Fundada por Pedro Vindeirinho, a Rastilho (mais tarde Rastilho Records) surgiu em maio de 1996, em Leiria. Nasceu “de mão em mão”, com um catálogo de distribuição em papel. “Fez distribuição [de produtos - CD's, livros] em alguns concertos da altura, onde montávamos a nossa banca, com meia dúzia de títulos que tínhamos”, recorda.

A oferta foi evoluindo. “Fiz o catálogo em papel até ao ano de 2003”, explica o fundador. O que começou como uma mera fotocópia, frente e verso, com meia dúzia de produtos, cresceu. Em 1999 surge a editora e em 2003 a primeira edição do site. A Rastilho Records nasce com a edição de "Walls of Shame", o primeiro disco de uma banda punk de Aveiro, os Intervenzione, com o grafismo a cargo de Sérgio Cardoso, baixista dos Wraygunn.

“Começámos como uma editora punk e as coisas foram evoluindo. Sem darmos conta, o catálogo foi realmente crescendo e passaram-se estes anos todos e continuamos a fazer discos”, conta Pedro Vindeirinho. De um catálogo de venda postal a uma das principais editoras independentes e uma das maiores lojas online portuguesas na venda de CD’S, vinil, livros e milhares de artigos de merchandising já lá vão quase 21 anos.

Numa altura em que não havia grande interesse por parte do público, a Rastilho Records já editava e reeditava em vinil. As reedições de fundo de catálogo da música portuguesa sempre “alimentaram” o negócio e o trabalho da editora durante um período em que não estavam a editar muitas bandas próprias, entre o ano de 2005 e 2011-12. Nessa altura conseguiram alguns licenciamentos de música portuguesa, de editoras como a Valentim de Carvalho e a Universal Music. Entre outros, reeditaram os seis primeiros discos dos Xutos e Pontapés, os quatro primeiros álbuns dos Mão Morta, os dois primeiros dos Censurados e os três primeiros dos Peste & Sida.

Conta Pedro que “houve um ano, já não sei precisar qual, se foi em 2008 ou em 2009, em que praticamente só fazíamos edições em vinil. Nunca tivemos problemas em editar em todos os formatos que existem no mercado”.

Mas há um disco que foi marcante: a edição de “Masquerade” (2006), de Legendary Tigerman. Com essa edição “começamos a perceber que podíamos editar coisas para além do punk”, recorda o editor. Quando começou a Rastilho, “era de certa forma para editar só aquilo de que gostava. Maioritariamente ouvia punk e algum metal, [mas] esse disco fez-me ver as coisas de uma forma diferente”. Agora, conta Pedro, é difícil “catalogar-nos porque nós editamos um pouco de tudo, e não há um género propriamente em que nos estejamos a especificar.”

Vinil: Moda ou culto?

“Eu quero acreditar que é mais um culto, sempre foi. Por isso é que se manteve até aos dias de hoje”, diz Pedro. “Apesar de haver jornalistas da imprensa portuguesa que ditam a morte ao formato físico, seja ele qual for”, desabafa.

É certo que em termos numéricos, se olharmos para os gráficos, o vinil e o CD não param de crescer. Mas há uma razão. “Isso explica-se porque as vendas de vinil eram extremamente residuais. Aliás, continuam a ser”, diz.

O que há, segundo o fundador da editora, é “uma redescoberta e uma maior atenção por parte do público”. Isso deve-se, em parte, ao facto de as editoras editarem cada vez mais nesse formato, tendo também as lojas cada vez mais espaço reservado para os discos de vinil. Por isso, para Pedro, “acaba por ser um pouco isso que dita esta nova tendência, que não é nova no sentido literal da palavra”.

“Durante muitos anos, talvez mais de uma década, a primeira de 2000, houve apenas meia dúzia de pessoas a fazer discos de vinil em Portugal”, as editoras mais pequenas e independentes. As majors (Universal, Warner e Sony) “nunca tiveram interesse em fazer edições próprias de vinil”, diz Pedro. “Nesta história sabes como é... o mercado dita, faz um bocado as regras”, remata.

Nos últimos anos, registou-se um maior interesse por parte das editoras em lançar neste formato no nosso país. “Nada contra, a não ser o facto dos preços estarem inflacionados, na grande maioria dos casos”, alerta o editor de Leiria. Talvez por isso, confessa que o seu receio “é que, talvez um dia, os consumidores se revoltem um pouco. No meio de toda esta febre sempre houve aqueles que compraram o vinil com a maior das naturalidades e que são um bocado apanhados no meio disto”.

Sobre o mercado, não hesita quando diz que “acaba por ser exagerada a quantidade de títulos que existem e não há forma de os escoar. Isto é um formato específico, que talvez não tenha sido concebido para ser massificado desta forma”.

“É um sinal dos tempos. Não consigo prever o que vai acontecer daqui a cinco ou dez anos, mas tenho a certeza que se cá estiver - e se continuar a ter saúde para fazer o que gosto - continuarei. Eu e mais uns quantos que sempre fizemos vinil, imunes a estas modas”. Reformula: “modas para algumas pessoas, para a grande maioria não, entenda-se”.

Digital vs. Vinil

Segundo um estudo do ano passado, relativamente ao mercado britânico, as vendas de música em vinil têm vindo a crescer nos últimos oito anos, até 2016. Pela primeira vez desde 2007 ultrapassaram os downloads nas várias plataformas digitais.

Questionado sobre se esta pode ser uma realidade no mercado português, Pedro explica que “o estudo foi usado como uma forma de justificar todas as edições e as reedições que existem neste momento”. “É verdade que as vendas estão a aumentar, mas também é verdade que estamos a vender muito menos individualmente, por cada título, porque há cada vez mais referências”, remata.

Hoje é complicado para os consumidores acompanharem os lançamentos. “Há dez ou quinze anos era fácil ao pessoal genuinamente interessado neste formato comprar todas edições de que gostava, dos artistas que gostava”, porque se editava muito pouca coisa. “Neste momento é impossível”, lamenta Pedro.

Apesar de não conseguir prever o que é que vai acontecer em Portugal, afirma que “é certo que, em termos numéricos, as vendas de vinil vão continuar a aumentar e durante alguns anos assim será”.

Relativamente ao digital, “é difícil combater, se é que alguém quer combater, esta nova forma das pessoas ouvirem e consumirem música”. Já no caso do vinil, “apesar desses profetas da desgraça que andam aí a anunciar a morte do formato físico há muitos anos, acho que vai haver sempre interesse, nem que seja pelo facto de as pessoas quererem o objeto”.

No seu entender, Portugal vai seguir a tendência que se verifica noutros mercados: “vão continuar a existir formatos físicos, apesar das vendas poderem baixar em termos totais, gross sales”. Isto pode “explicar-se por esta nova forma de ouvir música - digital -  e por uma crise económica que impossibilita as pessoas de adquirirem em formato físico”.

Record Store Day

Sobre o dia que se comemora este sábado, 22 de abril, e que tem como mote a celebração das lojas independentes que vendem em formatos físicos, Pedro faz questão de lembrar que “quem teve a ideia deste dia se calhar agora olha para trás com uma certa nostalgia”. Em causa está a “apropriação” do conceito. “Hoje em dia, desde a loja mais independente até à maior cadeia multinacional de comércio a retalho, qualquer uma delas se associa ao evento.”

No entanto, para Pedro, “aqui a culpa, se é que a podemos atribuir a alguém, não é das lojas”. Porque estas vendem os produtos que as editoras fabricam e disponibilizam.

À semelhança do que tem sido feito nos últimos quatro e cinco anos, a Rastilho Records terá algumas reedições especificamente para este dia. É o caso do primeiro álbum dos Dead Combo, “Vol.1”, e do álbum ao vivo “Live Hot Clube”, da banda de Tó Trips e Pedro Gonçalves. De referir ainda a reedição do álbum de estreia dos A Jigsaw, “Letters from the Boatman”, uma banda de Coimbra que também faz este ano 10 anos. E, também, o 7'' de “Budapeste”, dos Mão Morta. Estas são as quatro reedições da Rastilho Records que estarão à venda este sábado na FNAC, e em lojas independentes como a Louie Louie, a Lucky Lux e a Flur. “Será assim que vamos celebrar, com boa música e com bons discos”, conclui Pedro.

E o futuro do vinil?

O vinil “é um formato que veio para ficar”. No entanto, “é preciso desmistificar um pouco quando se diz que o vinil voltou. O vinil sempre esteve no meio de nós. As pessoas é que agora, provavelmente, começaram a dar-lhe mais atenção”, realça.

Apesar de não conseguir antever o futuro, Pedro tem a certeza de que se vão continuar a editar discos em vinil, e que caberá ao consumidor separar o que realmente é importante. “Mais do que nos estarmos a lamentar, é preciso tentar perceber o fenómeno, tentar adaptarmo-nos a ele, continuar a oferecer um bom produto, desde o artwork, às embalagens ou até às edições coloridas dos discos”.

Uma coisa é certa: o vinil “vai continuar por cá, durante muitas e muitas décadas”.

Fotografia: Ricardo Graça

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