Lai Chi Vun é como um baú de memórias da outrora importante indústria naval de Macau. Nos estaleiros, de onde o último barco saiu há mais de uma década, resiste a nostalgia de quem fez vida daquele tradicional ofício.

A chuva caía miudinha no último reduto de uma indústria que deixou uma marca indelével na história do antigo enclave português, intrinsecamente ligado ao mar, onde Tam Kam Chun está ao ar livre, mas protegido pelo telhado do estaleiro para onde vai, quase religiosamente, fazer barcos, ainda que numa escala bem diferente da que estava habituado até 2004.

As miniaturas que saem das suas mãos representam um passado que, embora não muito longínquo, parece ter sido deixado ao esquecimento. Tam trabalha sob um pequeno foco de luz, o único ao longo da rua que acolhe o conjunto de estaleiros de Lai Chi Vun, com a China no horizonte, logo a seguir à água, e com o barulho dos pássaros como música de fundo e cães sem dono como companhia.

créditos: CARMO CORREIA | LUSA

Aos 69 anos, tem “pena” de que os estaleiros de Lai Chi Vun sejam “o último reduto”, lamentando que não haja um plano para revitalizar a zona, para onde foi em meados da década de 1980, com a mudança dos estaleiros da península, onde estava inicialmente concentrada a indústria, para a ilha de Coloane.

“Agora estou reformado e só faço barcos em miniatura para mostrar aos outros. Vou ficando por aqui, porque tenho interesse nisto, e tento usar algumas das técnicas originais. Depois, quando alguém aparece posso sempre contar a história”, porque “quando esta geração se for ninguém vai saber nada, como se faziam os barcos, a história da própria indústria”, descreve à Lusa.

Cercado de tábuas, maquinetas e fios de serradura, Tam fala com nostalgia da vida naqueles estaleiros que “chegaram a ser dos maiores do sul da Ásia” e orgulhoso por atrair o interesse de muitos, turistas ou até académicos, que andam curiosos por aquelas bandas.

eIeong, que dedicou 15 anos à construção naval, ainda trabalha, mas numa atividade muito distinta daqueles tempos em que, a par com os braços de outros camaradas, chegou a construir e a lançar ao mar barcos de pesca de mais de cem toneladas que levavam entre um a dois meses a nascer.

Por ali, todos o conhecem. A povoação conta atualmente com entre 10 a 15 famílias, pouco mais de meia centena de habitantes, e não era para todos a façanha de dar vida a barcos sem qualquer plano de construção, apenas “de cabeça”, só na base da tarimba.

créditos: CARMO CORREIA | LUSA

António Marques, que vive em Lai Chi Vun há muitos anos, ainda recorda a época em que “os barcos se enfiavam” na “praia lindíssima” que ali existia, primeiro para reparações, ainda sem a estrutura completa, e depois com pequenas construções até que a indústria alcançou um maior desenvolvimento, travado depois nomeadamente com as restrições à importação de madeiras valiosas.

“Todos acompanhavam”, conta. Ali, também assistiu à construção parcial da “Lorcha Macau” – que combina tecnologias náuticas chinesa e portuguesa -, no final da década de 1980, a qual foi exibida na Expo 98, após uma série de viagens pela Ásia, depois da inaugural a Tanegashima para participar no Festival da Espingarda, comemorativo da chegada dos portugueses ao Japão.

A lorcha, que tem um casco semelhante ao das caravelas portuguesas e um velame idêntico ao dos juncos chineses, esteve depois ao serviço de passeios turísticos em águas algarvias, no início da década de 2000, encontrando-se atualmente em seco.

“Vi o último barco também”, em 2005, acrescenta, afirmando que, na ocasião, já havia a sensação de que seria o derradeiro.

Até a história do famoso e único café, recomendado, aliás, em guias turísticos, se encontra ligada à dos estaleiros, dado que abriu portas depois de o proprietário, Leong Kam Hon, ter deixado a atividade da construção naval devido a um acidente.

créditos: CARMO CORREIA | LUSA

Sabe-se de “atividade” desde o princípio do século XX na zona, mas num mapa de Coloane datado de 1957, por exemplo, não é indicada a presença de estaleiros em Lai Chi Vun.

Segundo informações patentes no Museu da História da Taipa e Coloane, a indústria naval “floresceu” nos anos 1960, a par com a de Lai Chi Vun, onde se construíam barcos em madeira.

A maioria das licenças de ocupação a título precário, permitindo o exercício das atividades relacionadas com a construção ou reparação das embarcações nos 18 lotes situados na zona dos estaleiros de Lai Chi Vun, que são do domínio público, foi, no entanto, emitida nos anos 1980 e 1990, indicam dados oficiais.

Dados dos Serviços de Estatística e Censos, facultados à Lusa, indicam que, antes de 1980, existiam em Macau 29 estaleiros de construção e reparação de barcos com atividade económica, 12 dos quais em Coloane. Já entre 1980 e 1989 existiam 54, dos quais 15 em Coloane. De 1990 a 1999 caíram para 23, incluindo 13 em Coloane.

A indústria naval começou a ir ao fundo em princípios da década de 2000, em linha com o declínio da própria atividade pesqueira e devido à concorrência dos barcos de ferro na China.

créditos: CARMO CORREIA | LUSA

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