tem problemas brutais. Já tudo o que é imperfeito, como os rafeiros, as ditas raças menores, sobrevive porque é mais ágil. Está na hora, na época, na era de nos descobrirmos enquanto humanos. Para mim é este o momento extraordinário”, conclui.

créditos: Agência Zero

E é esse o desafio que Paula se coloca e nos colocou ao subir a palco no segundo meet up Rock In Rio Innovation Week: Pode a música tornar-nos mais humanos? O que é que a música diz sobre o que é ser humano”, atira. E para responder a esta questão, Paula propôs-nos “uma experiência” de hora e meia para falar sobre essa “loucura” do que é ser humano — uma viagem em que a própria embarcou há quatro anos.

Comecemos com Igor Stravinsky e a sua ‘Sagração da Primavera’, uma obra que levou 30 anos a criar e que protagonizou uma das estreias mais famosas do mundo do espetáculo — ao ponto de a polícia ter de intervir para acalmar os ânimos. Paula conta-nos tudo. Estávamos a 29 de maio de 1913, no Teatro dos campo Elísios, Paris.

Imprevisível, dissonante, disruptiva, inovadora. A ‘Sagração da Primavera’ provocou escândalo, da música à coreografia, nada ali tinha lugar segundo a expectativa e, por isso mesmo, o público revoltou-se. No entanto, é hoje uma obra incontornável da música erudita. E o que é que isso nos diz sobre o que ser humano?

“Para muitos isto não era música porque a música é um som ordenado, tem lógica. E o nosso cérebro adora ordem, porquê? Porque isso permite-nos poupar energia, a ordem dá-nos essa poupança de energia. E a frustração? A música cria uma expectativa. Eu antecipo algo, mas esta é uma obra dissonante, de desconstrução, o que criou o caos”, explica Paula.

Ou seja, nós “rejeitamos aquilo que não conhecemos, temos aversão ao novo, estamos formatados para a ordem e encontramos imediatamente uma matriz nas coisas. Quando isso não acontece ficamos nervosos”.

Para recriar a experiência vivida no Teatro dos Campos Elísios, há mais de 100 anos, Paula Marques chamou Maria Inês e o seu violino a palco para tocar uma obra de Darius Milhaud, contemporâneo de Stravinski e também dado a experimentações.

créditos: Agência Zero

Um silêncio respeitoso seguido de aplausos, sem porém esconder o desconforto. Não houve revolta nesta audiência, pois o cérebro antecipava o trato — e a doce Maria Inês não o merecia. Mas voltemos a Stravinsky, desta vez para ouvir a Sagração da Primavera’ na banda sonora do filme Fantasia (1940).

“Doeu-vos tanto agora como da primeira vez?”, questiona Paula. “Não”. É natural, diz. E explica: “Somos emocionais, avessos à mudança, mas temos neuroplasticidade. O nosso cérebro habitua-se. Ponham-me cinco vezes a Sagração da Primavera e eu adoro. Já estive aqui, e isso deixa-me tranquila, passa a ser um som ordenado”.

facto é que “somos seres altamente complexos — não sei como é que alguém acha que nos vai mimetizar em máquinas. Estamos feitos, por um lado, para poupar energia e estar quietinhos, mas também queremos aprender, eu gosto do imprevisível, e eu só aprendo quando me magoam a cabeça. Nós estamos programados para acelerar e para travar ao mesmo tempo. O novo cria muita ansiedade, mas para aprender tem de haver dissonância, tem de magoar um bocadinho”, conclui.

De 1913 para 2009 com o filme Avatar, de James Cameron. Paula lança-nos numa segunda história ao som de “I see you”, pela voz de Leona Lewis.

“Pelo menos dez anos demorou James Cameron a fazer este filme, desde a ideia inicial até haver tecnologia para poder concretizar o que estava na sua cabeça. O que é que isso nos diz? Nós somos os únicos seres que imaginamos e depois criamos o que imaginámos. E a imaginação na música — a imagética musical - mostra-nos coisas muito impressionantes: imaginar que estamos a ouvir música, por exemplo, tem o mesmo impacto no córtex auditivo e no córtex motor, o que é extraordinário”. “Mas para imaginar é preciso que algo aconteça no nosso cérebro”, continua. E Paula, mais uma vez, convida-nos à experimentação, desta vez nos acordes de Valter Areia (contrabaixo) e Augusto Pasquera (guitarra clássica).

créditos: Agência Zero

“Quando estamos a tocar by the book, segundo as regras, estamos a usar a memória e a ordem. Já quando estamos a improvisar há uma parte do cérebro que faz shutdown, desliga-se — a parte da ordem, racional, o lado do julgamento, da autocensura, a parte que faz uma análise custo-benefício, porque na dúvida nós não damos o salto”.

A audiência está fixada, mas o tempo de Paula começa a esgotar-se, pelo que depressa se lança numa terceira personagem. David Bowie — o músico,  compositor, ator — chega por fim, como exemplo e referência para Paula colocar a audiência a dançar, ao som de Lets Dance (e com isso oxigenar o cérebro), mas sobretudo para falar de polímatas e sobre uma outra característica exclusivamente humana: a necessidade de fazer perguntas.

“Somos os únicos seres com curiosidade. Por isso é que estudamos os ratos e eles não nos estudam a nós”, graceja Paula. “Por isso é que criámos a ciência, por isso é que fazemos perguntas. E os polímatas fazem-se porque fazem perguntas”, salienta, deixando no ar esta ideia central: os polímatas fazem-se. E fazer perguntas é só mais uma forma de magoar o cérebro, aprender, e lá está, inovar.

Já agora, porquê três histórias para a responder à pergunta 'Pode a música tornar-nos mais humanos?', porque “os nossos cérebros adoram histórias”, conclui Paula, elas ajudam a perdurar a memória. E o facto é que neste encontro ela deu-nos três para pensar: da dissonância de Stravinsky, ao sonho de James Cameron, passando pela curiosidade de Bowie. Música para “super-humanos”.

 

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