As drogas salvaram James Murphy. Não somos nós que o dizemos, mas ele próprio, em “Meet Me in the Bathroom”, coletânea de entrevistas feitas pela jornalista Lizzy Goodman e que levanta o véu sobre os bastidores da cena nova-iorquina do início do milénio, de onde saíram bandas como os Strokes, os Rapture ou os LCD Soundsystem. Bastou uma pastilha de Ecstasy, conta ele, para que toda a sua vida se alterasse; deixou de se importar com o que as pessoas diziam sobre ele, deixou de ter vergonha de dançar e – mais importante ainda – ganhou a confiança necessária para deixar de ser um “mero” DJ e passar a controlar o leme de uma das bandas que marcaram o indie da década dos zeros, talvez a mais importante a par dos Arcade Fire.

Como aconteceu com inúmeras bandas ao longo da história do rock, as drogas foram o catalisador para coisas bonitas, impressionantes, para canções entoadas por uma geração alternativa que ainda está a tentar perceber aquilo que lhes aconteceu, desde o 11 de setembro às guerras no Afeganistão e no Iraque, passando pela crise financeira e chegando até à eleição de Trump. Sim, isto está tudo ligado. Só poderia estar, porque só assim se explica “American Dream”, álbum editado no ano passado pelos LCD Soundsystem já depois de um hiato de cinco anos, um hiato durante o qual se acreditou que nunca mais regressariam; afinal de contas, Murphy não é propriamente novo (tem hoje 48 anos, mais 17 que os que tinha quando começou o projeto), e a banda havia dado uma enormíssima festa de despedida no Madison Square Garden, na “sua” Nova Iorque, em 2011.

Essa festa, confessou depois, serviu sobretudo para vender bilhetes. Cínico, dirão alguns. Terão razão. Quando os LCD Soundsystem regressaram ao ativo, em 2015 e em plena véspera de Natal, a alegria de uns contrastava com o choque de outros. Esta banda, que acima de tudo havia sempre soado verdadeira, com tudo o que a palavra implicará alegoricamente, cedia às pressões do grande capital, deixava de ser “alternativa” para passar a ser outra coisa, mais conotada com as ex-grandes e idosas estrelas do rock n' roll que voltam à estrada para juntar mais algum pilim à sua reforma. Murphy acabaria por fazer um mea culpa e deixar a promessa: este regresso dos LCD Soundsystem teria que valer a pena, teria de elevar o coração das pessoas da mesma forma que “Sound Of Silver” (um daqueles álbuns para a vida) o fez em 2007.

A julgar por “American Dream”, um dos melhores álbuns editados em 2017 e que mostra uma banda, não a tentar provar algo, mas a consagrar aquilo que era já a sua história, Murphy e seus colegas conseguiram-no. Encontramo-los ao vivo em Lisboa, naquele que foi o seu regresso a Portugal e o primeiro de três concertos praticamente esgotados no Coliseu dos Recreios, e confirmamos essa mesma opinião. Confirmamo-la nós e confirmam-na os miúdos com t-shirts dos Smiths que pedem cigarros a estranhos, confirmam-na as crianças que na fila da frente saíram com um sorriso do tamanho do mundo depois de receberem um par de baquetas e um cobiçado papel com o alinhamento do concerto, confirmam-na os dançarinos com ar profissional que deram um espetáculo dentro do espetáculo nas bancadas, confirmam-na os muitos casais, os muitos resistentes da década dos zeros, confirmam-na os novos fãs que vieram sobretudo por este último álbum.

Se em disco os LCD Soundsystem são um incêndio que dança até se apagar, ao vivo são um verdadeiro vulcão em erupção. Emanam um calor quase tão vivo como aquele que se fez sentir no Coliseu após mais um dia de sol e temperaturas elevadas. O público fez por isso. Meia hora antes, ainda com o irlandês Shit Robot a tomar conta dos pratos e da pista de dança (para alguns, uma forma de aquecer ainda mais, para outros, um tédio absoluto), já nem uma agulha cabia por entre a plateia. Havia uma energia quase palpável a pairar sobre as cabeças de todos. E eis que a sala explode: com a entrada da banda e com os primeiros rasgos de "Get Innocuous!", tema que bebe dos Kraftwerk e que vem acompanhada, no seu refrão, por uma vaga de luz disco que ilumina a muita maquinaria presente em palco, de teclados a sintetizadores antigos, de xilofones a cowbells ao microfone de Murphy, tudo tocado e usado de forma exímia – mesmo que haja um pequeno problema técnico antes de "I Can Change", prontamente resolvido e desculpado.

Antes, "You Wanted A Hit" (canção autodepreciativa cantada por uma banda que nunca teve, grosso modo, qualquer grande êxito) e 'Tribulations' fizeram o público corresponder com saltos, braços no ar, gargantas apontando ao horizonte; depois, "Call the Police" e "Yr City's a Sucker" sossegaram ligeiramente os ânimos. Um sossego indispensável, antes que tudo transborde e se transforme em motim; não quereríamos atropelos num concerto onde a concentração impera, onde a velha máxima das raves se junta à de Aleister Crowley: dança o que quiseres será o todo da lei.

Até ao final, uma semi-surpresa: "Daft Punk Is Playing At My House" (o meta-humor está muito presente nos LCD Soundsystem), que não vinha sendo tocada em concertos anteriores, a delicadeza de "Someone Great" e ainda uma versão dos Chic, "I Want Your Love", cantada pela teclista Nancy Whang – e com uma voz de fazer corar muito pseudo-cantor soul. Tudo isto desaguando em "How Do You Sleep?", o revenge porn tornado canção; este tema, retirado a “American Dream”, é no fundo uma sucessão de bocas e acusações a Tim Goldsworthy, antigo parceiro de James Murphy na editora DFA e com o qual cortou relações, e que referencia tanto John Lennon (o antigo Beatle escreveu uma canção com o mesmo título e temática, dirigida a Paul McCartney, em 1971) como os Gang of Four (com o refrão militar a ser repescado a "At Home He's a Tourist": one step forward, six steps back...).

No fundo, os LCD Soundsystem são uma banda para quem gosta de bandas. Expliquemos: há tantas referências nas suas letras e na sua própria música que só mesmo os minimamente conhecedores entre os melómanos conseguirão apreciar, rir até, de tudo aquilo que a banda oferece. Os outros, poderão simplesmente dançar a sua dor. Diz Murphy, a dada altura, que as canções dos LCD são tristes apesar de festivas, por entre elogios a Lisboa, factos aleatórios – sabiam que é esta cidade a que tem mais fãs nossos per capita? – e declarações de amor-ódio em relação aos pastéis de nata, que aparentemente lhe deram a volta ao estômago. Tristes, festivas e a forma ideal, portanto, de afastar quaisquer nuvens negras que passem pelas nossas cabeças. Tudo com a ajuda dos nossos amigos e das canções que nos fizeram conhecer os nossos amigos ou amar ainda mais os nossos amigos, como a apropriadamente intitulada "All My Friends", a mais popular das canções dos LCD Soundsystem e aquela que praticamente todos sabem de cor e salteado – e a que fechou um fenomenal concerto com chave de ouro. Onde estão, afinal, os nossos amigos? É fácil: estão ali, na plateia, estão ali, em palco, e estão aqui dentro, no coração. Não poderíamos pedir muito mais.

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