A crítica de Abílio dos Reis. Hunter Killer, de Donovan Marsh, com Gerard Butler, Gary Oldman, Common, Linda Cardellini e Toby Stephens, estreou esta quinta-feira, dia 25 de outubro, nas salas portuguesas.


Hunter Killer - Uma embarcação, por norma um submarino, equipado para localizar e destruir outras embarcações, especialmente outros submarinos.

Nos mares pouco profundos da gelada superfície do Círculo Polar Ártico, os tempos da Guerra Fria não resfriaram. Estados Unidos e Rússia, sem que o resto do mundo se aperceba, estão a jogar às «escondidas» entre passagens secretas, passagens muito estreitas ou passagens que simplesmente não deviam existir naquela parte dos oceanos. Muitos dirão que se trata de algo arriscado e que existem outras formas de fazer as coisas, mas aqui é assim que estas poderosas nações se relembram mutuamente de que um passo em falso pode desencadear um conflito nuclear que afetará todo o planeta. Assim foi durante décadas, mas agora uma das partes decidiu fazer batota e desencadeou uma forte tensão naqueles mares gelados. E, de súbito, eis que os fantasmas de uma III Guerra Mundial começam a ganhar forma, quer no mar, quer em terra.

Esta é a premissa de Hunter Killer, esta é a questão que o guião de Arne L. Schmidt e Jamie Moss pretende colocar à audiência: uma incessante, complexa e incrivelmente tensa situação geopolítica vivida nos mares. Baseado no romance Firing Point, escrito por George Wallace (um comandante aposentado do submarino USS Houston) e Don Keith (jornalista e autor de vários livros sobre a II Guerra Mundial), é-nos apresentada a rotina daqueles que privam num submarino nuclear, imersos num ambiente claustrofóbico, mas onde a estabilidade e a honra são os únicos alicerces que forjam os seus tripulantes. E é precisamente dentro de uma embarcação deste tipo que vamos conhecer o Capitão Joe Glass (Gerard Butler), um homem que lidera só pelo simples facto de estar presente e de ser ele próprio. Glass não fez a escola naval normal, mas viveu toda a vida dentro de submarinos. E não é um Capitão como os outros porque é um «deles»; pode ser ele quem manda, mas é um tripulante como qualquer outro. (Só que não é.)

Butler dá vida a um capitão de um submarino dos Estados Unidos que tem como missão evitar um evento que, a ter lugar, seria incrivelmente mau para a humanidade. Para estar naquela posição, a comandar aqueles homens, perdeu uma série de Natais em família, muitas finais de futebol americano e sacrificou a sua vida pessoal em prol do seu país. Só que o escocês é, e será sempre, pelo menos para aquele que assina este texto, o Rei Leónidas, de 300. Goste-se ou não, aprecie-se ou não o estilo de Zack Snyder (realizador de 300), a verdade é que aquele «THIS IS SPARTA!» é difícil de esquecer. É um daqueles guerreiros eternos. Em Hunter Killer é igualmente líder, mas não é a mesma coisa.

Isso e os papéis escolhidos (Assalto a Londres, Geostrom - A Ameaça Global ou Os Deuses do Egipto) num tempo recente. É quase como se estivesse a participar num mini-torneio com Nicholas Cage para ver qual dos dois consegue arrecadar mais projetos condenados à mediocridade. É que assim torna-se difícil arranjar outro momento que não seja aquele pontapé frontal com todo o suplesse.

O filme desenrola-se sob dois pontos de vistas distintos: na água (dentro do USS Arkansas do tipo Hunter Killer, um submarino anti-submarinos) e na terra (onde seguimos um equipa especial Navy SEAL capaz de fazer qualquer coisa). E quer num lado, quer no outro, os homens são umas autênticas máquinas de guerra altruístas que vão tentar impedir uma guerra termonuclear.

Sem revelar muito da ação, diga-se que, no filme, o Chefe de Estado da Rússia (Alexander Dianchenko) é um homem sensato, ponderado e com sensibilidade diplomática. Fisicamente longe da aparência de Putin, a sua «Mãe Rússia» é grande e altiva, mas não o é a qualquer custo. Pelo menos, enquanto o presidente em questão comandar os destinos da nação. Só que, para alguns homens no Kremlin, isto é sinónimo de subordinação perante outros países poderosos e demonstra falta de sentido de grandeza. Algo muito pouco 'russo', portanto. Daí que o seu ministro da Defesa, uma figura poderosamente nacionalista, considerar que um Golpe de Estado e o rapto do próprio líder seria a melhor maneira de enfrentar essa situação, considerada por ele inconcebível.

O que se segue é um jogo que consiste em fugas a minas submarinas, torpedos e hidrofones, enquanto o enredo divide a ação entre aquilo que se passa debaixo de água e em terra. Porque é fora do mar que as decisões são tomadas e onde Gary Oldman (vencedor do Óscar no ano passado pelo seu papel como Winston Churchill em A Hora Mais Negra) grita aos sete ventos e a toda a hora com praticamente todo o elenco secundário do lado norte-americano (cuja a presidente é uma mulher que em muito se assemelha a Hillary Clinton). E escrevemos "gritar" porque, de facto, é o que aparece a fazer. De resto, apesar de ser um Almirante importante e muito condecorado (no filme) e de ter uma carreira consagrada (na realidade) teve direito a apenas uns 10 minutos de tela. Destino semelhante teve a personagem de Linda Cardellini (a Meg de Bloodline, série da Netflix ou a Sam de ER Serviço de Urgência), que parece estar presente apenas porque é preciso alguém a representar a Segurança Nacional e para explicar às altas patentes militares que existem satélites no espaço que não são conhecidos por todas as agências de segurança norte-americanas (é relevante para a história do filme).

No entanto, a verdadeira façanha é deslindada ao capitão Joe Glass, quando este decide contrariar as ordens que lhe são dadas e, botando fé na humanidade, ordena o salvamento de sobreviventes de um submarino russo que fora atingido por «alguém». Porque no fundo do mar não há americanos ou russos, existem homens e honra. E há uma atitude nobre, muito humana até, na relação que Glass desenvolve com o seu homólogo russo, o capitão Andropov (um dos últimos trabalhos do falecido Michael Nyqvist, ator sueco que interpretou Mikael Blomkvist na trilogia original Millennium). É uma cena importante, pois é na relação destes dois homens que está a chave para se conseguir evitar uma catástrofe nuclear.

Hunter Killer
créditos: ® Lionsgate

Em Hunter Killer, o realizador Donovan Marsh tenta construir momentos de pressão física e psicológica dentro e fora do submarino, mas a verdade é que não consegue ir muito além das cenas de ação, à semelhança daquilo que aconteceria num filme de série B realizado por um irmão desconhecido de Michael Bay (o homem por detrás da saga Transformers). Mas nem tudo é mau. Nota-se que existiu um enorme esforço por parte da equipa de produção para que os detalhes (jargão utilizado pelos tripulantes, ou o próprio submarino) fossem o mais fiéis possíveis à realidade. E há movimento, ritmo e ação. Na hora de ser servido com pipocas, não compromete. Mas é tudo o que consegue dar. Nem mais, nem menos: só tem pipoca para dar.

Todavia, há que ser franco. Se isto tudo lhe pareceu familiar e se sente que já viu isto em qualquer lado, é perfeitamente natural. É que a história parece saída de cabeça de Tom Clancy (escritor norte-americano celebrizado pelos seus romances de espionagem) visto que em tudo se assemelha ao seu romance Caçada ao Outubro Vermelho (adaptado para o cinema em 1990 por John McTiernan — realizador de Predador e do primeiro Die Hard e que contou com Sean Connery e Alec Baldwin nos principais papéis). E sim, assemelha-se muito.

Ou seja, este Hunter Killer é um thriller de submarino encenado à boleia dos clichés registados nos mais antigos filmes de ação sobre a Guerra Fria. O que pode ser uma coisa boa ou má; depende apenas da perspetiva de cada um. No fundo, como está bem escarranchado nos posters publicitários nessas paragens de comboio da Grande Lisboa, «é um filme dos produtores da saga Velocidade FuriosaAssalto a Londres». Aqui é mais ou menos a mesma coisa, mas com um submarino que nos últimos seis meses só comeu brócolos, peito de frango e ganhou cinco competições de Crossfit. Ágil como uma gazela (ironia à parte, é incrível como uma embarcação submersa de 60 toneladas consegue mudar de direção com uma destreza como a exibida no filme), silencioso que nem um leopardo (mas do mar) e forte como um tubarão (não vai comer ninguém, mas vai ajudar a salvar o mundo).

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