A jovem tornou-se uma heroína nacional graças a "1944", canção interpretada na língua tártara, dois anos depois da Rússia ter anexado a península ucraniana da Crimeia, em 2014.

Milhares de tártaros da Crimeia, uma comunidade de língua turca e de maioria muçulmana, foram deportados por Estaline em 1944 para a Ásia Central, acusados de colaborar com os nazis.

A letra da música, que lembra aquele trágico episódio, provocou, à época, pedidos de boicote à Rússia.

"Falava a sobre minha avó, sobre a minha família, sobre todos os tártaros da Crimeia que foram deportados pelo exército soviético", disse Jamala, de 38 anos, à AFP em Istambul, onde se encontra refugiada desde o início de março, depois de fugir de Kiev com os seus dois filhos.

"Hoje estamos a reviver isso. Achei que era coisa do passado", confidencia a cantora, visivelmente afetada, aludindo à ofensiva lançada pelo presidente russo Vladimir Putin.

Na última sexta-feira, Jamala foi convidada a cantar "1944" durante o concurso de pré-seleção da Alemanha para a Eurovisão, concurso do qual a Rússia foi excluída. Lá, representaria a resistência ucraniana à invasão russa. "Honestamente, eu nem sei como consegui cantar". aponta

"Somos uma nova geração, pensamos em paz, como cooperar, como nos unir, mas coisas terríveis continuam a acontecer. Esta guerra está a ocorrer diante dos olhos do mundo", diz Jamala, cujo nome verdadeiro é Susana Jamaladinova.

Às 05:00 do dia 24 de fevereiro, o seu marido acordou-a: "A guerra começou, a Rússia atacou a Ucrânia". Naquele dia, Jamala foi para um abrigo com os seus dois filhos e o seu marido, mas depois decidiu mudar-se para Ternopil, 400 km a oeste. A viagem, de carro, durou dois dias.

Assim que chegaram, viram-se obrigados a sair. "Acordei às 06:00 com o som de explosões... dois dias depois, chegamos à fronteira romena".

O seu marido deixou-a com os filhos e retornou a Kiev para se juntar aos voluntários, ajudando a transportar mulheres e crianças para regiões mais seguras.

Com as crianças, Jamala atravessou a fronteira a pé. Mais tarde, foi recebida pela sua irmã, que mora em Istambul. Desde então, lê ansiosa as notícias sobre a Ucrânia no seu telemóvel. "É muito difícil quando sabes que o teu marido está lá. Não consigo dormir. A cada minuto pergunto-me como ele está", acrescenta.

Os músicos do seu grupo estão escondidos em abrigos em Kiev. "O meu técnico de som escreveu-me ontem, dizendo que não tinha água... não pode sair, é perigoso", diz. "Esta é uma guerra muito cruel, no coração da Europa. Destrói os valores da Europa que construímos desde a Segunda Guerra Mundial", atira.

"A Ucrânia é um grande país, com a sua língua, a sua própria cultura, a sua história. Não tem nada a ver com a Rússia", insiste. "Não sei o que podemos fazer (...) só sei que temos de vencer", defende.

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