A peça criada em 1950 está atualmente no Laboratório José de Figueiredo (LJF), nas mãos de um grupo multidisciplinar de especialistas em restauro, que aceitaram o desafio de substituir dezenas de fios colocados por Almada num contraplacado com quase dois metros de altura e largura, com desenho, pintura e reproduções fotográficas dos painéis ao centro.

"Pela primeira vez vai ser exibida ao público uma peça complexíssima, finalmente datada, e praticamente sem comparação no trabalho do Almada Negreiros", segundo o investigador Simão Palmeirim, que acompanhou a agência Lusa numa visita ao LJF, entidade tutelada pela Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), cuja missão se desenvolve no estudo, intervenção e salvaguarda do património cultural.

Durante uma visita ao espaço onde os técnicos estão ainda a realizar o restauro, Simão Palmeirim, especialista em pintura, referiu que a obra, com o título atribuído "Estudo em fio dos painéis de S. Vicente" (1950), vai "revelar novidades muito importantes", nomeadamente, "uma espécie de primeira linguagem geométrica do artista" sobre o políptico do século XV, do pintor Nuno Gonçalves.

Essa linguagem geométrica surge com grande complexidade neste estudo e, devido ao seu estado de degradação progressiva, ao longo de 80 anos, chegou às mãos dos especialistas em restauro num emaranhado de fios caídos, que foi preciso analisar atentamente e perceber como tinham sido traçados e unidos.

Os fios em 11 cores diferentes foram colocados cuidadosamente por Almada Negreiros numa constelação de quadrados, pentágonos, polígonos, hexágonos e retas.

No centro da peça, onde colocou as fotografias dos painéis, sobressai aquilo a que os especialistas chamaram "o diamante", devido às múltiplas facetas geométricas que apresenta, em resultado dos estudos de composição que o artista realizou dedicadamente à obra-prima de Nuno Gonçalves.

José Almada Negreiros, expoente do modernismo português, "apaixonou-se ainda muito jovem por várias pinturas do Museu de Arte Antiga, e os Painéis de São Vicente concentraram muitos dos seus esforços relativos a estudos de composição. Neste estudo, temos muitos pentágonos, hexágonos, figuras regulares trabalhadas em fio de algodão, num caso único que não se voltou a verificar no trabalho do Almada", explicou à Lusa Simão Palmeirim, comissário da exposição onde a peça vai ser apresentada, em outubro.

"Estamos perante um estudo que já tem características de uma obra de arte por direito próprio, pela sua complexidade, pelo trabalho laborioso que terá dado, e que merece esta celebração na efeméride na morte do Almada", falecido há 50 anos, sustentou o investigador.

Mas antes de entrar em fase de restauro, a peça foi desinfestada dos insetos que a atacavam, fotografada, e analisada por especialistas das áreas de biologia, pintura, papel, têxteis e fotografia, explicou à Lusa, a chefe de divisão do LJF, Gabriela Carvalho.

"Foi muito interessante o cruzamento de informação entre os especialistas em restauro e os investigadores, pois o estudo prévio da obra [realizado por Simão Palmeirim e Pedro Freitas] tem sido fundamental para a recuperar", sublinhou a responsável.

Ao longo da análise da obra no laboratório, os especialistas descobriram, por exemplo, que Almada "não trabalhou de certeza sozinho nesta peça, e os fios que usou eram os habitualmente usados para bordar", revelou Paula Monteiro, conservadora-restauradora de têxteis.

"Tivemos de tomar várias decisões, em conjunto, em particular em relação ao estado de degradação dos fios e dos arames que os prendiam. Era preciso decidir se íamos conservar os fios ou substituí-los, porque o objetivo principal era preservar a obra no seu original, e também a ideia do Almada Negreiros", explicou, adiantando que a escolha recaiu na segunda opção.

Em seguida, depararam-se com outro grande desafio, descobrir como colocar os fios com a orientação certa: "Chegámos agora quase ao fim, porque já conseguimos substituir praticamente todos os fios, e salvaguardar a ideia do Almada. Só nos falta fazer a passagem do fio azul central, que justifica o porquê dos dois painéis maiores ao centro e depois fazer a tensão das linhas", disse, referindo-se ao “diamante”.

"Quase que fizemos uma desconstrução da composição para depois voltar a construí-la", descreveu a especialista, que trabalhou em conjunto com Luís Pedro e Elsa Lopes, conservadores da mesma área dos têxteis.

A equipa, cujo trabalho continua, conta ainda com Ana Maria Fernandes, conservadora-restauradora de papel, Mercês Lorena, conservadora-restauradora de pintura, e, no laboratório analítico, a bióloga Lilia Esteves, aos quais se junta, do laboratório fotográfico, o fotógrafo Luís Piorro.

O restauro deste estudo de Almada Negreiros insere-se num projeto maior sobre o trabalho do artista, e a sua interpretação geométrica de várias pinturas antigas, que inclui duas exposições, uma em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), e outra no Mosteiro da Batalha.

Maravilhado com os painéis desde a primeira vez que os viu, o modernista português iniciou um conjunto de estudos que o levariam à criação de uma teoria, segundo a qual propunha uma reconstituição retabular, com várias pinturas juntas, para a Capela do Fundador, no Mosteiro da Batalha.

Obra maior da pintura europeia do século XV, atribuída ao pintor português Nuno Gonçalves, os painéis continuam a intrigar apaixonados pela arte e a desafiar teorias de historiadores e outros especialistas.

Continuam por responder cabalmente as perguntas sobre quem eram realmente, ou quem representavam, na época, as 57 figuras em redor da dupla figuração de São Vicente, dispostas neste retrato coletivo, que começou este ano a ser alvo de um ambicioso projeto de restauro, no MNAA, que deverá durar pelo menos três anos.

Uma das exposições tem como título "Almada Negreiros e os Painéis - um retábulo imaginado para o Mosteiro da Batalha", e é inaugurada a 15 de outubro na Sala do Teto Pintado do MNAA, reunindo as peças em que o artista apresenta a sua interpretação geométrica de várias pinturas do museu, entre as quais os painéis de São Vicente.

Durante décadas, Almada dedicou-se a uma investigação sobre a disposição de mais de uma dezena de pinturas num só grande retábulo, que afirmava ter sido projetado para o Mosteiro da Batalha, resultando desses seus estudos, numa vasta produção artística.

Esta exposição é complementada por uma outra, dedicada ao mesmo tema, no próprio Mosteiro da Batalha, a inaugurar na mesma altura, sob o título "Almada Negreiros e o Mosteiro da Batalha - quinze pinturas primitivas num retábulo imaginado".

Na parede para a qual Almada projetou a disposição do retábulo por ele imaginado, na Capela do Fundador do Mosteiro, serão colocadas reproduções à escala real das obras do MNAA e, na mesma capela, serão expostas várias maquetes e desenhos inéditos do modernista português.

Em conversas de Simão Palmeirim - membro de um dos centros ligados ao projeto Modernismo.pt, ativo desde 2013 - com os diretores do MNAA e do Mosteiro da Batalha, surgiu esta proposta de realizar as duas exposições em parceria, para dar a conhecer ao público um conjunto de obras que revelam o pensamento e vocabulário geométrico de um dos mais importantes modernistas portugueses.

Simão Palmeirim e Pedro Freitas são investigadores de centros universitários que trabalham com o Projeto Modernismo.pt, respetivamente, do Centro de Investigação e de Estudos de Belas-Artes (CIEBA)/Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT) da Universidade de Lisboa.

Ambas as exposições vão ser acompanhadas pela edição de catálogo autónomo, com textos que resultam da recente investigação sobre o tema.

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