Há um termo ora por ora pejorativo, que circula por fóruns e comunidades melómanas, e que serve para designar bandas como os Stereolab: bandas para críticos de música. Cabem nesta caixa artistas como, por exemplo, os Yo La Tengo, donos de uma sonoridade rock dita “alternativa”, que não fogem muito à sua matriz essencial, e que apesar de gozarem de um culto invejável e de elogios vários por parte da imprensa especializada nunca conseguiram, na sua grande maioria, chegar aos primeiros lugares das tabelas de vendas ou de streams – ou até mesmo aos cinquenta primeiros lugares. Habitam aquele espaço entre o sucesso e o esquecimento; não têm o primeiro e não sofrem do segundo. Por todo o mundo há quem se lembre delas constantemente, mas quem o faz não enche estádios, enche memórias.

Falar da memória no caso dos Stereolab é lembrar que ali pelos anos 90 foram dos projetos mais interessantes fora do rock mainstream, e até mesmo da cena britpop na qual são por vezes enclausurados. Ao longo dessa década, editaram álbuns com títulos tão místicos quanto... intelectuais, à falta de palavra melhor, como “Transient Random-Noise Bursts With Announcements” (1993), “Emperor Tomato Ketchup” (1996) ou “Cobra and Phases Group Play Voltage in the Milky Night” (1999). Sim, os Stereolab podem ser muito para intelectuais, para gente que já conhece segredos que as almas menos dadas ao que se faz fora da caixa nunca imaginarão. Pessoas que, daí, procurarão fazer algo de extraordinário com as suas vidas, em vez de as viver apenas.

Pessoas como as que negaram a chuva como um ateu nega o divino para encontrar ou reencontrar um outro tipo de teologia, mais psicadélica, menos dogmática. Que acorreram ao NOS Primavera Sound apenas e só porque, há alguns meses, souberam que os Stereolab se iriam reunir dez anos após terem entrado em hiato, já após uma série de discos, uma morte na família (a da guitarrista Mary Hansen, em 2002), um divórcio (o de Tim Gane e Lætitia Sadier, pouco depois). Que ignoraram por completo o chamamento dos demais palcos, o chamamento de todas as outras músicas.

Escreve-se psicadélico mas os Stereolab, cruzamento entre velhos inimigos – França e Inglaterra – vão além do psicadélico; o que ali existe nada tem de alucinação. É bem real. Não é uma trip, um sonho. É a verdade, uma casa construída com cimento, mármore, guitarras, bateria, órgãos e tudo o que mais vier à mão: funk, krautrock, rock alternativo, pop dos anos 60, eletrónica variada, ruídos diversos. É uma longa conversa no bar da faculdade sobre Marx, sobre música, sobre movies franceses, sobre movimentos de vanguarda. É um amigo, daqueles que se guardam para sempre e os quais revemos precisamente em concertos como os dos Stereolab... Fechando o círculo imenso que é esta coisa de se olhar mais além do óbvio.

Num espetáculo que apenas pecou por escasso – Ou será que pecou? Será que não era exatamente disto que precisávamos? –, os Stereolab mostraram-se coesos, mesmo não tendo sido extraordinários, devolvendo a um público fiel (e sobretudo mais velho que a média de idades do festival) temas como 'French Disco', que foi o que mais de perto tiveram de um “sucesso” radiofónico, 'Need To Be', 'Ping Pong' ou 'Lo Boob Oscillator', com a qual terminariam em modo free, travando e acelerando conforme as suas vontades, e as do povo, assim pediam. Esta banda faz-nos coisas estranhas ao coração. Não haja dúvida.

Já que se fala de amor, há que mencionar também Jarvis Cocker. O “líder” dos Pulp foi igual a si mesmo, dono de um enorme charme e sagacidade britânicos, ao mesmo tempo que se ia dedicando ao lado mais animalesco do rock de boas roupas. Sabíamos que estávamos perante algo de diferente e possivelmente bastante divertido quando a canção que o reintroduz ao público português, oito anos após um concerto em Paredes de Coura, é uma versão orquestral de 'Heart of Glass', dos Blondie, ainda sem ninguém em palco. Depois disso tudo foi humor, tudo foi Britcom, a Velha Albion indie na mesma noite em que a sua equipa de futebol percebeu que o troféu [da Liga das Nações] não iria para casa, como tanto cantaram os adeptos ingleses que esta semana acorreram ao Porto e a Guimarães. Entrou com um pequeno espelho no qual refletiu o público que o apanhou no Palco Seat, saiu como uma melhor cópia de todos nós. De 'Further Complications' a conversas em código morse, de explicações sobre a evolução da espécie à dança em êxtase de 'House Music All Night Long', de 'Homewrecker' (rock perigoso de saxofone e navalha na goela) à passeata pelo público, a quem perguntou os seus medos, não faltou nada ao concerto de Jarvis Cocker. Exceto talvez a meteorologia adequada; a dada altura, uma nova chuvada se abate sobre o Parque da Cidade do Porto e são muitos os que desistem, procurando abrigo na zona de restauração ou na tenda dedicada à música eletrónica. Foi pena; um britânico como Cocker, e sobretudo um britânico como ele, merecia um sol a sério.

Nuvens negras no céu, negritude muita em palco: Solange, que costuma ser conhecida nestas lides como “a irmã de Beyoncé” (o que é chato para todos os envolvidos: Solange, Beyoncé, e quem a conhece apenas dessa forma), veio até Portugal para mostrar os temas do seu novo álbum, “When I Get Home”. Em palco, contou com tudo: um cenário de escadas, dançarinos, cantoras, banda completa, e um guarda-roupa talvez pouco apropriado para temperaturas inferiores a 25º Celsius. Prometeu negritude ou, melhor dizendo – e são palavras dela – uma celebração da blackness, mas acabou por não fugir muito ao registo de um D'Angelo, sem metade do sexo. Foi pena. Antes dela foi Allen Halloween a trazer uma outra negritude, a dos subúrbios e a da vida maldita que ou acaba em criminalidade ou em morte (ou em ambos). O rapper nascido na Guiné trouxe ao NOS Primavera Sound clássicos como 'S.O.S. Mundo', 'Mary Bu' ou 'Fly Nigga' (todos do seu primeiro disco, “Projecto Mary Witch”, 2006), outros como 'Killa Me' ou 'Drunfos' (“A Árvore Kriminal”, 2011) e ainda clássicos futuros, mais recentes, que ia disparando em verso ou numa MPC orgulhosamente levada no peito. Num meio onde os heróis caem depressa dos seus pedestais, o do hip-hop, Allen Halloween continua a ser rei e senhor na Tuga. E são poucos os que lhe conseguem sequer chegar aos pés.

À tarde, esteve nos Built To Spill o maior foco de interesse, com a banda norte-americana a apresentar-se no palco principal do festival do Porto menos de 24 horas após terem atuado na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, cuja lotação máxima anda pelas duas centenas de pessoas. Nome histórico do rock indie dos anos 90, os Built To Spill não conseguiram, lamentavelmente, mostrar em palco todos os motivos pelos quais gostamos tanto deles – fosse pelo som, ou pelo facto de parecerem estar ali a fazer missa de corpo presente. E mesmo sendo o festival na Invicta, também Lisboa ajudou à festa, através da música rítmica e indelevelmente africana de Dino D'Santiago, que veio apresentar essa “Nova Lisboa” que tanto gosta de cantar (e que tantos gostam de mencionar ao falar dele). Só faltou a companhia da amiga Madonna.

O NOS Primavera Sound continua esta sexta-feira, com concertos de Shellac, Fucked Up, Liz Phair, J Balvin, Interpol, James Blake ou JPEGMafia, entre outros.

*Solange não autorizou a captação de imagens

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