Quando os Massive Attack editaram “Mezzanine”, em 1998, (já) não eram uns perfeitos desconhecidos. Anos antes, tinham dado que falar por meio mundo devido à revolução sonora que foi “Blue Lines” (1991), um verdadeiro vulcão onde cabiam influências que passavam não só pela música negra (soul, funk, hip-hop e derivados) como pelo lado mais “branco” do rock (o pós-punk à cabeça), e que é casa para aquela que é tida como uma das grandes canções não só dos Massive Attack como da humanidade em geral: 'Unfinished Sympathy', que desde então tem ficado quase sempre cotadíssima em variadas sondagens, que vão desde as “melhores canções dos anos 90” às “melhores canções de sempre”.

'Unfinished Sympathy' foi um sucesso para os (então apenas) Massive, que tiveram de alterar o seu nome de forma provisória – a BBC alegou que, em plena Guerra do Golfo, o nome “Massive Attack” não era lá muito patriótico (chamem-lhe “politicamente correto”). Era o primeiro passo na carreira de uma banda que até começou por não o ser; pense-se nos Massive Attack mais como um coletivo, que junta artistas das mais variadas categorias, de músicos a poetas, de produtores a lendas do graffiti.

A maior delas, Bansky, está aliás intimamente ligada aos Massive Attack. Há até quem argumente que a identidade deste artista de rua seja a mesma de Robert Del Naja, vocalista e teclista também conhecido como 3D, e o qual Banksy cita como inspiração. É impossível descobri-lo com exatidão, mas há quem já tenha traçado uma correlação entre as digressões dos Massive Attack e o surgimento de novas obras de Bansky em paredes e muros espalhados pelo mundo...

Não se estranhe, por isso, se Lisboa acordar esta madrugada com uma nova pintura de Bansky num dos seus cinzentos. Mas, antes disso, e num Campo Pequeno esgotadíssimo, houve oportunidade para ouvir ao vivo os temas do supracitado “Mezzanine”, obra maior de um catálogo variado que surgiu quando os Massive Attack já eram vistos como “pais” da sonoridade trip-hop, termo que sempre detestaram (à semelhança de muitos outros artistas conotados com o género, como os Portishead).

Tal como em “Blue Lines”, as misturas são muitas, e inspiraram tantas outras. Os Sepultura pegaram am 'Angel' e deram-lhe um tratamento metálico. Os produtores da icónica série de televisão “Dr. House” pegaram em 'Teardrop' e fizeram dela o tema-título do médico mais antipático da história. 'Inertia Creeps' foi oferecida aos Manic Street Preachers, que acabaram por fazer “apenas” uma remistura. Mais importante ainda, “Mezzanine” ofereceu a uma nova geração a voz de um anjo que desceu sobre o mundo, nos anos 80, com os seus Cocteau Twins: Elizabeth Fraser.

É também ela quem tem tomado conta do palco, estando a acompanhar os Massive Attack nesta digressão que celebra não o 20º mas o 21º aniversário do lançamento de “Mezzanine”, ao contrário do que mandam as regras no que toca a efemérides. Mas isso pouco importará para quem não sofre de transtorno obsessivo-compulsivo. Tal como não importaram os strobes ou o ruído eletrónico com que os britânicos nos brindaram, antes de se atirarem a 'I Found a Reason', dos Velvet Underground.

Este foi um concerto em que os Massive Attack revisitaram dois passados: o que tiveram – e continuam a ter – enquanto grupo, repescando as canções que os ajudaram a firmar créditos na história geral da pop; e o que tiveram enquanto indivíduos consumidores de música, relembrando temas e bandas com os quais construíram uma identidade melómana. Para além dos Velvet, ao longo da noite foi ainda possível escutar os Bauhaus (através de uma versão inacreditável, fio da navalha absoluto, de 'Bela Lugosi's Dead'), os Cure ('10.15 Saturday Night'), os Ultravox ('Rockwrok'), Pete Seeger ('Where Have All the Flowers Gone?') e, até, Avicii ('Levels', mais perto do final, num momento que serviu sobretudo para alienar a grande maioria dos presentes e deixar os restantes a rir às gargalhadas).

Pelo meio, houve também mais do que música. Os Massive Attack têm aproveitado “Mezzanine” para apresentar um novo espetáculo visual, criado por Robert Del Naja/3D. E, à semelhança daquilo que fizeram há quase três anos, no Super Bock Super Rock e na companhia dos Young Fathers, as mensagens políticas foram mais que muitas, mesmo que os alvos não tenham mudado: o capitalismo, a guerra, o temível futuro que nos espera e – sobretudo – a omnipresença da Internet e das redes sociais.

Sobretudo, porque para os Massive Attack uma tecnologia que à partida nos aproximaria mais enquanto seres humanos acabou por destruir laços, fomentar ideologias extremistas, transformar notícias em propaganda e vice-versa, acabar com a privacidade que anteriormente detínhamos num quase anonimato (motivo pelo qual abandonaram o Facebook, em 2018). Faz sentido que um dos primeiros rostos que se viram nos ecrãs de palco, entre outros tantos que foram surgindo ao longo do concerto, tenha sido o de Andy Warhol. Neste tempo presente, já ninguém tem 15 minutos de fama, e sim 15 mil likes ou retweets de fama.

A fama constrói-se a partir da imagem, que suplantou a palavra. Não se discute: vê-se, partilha-se sem ler ou entender. Ao mesmo tempo que os Massive Attack se insurgiam contra o poder da imagem e dos algoritmos que nos resumem a isso mesmo, foram às dezenas os que não perderam a oportunidade de captar tudo com os seus telemóveis para partilha posterior nas redes. Ergueram-nos um espelho, mas tudo o que vimos foi baço. De certa forma, o espetáculo dos Massive Attack foi uma lição suprema de ironia.

Assim sendo, o lema desta noite só poderia ser este: «Talvez as conspirações sejam uma conspiração», uma das frases que foram passando nos ecrãs. Ou, por outras palavras, talvez todas aquelas imagens que encontramos na Internet, todos os memes, todas as partilhas mais não sejam que uma mentira. A realidade sendo invadida pelo virtual. O medo suplantando a esperança, de forma a manter o poder em mãos alheias, longe das do povo («Não existem inimigos em lado nenhum», leu-se ainda). Com os resultados que se conhecem, de Trump – cujo rosto foi apupadíssimo – a Putin – que não mereceu uma reação que fosse. Ironia, também tudo isto. Ironia, misturar Saddam Hussein com Lady Di, misturar o Rato Mickey com Britney Spears, misturar 'Where Have All the Flowers Gone?' com imagens desoladoras e brutais da Guerra no Iraque.

(Ainda que todas as imagens de guerra sejam desoladoras e brutais.)

Por entre as mensagens, que terão ficado mais ou menos imersas nas memórias daqueles que encheram o Campo Pequeno, sobrou a música. Não será de todo tolo pensar que muitos deles estavam ali por 'Teardrop', que mereceu o maior aplauso da noite (e houve quem abandonasse o recinto imediatamente a seguir à sua interpretação). Mas também estiveram por 'Risingson', com Toy-like people make me boy-like... a pairar sobre as nossas cabeças como um balão dub. Ou por 'Man Next Door', a primeira de três canções que Horace Andy (que participou em todos os cinco álbuns que os Massive Attack editaram até hoje) cantou. Ou, ainda, pelo tema-título – 'Mezzanine' – durante o qual foi possível observar milhares de pessoas extremamente concentradas naquilo que se passava em palco o que, convenhamos, não é muito habitual nos dias que correm.

E se mais provas faltassem de que este novo espetáculo dos Massive é sobretudo irónico, elas ficaram desfeitas com outra das frases que correram pelos ecrãs: «O passado preencheu a nossa visão e começou a tapar o futuro». Como que querendo dizer que os britânicos vieram celebrar o seu passado, sem esconder o rancor que sentem pelo mesmo. Como que querendo dizer que os muitos “revivalismos” a que assistimos nos mais variados campos não sejam nada mais que um obstáculo à evolução. Como que querendo dizer que os slogans antigos, de Venceremos a Yes We Can a Liberté, Égalité, Fraternité – que também utilizaram nos visuais – não passem de otimismo bafiento e alimentado a publicidade. E serão também essa ironia e esse rancor aquilo que os levou a entrar e sair do palco sem dizer uma palavra durante hora e meia, deixando música e imagens (lá está...) a falar por si. Tudo termina com uma ordem positiva para que comecemos a construir o futuro. A questão que se coloca é: ainda há espaço para o futuro?

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