A entrega de Ioan Gruffudd ao papel de Dr. Harrow (na série a que dá nome e que estreia dia 10 de setembro, às 22h30, no AXN) faz com que o espectador não se ria dele, mas que também não o leve muito a sério. A caracterização inicial do protagonista vai evoluindo de uma figura pouco dada ao trabalho que vê clássicos de cinema em horário de expediente para um workaholic cuja devoção ao trabalho lhe custou o casamento e até o seu relacionamento com a filha adolescente.

Daniel Harrow, interpretado pelo ator galês, é um patologista forense no Instituto de Medicina Forense de Queensland, em Brisbane, na Austrália. A sua personalidade é vincada por duas particularidades que não se sobrepõem necessariamente uma à outra, mas que ainda assim andam de mãos dadas: o despeito pela autoridade e a dificuldade em manter relações pessoais.

Harrow verga as regras como quer para atingir os seus fins. É aquilo que na língua inglesa se cataloga de maverick: um dissidente, um rebelde, um inconformado. Todavia, é um patologista forense que resolve os casos que outros não conseguem.

Patologista forense: estudar os mortos em nome da justiça

Primeiro, importa explicar que a patologia é uma especialidade dentro da medicina que estuda e faz o diagnóstico de doenças. Num vídeo disponível na plataforma Design The Future, o Dr. João Pinheiro, médico especialista em Medicina Legal e patologista forense, explica que "basicamente, um patologista forense faz autópsias, normalmente nesta área da Medicina Legal. São autópsias forenses, isto é, que interessam à administração da justiça. Mas, o grosso do nosso trabalho, é a morte violenta. Portanto, a morte violenta é, de facto, aquilo que o patologista mais faz e aquilo que o patologista mais gosta. Dentro da morte violenta naturalmente, os homicídios. Portanto, é o leitmotive desta profissão. Também fazemos suicídios... Às vezes até é difícil dizer se é um homicídio, um suicídio ou um acidente. Portanto, já estamos a falar das três etimologias possíveis da morte violenta”, revela.

Assim, a Patologia Forense (PF), a profissão do Dr. Harrow, é a área da Medicina Legal que estuda “a causa da morte de uma pessoa”, sendo precisamente neste processo que se estende para a área forense, “podendo por isso ser considerada como uma competência ou uma subespecialidade da primeira”, conforme explica o Dr. José Pinto da Costa, Médico legal, no seu livro "Curso Básico de Medicina Legal" (2009).

Para conseguir descortinar tudo isto, o profissional em causa, tem de estar dotado de várias particularidades. “O patologista forense tem de possuir conhecimentos de várias áreas para além da Medicina, como a balística, toxicologia, biologia, nela incluída questões de ADN, psicologia, entre outras”, refere ainda o mesmo livro. E tal acontece porque é ao patologista que vai ser pedida a “identificação e reconhecimento da vítima e das circunstâncias da sua morte”, visto que situações de homicídios, suicídios, acidentes, mortes (suspeitas, súbitas ou inesperadas) serão verificadas por si.

“Eu costumo dizer que os cadáveres falam. Falam e são muito eloquentes às vezes. Nós temos é que saber a linguagem que eles falam. Já depois então de termos estas informações, vamos começar a fazer a nossa autópsia" que "começa pela roupa — ou não, caso o cadáver venha despido. A roupa diz-nos logo coisas. A roupa, o desalinho do cabelo, sinais particulares, por aí fora. Depois, vamos fazer o exame do ato externo — ver o corpo por fora”, sugere ainda o Dr. João Pinheiro, antes de destacar a importância do relatório.

“Um relatório é tão importante quanto a autópsia. As qualidades mais pessoais: perseverança, método, atenção ao detalhe. A medicina é um curso árduo, um curso que exige estudo, muito estudo, muito trabalho e também investigação permanente. E depois há um extra que é essencial: gostar do que faz. É estar apaixonado por aquilo que se faz. E quando assim tudo flui, tudo é bonito”, indica.

A área de atuação de um patologista forense passa essencialmente, embora não exclusivamente, pelos gabinetes Médico-Legais e Forenses. Todavia, é um elemento da equipa forense que por norma é chamado para atuar como perito em tribunal e testemunhar em processos civis ou criminais.

Porém, é natural que surjam algumas dúvidas quanto à terminologia. Médico, patologista, médico legal, patologista forense… Afinal, qual é o quadro em que tudo isto se insere?

A Medicina Legal (ou Forense) e as Ciências Forenses em Portugal

Em Portugal, a “Medicina Legal” constituiu uma especialidade médica reconhecida pela Ordem dos Médicos. A medicina forense não tem o papel tradicional da Medicina, ou seja, em prestar cuidados de saúde. De forma muito simplista, a medicina legal é uma atividade sobretudo informativa que é exercida por médicos e onde são abordados problemas de Medicina em relação ao Direito. Isto é, são estes profissionais que vão esclarecer aos juristas o ponto de vista da medicina nas questões médicas de um caso em investigação.

No entanto, em "O que são as Ciências Forenses — Conceitos, Abrangências e Perspetivas Futuras" (PACTOR, 2016), os autores Dra. Teresa Magalhães e Ricardo Jorge Dinis-Oliveira, consideram que há uma confusão generalizada relativamente aos termos Medicina Forense, Medicina Legal e Patologia Forense que necessita de clarificação.

Explica a autora que a designação de Medicina Forense, também identificada por vezes por Medicina Legal, é por vezes utilizada “para referir apenas (...) questões de Patologia Forense”; isto é, serve para abordar unicamente matérias relacionadas com o estudo post mortem (após a morte), não sendo tal afirmação necessariamente verdade. Na verdade, "a Medicina Forense é a ciência à qual compete a aplicação dos conhecimentos e metodologias médicas à resolução de Direito", explicam os autores do livro.

Assim, a Clínica Médico-Forense, vulgarmente designada em Portugal por Clínica Médico-Legal, “é a área da Medicina Forense na qual o objeto da intervenção é indiscutivelmente a ‘pessoa’", referem.

Um português já ganhou a maior distinção das ciências forenses

Em 2014, o professor catedrático Dr. Duarte Nuno Vieira, ex-presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal, foi distinguido com o prémio mundial Douglas Lucas Medal.

Trata-se da "mais alta distinção" no domínio das ciências forenses, segundo uma nota da Reitoria da Universidade de Coimbra, publicada na ocasião.

Criado em 1999 pela Academia Americana de Ciências Forenses, o Prémio Douglas Lucas Medal é atribuído, de três em três anos, "a um especialista forense que se tenha destacado particularmente pela contribuição dada para o desenvolvimento das ciências forenses a nível internacional", adianta a mesma nota.

Na sua decisão, aprovada por unanimidade, o júri realçou que Dr. Duarte Nuno Vieira desempenhou um "valioso trabalho" em "diversos domínios das ciências forenses – e muito particularmente no âmbito da patologia e clínica forense – especialmente na defesa dos direitos humanos, bem como na organização de serviços médico-legais e forenses em vários países do mundo, e o forte impacto que o trabalho que concretizou até hoje teve na comunidade forense internacional".

Entre os galardoados com o Prémio Douglas Lucas Medal, contam-se o britânico Alec Jeffreys (que descobriu a utilização do ADN para fins forenses), o norte-americano Clyde Snow (criador da antropologia forense e da sua aplicação aos direitos humanos) e o suíço Pierre Margot (considerado "a maior autoridade mundial no domínio da criminologia").

A sensibilidade da personagem em Harrow

Gruffudd explica Harrow é uma “personagem brilhante tridimensional”. O ator galês revelou ao Deadline aquilo que a sua personagem tem de cativante e de especial.

“O anti-herói agora é atrativo, o que é formidável para um ator que está envelhecer porque não estão à procura de um personagem principal novo. Tem elementos de House, um pouco de mau-feitio, e tem um pouco de Castle”, disse.

O primeiro episódio de Harrow é assinado por Kate Dennis, que já realizou séries como  “GLOW”, "Handmaid’s Tale", "The Mindy Project" ou "Suits". Semana após semana, Daniel Harrow vai deslindar casos que são incrivelmente fascinantes para ele, mas emocionalmente sensíveis para aqueles que o rodeiam. Todavia, ainda que assim seja, há um segredo terrível, escondido nos recônditos do seu passado, que ameaça tudo aquilo que lhe é querido: a família, a carreira e ele próprio. Harrow, mais do que nunca, vai precisar de toda a sua astúcia, perspicácia e genialidade forense. Porque o que está em jogo não passa por resolver um crime, mas sim fazer tudo ao seu alcança para que outro permaneça enterrado.


Harrow estreia dia 10 de setembro, às 22h30, no AXN.

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