Aponte-se esta data: 7 de julho de 2019. O dia em que o reggaeton tomou definitivamente conta do NOS Primavera Sound (NPS). E o que é o reggaeton, pergunta o leitor? Pois bem: o reggaeton é um género musical nascido em Porto Rico nos anos 90, e inspirado tanto pelo hip-hop norte-americano como pela música latina e do Caribe (onde se inclui o reggae jamaicano, que lhe empresta o nome). Caracteriza-se pelo seu ritmo, chamado de tresquiáltera (são usadas três notas num tempo que normalmente seria de duas), pelas letras carregadas de teor sexual, romântico, de ostentação ou thug (a vida nos subúrbios bravos, basicamente), pelas misturas não incomuns entre a língua espanhola e a inglesa e pelo facto de vir encontrando o seu espaço no topo das tabelas de vendas de todo o mundo desde 2004, quando Daddy Yankee lançou o seu maior êxito, 'Gasolina'.

Mas o leitor não quererá certamente uma explicação Wikipediana daquilo que é o reggaeton, e sim perceber por que – ou como é que – o reggaeton tomou conta do NPS. Fê-lo através de um homem apenas, J Balvin, cantor / rapper nascido na Colômbia e que durante muito tempo, sobretudo nas redes sociais do festival, foi o inimigo público número um: o homem que ameaçava estragar aquilo que é visto como um evento de celebração da música dita alternativa e independente.

Porém, é redutor ver no NPS apenas um evento indie. Mais que uma celebração do nicho, o festival é uma celebração da música. Seria impensável, nesses moldes, não dar uma janela de oportunidade às novas tendências dentro da pop ou fora dela. É perfeitamente possível – e saudável – não gostar deste género de música em particular. O que é bizarro é pregar as mais cruéis maldições ao festival, só porque alguém sente que a sua identidade (E as identidades não são maleáveis? As pessoas não crescem?) está ameaçada ou, pior, conspurcada por causa de um tipo vestido de branco, com um dente de prata e um catálogo musical que provavelmente fará Frank Zappa dar voltas no caixão.

Assim que J Balvin foi anunciado para o festival, “cobras e lagartos” é uma forma muito simpática de descrever os insultos que se foram lendo nas redes, e as preces para que o festival morresse ou, melhor ainda, se encontrasse despido de gente para – supõe-se – ensinar uma lição à organização de que o povo é que sabe tudo e tem sempre razão e qualquer outra coisa está naturalmente errada, não existindo espaço para o cinzento, o meio-termo ou o compromisso.

As preces, lamentavelmente, para aqueles que preferem seguir fielmente os seus dogmas em vez de se abrirem ao mundo e descobrirem uma linguagem para além das que já conhecem, não foram ouvidas. J Balvin encheu o NOS Primavera Sound e mesmo aqueles que juravam a pés juntos que não iriam entrar este ano no recinto lá se foram aglomerando na colina que desemboca no palco principal. O colombiano, uma das novas grandes estrelas pop, foi bebendo da efusividade do público e apresentou um espetáculo quanto baste: muito fumo, muita bonecada, muitas backtracks (gravações prévias dos vocais das canções, sobretudo colaborações), muitas bailarinas em avançado estado de quase-nudez e muito ritmo latino, de onde sobressai o verso que se escuta em 'I Like It', da rapper norte-americana Cardi B, canção influenciada pela música latina e na qual Balvin colaborou: viva la raza.

Isto é: viva o povo latino, a sua música, as suas idiossincrasias, vivam aqueles que crescem em favelas controladas por narcotraficantes e que conseguem fugir à miséria, vivam aqueles que atingem o topo através de uma sonoridade que a classe média alta não suporta pelo “simplismo” ou pela “falta de técnica” ou pelo facto de ser “música para azeiteiros”. E rapidamente se chega à conclusão de que muitos dos que odeiam o reggaeton não odeiam o género em si: odeiam o facto de os “pobres” gostarem, os de espírito ou os financeiros.

Alheio a todo este rancor, J Balvin retribuiu o carinho dado pelo público com um concerto onde não faltaram temas como 'Machika', 'X', 'Downtown' ou as mais recentes 'Con Altura' e 'Contra La Pared', por entre outras canções de menor sucesso ao nível das vendas e do streaming, e terminando com 'Mi Gente', êxito de 2017 que deixou milhares de pessoas de braços no ar, telemóveis a reluzir, encavalitadas nos seus amigos ou parceiros. Para trás deixou um rasto de festa, mostrou uma camisola da seleção nacional de futebol autografada por Cristiano Ronaldo e provou que há mais música para além das guitarras e do underground. Como espetáculo pop, tanto a nível cénico como musical, já se viu e ouviu melhor; como momento altamente subversivo, tendo em conta o contexto em que se inseriu, foi provavelmente o melhor concerto que já passou pelo NOS Primavera Sound.

Enquanto James Blake trazia o indie (neste caso, a pop eletrónica mais “alternativa”) de volta ao festival, o rapper norte-americano JPEGMafia matou-o, assinando um concerto feérico que também subverteu a ideia daquilo que deve ser um espetáculo hip-hop. Sozinho em palco, sem DJ (ia ele próprio carregando no play, no seu portátil), JPEGMafia foi mostrando temas com nomes tão bizarros quanto 'Macaulay Culkin' ou 'I Cannot Fucking Wait Til Morrissey Dies', por entre gritos autodepreciativos de “que se lixe o Peggy” (ou seja, JPEGMafia; os amigos chamam-lhe Peggy), corridas e movimentos de corpo desenfreados pelo palco e inúmeras descidas para junto do público, com o qual se sentou a dada altura já depois de ter “surfado” dezenas de braços. “Vim até aqui para tocar algumas cenas maradas”, começou por explicar, e cumpriu-o com beats esqueléticos e eletrónica abrasiva e agressiva. Entrou com ódio, saiu a amar, agradecendo aos presentes por o terem acolhido. Ainda ouviremos falar muito dele, que não restem dúvidas.

Se os Shellac, a banda residente do festival (tendo tocado em todas as edições até hoje) foram iguais a si próprios e até mais do que isso, com Steve Albini a mostrar o seu nojo por um tal de Ed Sheeran durante uma interpretação de 'The End of Radio', já no final do concerto, os Interpol deixaram algo a desejar em nova incursão por terras lusas. Havia novo disco, “Marauder”, para apresentar, mas os nova-iorquinos só conseguiram despertar algum interesse recorrendo a velhos clássicos, como 'Slow Hands', 'Evil', 'Say Hello to the Angels' ou 'PDA', todas elas retiradas aos seus dois primeiros discos (editados em 2002 e 2004, respetivamente). O seu rock negro, que em muito deve ao pós-punk britânico, foi talvez um contraste demasiado grande com o arco-íris de J Balvin, que atuou pouco antes. Mesmo assim, o palco Seat – o mais pequeno do festival – rebentou pelas costuras para receber uma das bandas mais bem-vestidas do rock do século XXI, mesmo que esta noite se tenham revelado algo pachorrentos. A soberba 'Obstacle 1', perto do final, evitou sonolências maiores.

A tarde foi das mulheres e do jazz com Nubya Garcia, de um lado, a transbordar sensualidade do seu saxofone, acompanhada por um groove delicioso e por uma banda extremamente coesa, e Nilüfer Yanya do outro, que começou com um rock esquelético a fazer lembrar os Young Marble Giants e depressa chegou ao soft rock sensual. Os Sons of Kemet, que contam com nada mais nada menos que quatro percussionistas, deram uma lição de batuque no palco Pull & Bear, tendo também o jazz como base. E os sul-coreanos Jambinai, ainda com o sol a impor a sua força, trouxeram o peso do metal mais arrastado para o palco Seat, com o eco das colunas a ribombar por toda Matosinhos.

O terceiro e último dia do festival será este sábado, destacando-se atuações de artistas como Lena D'Água, Jorge Ben, Guided By Voices, Rosalía ou Neneh Cherry, entre outros.

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