“O que eu faço, de certa maneira, é um ato de amor. Toda a profissão, conseguir chegar a mais pessoas, e tentar mostrar-lhes o que está a acontecer aos seus semelhantes seres humanos”, disse James Nachtwey, em entrevista à agência Lusa.

A sua arte, quando exposta, adiantou, baseia-se “na fé dos melhores instintos das pessoas”: “E elas também respondem de uma forma muito humana e fazem uma conexão humana com as pessoas retratadas nas fotografias. E isso é uma forma de amor, amor numa humanidade comum a todos, independentemente da amizade, da nacionalidade, cultura ou religião, é algo profundamente humano”, frisou.

À Lusa, James Nachtwey contou que estava no Afeganistão, a trabalhar num projeto independente, quando a invasão russa começou em finais de fevereiro. Acabou por largar tudo, suspender o seu projeto afegão e demorou cinco dias a ir de Cabul a Kiev, a capital da Ucrânia, onde nunca tinha estado anteriormente.

“Não fiquei na Ucrânia muito tempo, comparado com outros jornalistas. Fiquei sete semanas, foi uma experiência muito intensa, terrível, muito poderosa. Senti-me obrigado a ir, estávamos ainda na fase inicial da guerra, quando a Rússia estava a tentar cercar Kiev. Queria chegar antes da capital ser cercada, foi por isso que saí tão rápido do Afeganistão”, explicou.

Nessa fase, a capital ucraniana era bombardeada todos os dias, a exemplo da segunda maior cidade do país, Karkhiv, onde também esteve e que, ainda hoje, quase sete meses depois do início da guerra, é uma das regiões mais martirizadas pelos bombardeamentos russos.

Já quando o subúrbio de Bucha, localizado a noroeste de Kiev, foi libertado da ocupação russa pelas forças ucranianas, James Nachtwey regressou aos arredores da capital da Ucrânia “porque queria documentar os crimes de guerra que os russos ali cometeram”, enfatizou.

Do lote de dez fotografias a preto e branco presentes na exposição do Prémio Estação Imagem 2022 (aberta ao público até 06 de novembro na Sala da Cidade), as captadas em Bucha — onde morreram 400 civis, alegadamente assassinados pelo exército russo em retirada – serão, precisamente, as que mais impacto terão sobre o horror da guerra em território ucraniano.

Uma delas mostra uma mulher, ajoelhada, junto ao corpo do marido, morto com um tiro na cabeça, a exemplo de um irmão e de um vizinho; outra, um saco para cadáveres, ligeiramente aberto, de onde sobressai parte de uma face e um olho aberto e baço de mais uma das vítimas mortais do conflito.

No lote de imagens escolhido pelo multipremiado fotojornalista — que, em 41 anos de carreira, venceu duas vezes o World Press Photo e foi cinco vezes distinguido com a medalha de ouro Robert Capa, para além de outras dezenas de prémios e galardões — também há lugar à compaixão, como uma em que um voluntário ucraniano, de arma a tiracolo e olhar perdido no horizonte, ampara e abraça um idoso, após o ter ajudado a atravessar um rio.

É certo que o visitante já está avisado ao que vai, ainda antes de ver a exposição: não só pelo título da mostra (Os Insubmissos ou “aqueles que não podem ser vencidos”) mas, especialmente, pelo pequeno relato escrito que James Nachtwey fez chegar à revista The New Yorker, junto com as suas fotografias, logo nos primeiros dias do conflito e que suporta, agora, a brochura da exposição em Coimbra.

Neste, o fotojornalista, de 74 anos – idade que define como “apenas um número” — considerado uma ‘lenda viva’ da profissão e que já retratou, desde a estreia, em 1981, na então turbulenta Irlanda do Norte, inúmeras guerras, atentados, conflitos sociais ou desastres naturais – aponta a “terrível realidade” da ‘operação militar especial’ ordenada por Putin.

“A barbárie e a insensatez do ataque russo são difíceis de acreditar, mesmo se eu as testemunhei com os meus próprios olhos”, escreveu James Nachtwey, aludindo a residências civis bombardeadas, casas atingidas por disparos de tanques à queima-roupa e não-combatentes assassinados em áreas ocupadas pelos militares.

Perante o horror infligido à população ucraniana pelo exército russo, o fotojornalista norte-americano disse ter encontrado pessoas ‘normais’, cidadãos comuns, “demonstrando uma extraordinária coragem, determinação e mesmo teimosia”, face à destruição “tremenda” e à perda de vidas.

Sobre o seu trabalho no terreno, James Nachtwey afirmou que, apesar da sua experiência de dezenas de anos na cobertura de conflitos armados, não tinha “nada predeterminado” sobre o que documentar na Ucrânia e que “correr riscos” faz parte de se ser fotojornalista num cenário de guerra.

“Não consegues fazer este trabalho se não estiveres disposto a correr riscos. Este era um evento em progresso, ninguém sabia o que podia acontecer de um momento para o outro, num bombardeamento não sabes onde a bomba vai cair ou quando. Eu, quando sabia de um local que tinha sido atacado, tentava chegar lá e era sempre a população civil que tinha sido atacada, eram prédios de apartamentos atingidos por morteiros, casas destruídas, pessoas mortas”, declarou.

Num registo mais pessoal, questionado sobre a “missão” que o leva à volta do mundo há mais de quatro décadas e se o facto de nunca ter casado ou ter tido filhos decorre de ser repórter de guerra, James Nachtwey, sempre calmo e ponderado nas respostas, revelou que a sua escolha é uma consequência do seu trabalho.

“Faço este trabalho de uma forma muito concentrada, sem parar, há décadas, foi isso que fiz com a minha vida. Foi uma escolha minha e para o fazer ao nível que queria, não teria sido um bom homem de família, não queria criar uma situação dessas. Foi a minha escolha, foi algo de que desisti e com que tenho de viver, mas sinto-me afortunado de vir de uma sociedade em que posso fazer essa escolha e fazer aquilo que achei que era correto”, observou James Nachtwey.

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