A companhia, ela própria a celebrar 15 anos de atividade, foi a escolhida para a ‘data redonda’ do CCB, com récitas na quarta, quinta e sexta-feira, pelas 21:00, e pelas 16:00 no sábado.

À Lusa, em novembro, o cenógrafo e diretor artístico José Capela descreveu o espetáculo, uma encomenda daquela instituição lisboeta, como partindo do mito da "venda da alma ao diabo", para abordar a relação entre a ambição artística e a sustentação material dessa ambição.

Após um ensaio entre os dez atores de “Fausto”, que conta ainda com 38 elementos do Coro Menor, um rancho folclórico e cerca de 30 figurantes, entre outros intervenientes em palco, Jorge Andrade, que assumiu o texto e a direção da peça, explicou à Lusa que a “mistura de várias coisas” define a obra.

“A ideia original veio de pensar no que estamos disponíveis a fazer para criar um objeto que seja, para nós, a obra prima. (...) Quando há problemas de dinheiro vamos cortar ao teatro, porque podemos passar sem isso, mas não sem comer. Quisemos fazer uma inversão para testar os limites das coisas”, disse o dramaturgo, ator e encenador, sobre a “primeira camada” conceptual.

O espetáculo dentro do espetáculo, com o mesmo nome e propósito, começa por atrair todo o tipo de pessoas à construção da obra prima, de jornalistas a desempregados, doentes sem cama nos hospitais e até ao exército, por meio de vários “acordos” que são feitos para viabilizar a sua realização.

Acabam envolvidos vários ministérios, acorrem pessoas aos milhares ao CCB, levando à criação de uma ‘zona especial’ em Belém para impedir a entrada de quem quer aceder à força à equipa criativa de “Fausto”, numa reflexão sobre vários temas do quotidiano, e o papel do jornalismo no seu acompanhamento, que acaba por ‘engolir’ o objeto artístico em si.

Da crise dos refugiados à aplicação da lei marcial, à designação especial de quem faz parte da peça e quem não faz, a proteção do espaço para turistas e a luta por melhores condições de trabalho, tudo se mistura em “Fausto”, através de ‘falsos diretos’ e peças jornalísticas de maior ou menor rigor noticioso.

“No processo de construção do espetáculo, íamos vendo os telejornais e lendo jornais, e essas coisas iam contaminando. Não foi nada forçado, faz parte do quotidiano”, comentou.

Essa vertente de entrada na realidade leva ao inevitável surgimento de um populista, que tenta governar sobre o caos, “ocupar um lugar numa realidade conspurcada”, o que leva à questão: “Como é que vamos fazer uma festa assim?”.

“Como artistas, temos uma coisa a dizer ao separamo-nos dessa realidade ficcionada do nosso quotidiano. Acho que esta postura política não é para dar lições às pessoas, nem tem de ser politicamente correta, pelo contrário, acho que é mesmo aproveitar a realidade, para como artistas podermos mexer no volume [dos temas] através do palco, tornando-a artisticamente interessante antes de reverberar para a realidade”, contou.

A equipa criativa pensou “em criar um bloco de ‘fake news’, para criar mal-estar em relação ao teatro”, mas acabou por se decidir contra a ideia, para não “usar as mesmas armas” que criticam. Mas deixou, ainda assim, uma crítica ao jornalismo e à pressão do imediatismo por parte do mercado dos ‘media’.

“Com o mercado a precisar de vender, é muito difícil. Há um jornalista que não se transforma, fica como jornalista até ao fim. Não é também bombeiro ou dançarino ou outra coisa qualquer. Para haver alguma redenção disto tudo, que seja por parte de um jornalismo sério, insisto nisso”, considerou.

Talvez “tenha de haver uma lei, algumas regras que controlem o mercado” para se defenderem contra as ‘fake news’ e a falta de rigor, acrescentou.

Com cenografia de José Capela, “Fausto” celebra os 25 anos do CCB, com Anabela Almeida, Carla Bolito, David Pereira Bastos, João Vicente, Mónica Garnel e Tânia Alves, no elenco, entre outros nomes, e a participação de quase 100 pessoas em palco, numa produção ‘site specific’ criada especificamente para as datas em que se apresenta.

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