Chama-se Next, é uma escola de dança e tem entre os seus alunos os campeões do mundo de hip hop em dois escalões, cadetes e adultos. Um título ganho em plena pandemia e que, também por isso, tem sabor a dobrar.

Lara Alves é a cabeça e o corpo por trás do projeto que já tem 22 anos e da escola que abriu há 13. Entre uma coisa e outra, viajou por França e pelos Estados Unidos, conheceu Justin Timberlake, participou como coreógrafa e como atriz nos Morangos com Açúcar e dançou, dançou, dançou.

Ao contrário da maioria dos miúdos que ensina, a dança entrou tarde na sua vida, tinha 17 anos. E um pouco por acaso. Tudo apontava para uma carreira na Medicina Veterinária, mas no ano de entrada para a faculdade a média era de 19 valores (ela tinha 17). Farmácia ou Biologia nunca fizeram parte da equação, e foi assim que Lara Alves decidiu experimentar Educação Física.

No ano de estágio resolveu abrir no desporto escolar um núcleo de dança - na altura chamava-se hip hop/funk. Foi na António Gedeão, na Cova da Piedade, em Almada. Em Portugal ainda mal se ouvia falar nesses estilos, quanto mais em ter escolas dedicadas a eles; os poucos professores que havia vinham dos Estados Unidos. Depois de três anos a lecionar aí, em Miratejo e no Fogueteiro, sentiu que precisava de mais e foi para os EUA. Foi então que tudo mudou.

"Deparei-me com uma realidade totalmente diferente. Ia para um estúdio de dança e tinha aulas que eram eram autênticos videoclipes com o coreógrafo de Justin Timberlake. Os bailarinos eram aqueles que estava habituada a ver na MTV, muito profissionais, sempre muito produzidos, porque já iam à procura de trabalho. Os bailarinos que via nos filmes eram os que estavam a dançar ao meu lado. E isso é inspirador, faz-nos querer mais, sentir que, se trabalharmos, também vamos conseguir lá chegar", recorda Lara Alves.

Na altura quis fazer uma pós-graduação, mas em Portugal não havia nada dentro do género, tirando fitness e aeróbica, dança contemporânea ou clássica e também as danças de salão. Decidiu ir três meses para Los Angeles.

Quando regressou a Portugal tinha sido colocada com horário completo, mas então já estava decidida a dedicar-se inteiramente à dança. "Não é que não gostasse de dar aulas de Educação Física, mas quando queremos ser muito bons em alguma coisa, temos de nos especializar. E já estava a ser muito difícil compatibilizar o nível de exigência que a dança me colocava, os trabalhos e as oportunidades que surgiam, com a responsabilidade de dar aulas numa escola e fazer um bom trabalho com os alunos", explica. Escolheu arriscar.

"Felizmente as coisas foram correndo cada vez melhor, fui criando os meus projetos, até que surgiu a oportunidade de participar nos Morangos com Açúcar, o que me abriu portas para uma visibilidade maior. Além de ser coreógrafa e professora dos atores, depois fui convidada a representar" (no papel de professora Eva, onde a realidade ultrapassava a ficção). A partir daí foi sempre a crescer.

Trabalho, disciplina e muita vibe

No filme "Fame" o sermão da professora de inglês dá o mote: "Esta não é uma escola Rato Mikey, não vão safar-se com facilidade só porque são talentosos ou trabalham o dobro. Não quero saber se dançam bem, se são bonitos ou se têm tutus de todas as cores. Se não se dedicarem aos temas académicos da mesma maneira, estão fora".

Lara Alves é uma mistura de Miss Sherwood e Mrs. Grant, a inspiradora professora de dança. Os alunos adoram-na. Na Next, o discurso que faz aos seus alunos não é muito diferente. "É uma questão de prioridades. E é exatamente pelo facto de gostarem tanto da dança, de termos treinos tão intensos e tão importantes, aos quais não podem faltar, que não podem vacilar na escola. A importância da escola prevalece, não há nada mais importante do que as notas".

Coco, Leroy, Lisa, Bruno, Doris ou Ralph aqui são Carlota, Mariana, Nicole, Alex, Sara ou Mateus. "A dança é um modo de vida, não é um meio para fugir à escola", dizia Mrs. Grant em "Fame". Na Next os alunos cumprem.

Carlota tem 18 anos e estuda Biologia. Por poucas décimas não entrou para Medicina Veterinária, mas diz que sempre conseguiu conciliar os estudos com a dança. Fez cinco anos de ballet e experimentou ginástica rítmica, mas foi no hip hop que se sentiu completa.

Mariana tem a mesma idade e estuda Psicologia em Évora. Vai e vem todos os dias, uma hora e meia de comboio para lá e outra para cá. Está na Next desde os seis anos e foi aprendendo a gerir o seu tempo e a organizar-se. "É uma questão de autoconhecimento", garante. Gosta de crianças e espera um dia conseguir conciliar carreira e hip hop, talvez venha a fazer terapia infantil através da dança, diz. Mara estuda na Faculdade de Ciências e concorda que "sempre nos habituámos a conciliar a dança com os estudos". Admite que "é preciso fazer alguns sacrifícios, faltar a casamentos, aniversários, festas".

Nicole pertence à mesma faixa etária, como não entrou em Enfermagem, está a fazer uma pausa, mas "para o ano volto a tentar".

O trabalho compensa, e este ano as quatro fazem parte de uma das equipas vencedoras do Campeonato do Mundo Hip Hop Unite. "Uma das", porque a Next trouxe para casa a taça de campeã do mundo de hip hop em duas categorias, cadetes e adultos. Independentemente da idade, a disciplina de cada um não muda muito.

"São miúdos que aprendem a gerir bem o seu tempo. Mas isso implica abdicar de muita coisa", afirma Lara Alves. Por isso, a frase mais ouvida entre os alunos é "não posso, tenho treino". E, se o ritmo dos estudos não abranda, a fase de preparação para um campeonato como o mundial é intensa.

Alex, filho de Lara, tem 17 anos e já chega a suar em bica. Treina três horas por dia, todos os dias da semana, às vezes ao sábado também. Começou no hip hop aos quatro anos, mas também gosta de breakdance, de raga e de afro. Mateus, 17 anos acabados de completar, dança desde os sete. Troca qualquer festa pelas aulas de hip hop e começou por fazer dança contemporânea por influência da mãe. Já chegou a dançar com um dedo rachado e garante que perde o medo quando vê Alex fazer qualquer exercício: "Ele faz tudo primeiro", ri. Apesar de saber que é difícil, gostava que a dança fizesse parte do seu futuro, "mesmo que em part-time".

Uma parte dos alunos chega pelo passa-palavra. Giovanna tem 15 anos. Praticava ginástica rítmica e foi o pai que lhe falou na escola onde dançava a filha de um amigo. Tinha nove anos quando foi experimentar e ficou até hoje. Já participou em três mundiais. Matilde tem 13 anos e dança desde os quatro por influência do pai. Mora em Sesimbra e desde que se lembra não perde um Carnaval. Nem quando não saiu à rua e ficou confinada por decreto; pai, mãe e filha fizeram a festa, ter música em casa foi quanto bastou. Leonor tem 12 anos, é sobrinha de Lara e, quando em Agen, França, anunciaram as equipas vencedoras nem queria acreditar. Faz hip hop desde os cinco anos e por pouco, devido a uma lesão duas semanas antes do campeonato, não viu todo o seu esforço ir por água abaixo.

Do grupo que entrevistámos, Sara é a mais nova, tem 11 anos. Começou aos seis. "Quando era pequena estava sempre a dançar, era elétrica. A minha mãe perguntou-me se queria ir para a dança e vim experimentar uma aula. Antes queria ir para o ballet, mas cada vez mais sei que fiz a escolha certa", assegura. Não sabe explicar o que a cativa, sabe apenas que gosta. E que para ser uma boa bailarina de hip hop "é preciso técnica, é preciso groove, é preciso bounce, é preciso atitude". Tem isso tudo, e esta foi a primeira vez que participou numa competição e foi também a sua estreia a andar de avião. Agora não quer parar.

Para Constança, 12 anos, este também foi o primeiro campeonato e a primeira viagem de avião. A seguir ficou nas nuvens. Antes da competição estava muito ansiosa, confessa. Está no 7.º ano e tem aulas à tarde. Estuda das nove ao meio dia, vai para as aulas e daí para a dança. E é aluna de mérito. Praticou vários desportos, do ballet à natação, mas "nunca tinha expressado aquilo que eu queria". A morte do avô devido a um cancro deixou-a triste. Quando chegou à Next, "a dança ajudou a dispersar o sentimento de raiva que sentia".

Ana Beatriz tem mais experiência. Há oito anos que dança hip hop, mas antes disso também fez ballet, como tantas outras. "Era muito calmo para mim", diz. Queria algo mais parecido com desporto e encontrou o hip hop. Depois de experimentar aulas em três ou quatro escolas decidiu-se pela Next. A escolha não foi difícil. "Era mesmo isto". Cativou-a o ambiente e "isso dá para perceber logo". Em 2018 também fez parte da equipa que ganhou o título de vice-campeã, na Holanda.

O sonho de ser modalidade federada e ter um patrocinador oficial

Como tantos outros bailarinos, Ana Beatriz só lamenta que não exista uma federação de hip hop. "Era giro sermos uma modalidade olímpica", como acontece, desde 2020, com o breakdance. "Mas pouca gente leva a dança a sério como desporto", diz. Constança reza por esse dia.

Lara Alves confessa que, se o hip hop fosse uma dança federada, isso iria facilitar muito as coisas. Atualmente existe a Federação Portuguesa de Dança Desportiva, onde estão as danças de salão e onde tão recentemente foi integrado o breakdance — só pode haver uma federação de dança, pelo que o hip hop teria de ser agregado também aí.

"É uma situação delicada", explica a professora. "Há quem defenda que o hip hop não deve ser considerado uma dança desportiva porque é uma arte, o que a torna difícil de avaliar". Por esta lógica, no entanto, não existiriam campeonatos de ginástica artística ou de patinagem artística, que não seriam ainda modalidades olímpicas.

As vantagens de federar o hip hop são várias, nomeadamente o estatuto do atleta, que permite a quem estuda ou trabalha compatibilizar horários, por exemplo.

A presidente da Federação Portuguesa de Dança Desportiva, Marina Rodrigues, disse ao SAPO24 que "o hip hop não é uma modalidade federada, porque nunca houve procura por parte da comunidade junto da nossa federação".

Lara Alves acredita que seria interessante, mas admite que não é fácil. "Poderíamos organizar-nos a nível nacional, mas não teríamos a mesma força que o breaking, que se organizou mundialmente, criou associações, federações nos diversos países, em função de um fim que era ser modalidade olímpica. Havia um interesse geral comum e não um objetivo específico de determinado país".

A questão do financiamento é outro ponto importante. A escola não tem qualquer tipo de apoio, sobrevive apenas das mensalidades pagas pelos alunos e dos trabalhos que faz, por exemplo em anúncios ou eventos corporativos.

A participação da Next em campeonatos mundiais está condicionada, uma vez que é a escola e os pais dos alunos quem paga as viagens, o alojamento e alimentação dos bailarinos.

"Temos tido alguns apoios, alguns pais conseguiram patrocínios através das empresas onde estão, fazemos rifas, vendemos bolos, mas basicamente os custos são todos suportados por nós. Como costumo dizer, não deixamos de fazer as coisas, arranjamos sempre maneira de conseguir, mas era mais fácil se tivéssemos financiamento e patrocínios oficiais".

Existem atualmente dois grandes campeonatos internacionais: o Hip Hop Unite e o Hip Hop International. O primeiro realiza-se na Europa — "nunca fica em menos de 500 euros por pessoa, mas chegamos lá" —, ao passo que o segundo tem lugar nos Estados Unidos. "E nós, apesar de apurados, nunca participámos no Hip Hop International, porque levar 35 bailarinos a um campeonato que se realiza nos EUA custa uma exorbitância, não é viável para nós", lamenta Lara Alves. Agora que trouxeram dois títulos de campeões do mundo para casa, talvez seja mais fácil atingir este objetivo.

O treino a que viemos assistir foi "tranquilo" do ponto de vista do esforço, "vieram repetir coreografias, foi uma brincadeira". E vai aliviar nos próximos tempos, agora que o mundial terminou? "Não", responde a professora. "Ainda não [ri]. Saímos de uma e metemo-nos noutra. Vou dar-lhes cerca de duas semanas e depois começamos a preparar um novo trabalho coreográfico". É que em março há novo apuramento. Se voltarem a passar essa fasquia, recomeça o ciclo.

Por norma o mundial acontece entre março e outubro, mas este ano, por causa da pandemia, realizou-se em novembro. No ano anterior nem teve lugar. Por isso, é preciso treinar muito: "Nunca menosprezamos o nosso adversário. Eles querem tanto vencer quanto nós ganhar", diz Lara.

Mas na Next nem todos são alunos de competição. Há também aqueles que querem apenas descontrair, fazer atividade física e divertir-se. E podem fazê-lo todos os meses ou apenas ocasionalmente. De tempos a tempos também há workshops: "Está aqui o investimento de uma vida, mas achei que valia a pena. Desta forma as coisas acontecem, não estamos dependentes de burocracias, como acontece principalmente quando se trabalha com o Estado. Às vezes perdíamos grandes oportunidades, como por exemplo a possibilidade de ter aqui nomes internacionais, como já aconteceu ter os bailarinos de Justin Timberlake ou de Justin Bieber, com quem estabeleci contactos e que, quando passam por Portugal numa tour, perguntam se quero organizar alguma coisa. Isto seria impensável, se o espaço não fosse meu, não daria tempo para esperar por uma resposta".

A escola tem 21 professores e funciona entre as 17:30 e as 23:00. Do escalão kids às turmas de competição, já chegou a ter 200 alunos. Atualmente, por causa da Covid-19, tem menos cerca de 50, mas já está a voltar a ganhar passo. "Tivemos muita gente a desistir quando passámos para o online. No primeiro confinamento bateu, mas o barco ainda se aguentou. No segundo foi muito duro para todos; nem todos os miúdos têm condições em casa para poder dançar, é preciso espaço, um computador para ver as aulas, boa internet. Foram tempos muito complicados", desabafa. "Se não houver nenhum percalço, acreditamos que em breve iremos recuperar o número de alunos que tínhamos na época pré-Covid".

A Next tem como objetivo formar e preparar os alunos para o palco, para dançar com artistas, para competição. Mas não só. "No fundo, também preparamos estes miúdos para o seu dia a dia, para o trabalho, ensinamo-los a não desistir, a persistir na dança e na vida".

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