Em entrevista à Lusa, a propósito da estreia de “Elas também estiveram lá”, no âmbito do Festival Olhares do Mediterrâneo – Women’s Film Festival, Joana Craveiro explicou o conceito frisando que o filme “é documental porque parte de materiais como fotografias, imagens, histórias orais”, mas também “é contado de forma não linear, nem 100% factual”.

Com produção do Teatro do Vestido e argumento de Joana Craveiro (que é também narradora, em conjunto com Tânia Guerreiro), o filme é baseado no espetáculo teatral homónimo (Teatro do Vestido, 2018) e dá vida às histórias de uma série de mulheres que “estiveram lá” — na ditadura (1926-1974) e no processo revolucionário (1974-1975) –, combinando testemunhos, fotografias e outros documentos.

O argumento é o mesmo da peça de teatro, mas pensado “noutra linguagem”, observou a realizadora, ressalvando que “o teatro não é cinema” e que o filme “não é uma peça de teatro filmada”.

Fazer um filme abriu “outras possibilidades”, reconheceu, recordando como o Teatro do Vestido se transformou “num enorme estúdio”.

“Adorei, adorámos todos, ficámos completamente em êxtase. Foi uma aventura”, partilhou, considerando “muito gratificante” que o filme tenha sido selecionado por um festival de cinema de mulheres.

“O filme fala da invisibilidade das mulheres numa série de processos históricos”, recordou.

“Parece-me importante que possa existir um festival, ou mais, em que o cinema feminino esteja em destaque”, frisou.

Até porque o caminho para a igualdade tem sido “muito lento” e “a desigualdade mantém-se”, por exemplo nas artes, onde “a representatividade das mulheres é muito menor”, lamentou Joana Craveiro.

A também professora está a trabalhar sobre feminismo com um grupo de alunas de 20 anos. “Por muito que eu ache que já mudou muita coisa, há muita coisa que também ainda não mudou”, assinalou.

Em concreto: “A discriminação de que elas são alvo dentro das suas famílias, os papéis que lhes são atribuídos pelos pais, de cuidar dos irmãos, de cozinhar […], o assédio de que elas são alvo diariamente, quando andam na rua, sem que os homens que o praticam sejam punidos ou sejam sequer responsabilizados minimamente.”

Narrando que “muitas vezes elas têm medo de andar na rua ou de se vestirem de determinada maneira”, Joana Craveiro confessou: “Ao ouvi-las, fico abismada e francamente aterrorizada com o facto de tão pouco, afinal de contas, ter mudado. É que mudou ainda menos do que eu pensava.”

É preciso – defende – “empoderar as jovens, para que elas possam fazer tanto quanto os homens fazem, ter acesso tanto quanto os homens têm a concursos, a mostrar o seu trabalho”.

Claro que “mal seria se não existisse uma evolução” do 25 de Abril aos dias de hoje, “desde já porque se fala sobre isso”.

“Temos um problema em Portugal, que é o problema do reconhecimento, de que existe esta ou aquela questão estrutural”, frisou, mencionando o machismo estrutural e também o racismo estrutural.

“Reconhecer e falar sobre isso já é um passo grande [em relação a] quando isso não se falava nem havia o reconhecimento de que isso fosse sequer uma questão e as pessoas varriam isso para debaixo do tapete”, assinalou.

“Elas também estiveram lá”, o filme — que foi mostrado ‘online’, numa primeira versão, no último Abril em Lisboa (iniciativa da EGEAC), em contexto de pandemia — será exibido às 16:00 do próximo domingo, no Cinema São Jorge, em Lisboa.

Seguir-se-á uma mesa-redonda, às 18:00, com o tema “Mulheres na resistência e na revolução”, com Joana Craveiro, Manuela Tavares e Clara Jorge.

Entretanto, a mais recente peça do Teatro do Vestido, “Juventude Inquieta” — que acaba de sair do Teatro Nacional D. Maria II — vai viajar até Viseu, na sexta-feira e no sábado, e Joana Craveiro espera que “circule mais” pelo país, para o ano.

O Teatro do Vestido está de partida para o Alentejo (Santiago do Cacém e Odemira), para trabalhar em parceria com o projeto Lavrar o Mar, de Madalena Victorino e Giacomo Scalisi, num trabalho que terá estreia em fevereiro.

No próximo ano, a encenadora-realizadora vai passar uma temporada nos Estados Unidos, a trabalhar num projeto sobre justiça climática e alimentar, resgate de memórias e história pública. Vai chamar-se “Intimidades com a Terra” e envolverá “um grupo de nativos americanos”.

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