Saudade, saudade, o título em galego que irá à Eurovisão” – assim começava um artigo do Nós Diário, jornal com sede em Santiago de Compostela, a 13 de março, após o último RTP Festival da Canção. A palavra repetida, que é sempre reivindicada como exclusividade do português mas também existe na língua dos vizinhos do Norte, encabeçava a notícia depois de semanas de discussão pública. O motivo? A música escolhida para representar Espanha na Eurovisão. 

Uma votação polémica no concurso televisivo, apelidado de Beniform Fest na versão espanhola, jorrou dos ecrãs e inundou as redes sociais, tanto as digitais como as formadas em cafés, locais de trabalho, salas de aula ou almoços familiares. A pandemia estava a acalmar, a guerra ainda não tinha estalado e uma questão monopolizou as conversas, viralizou, foi trending topic e muito mais do que isso: como é que as Tanxugueiras não ganharam?

A banda formada por Aida Tarrío e as irmãs Olaia e Sabela Maneiro – que junta a música tradicional galega a sonoridades da eletrónica, do trap e até do pop-rock – vivia um momento de aclamação geral. Uma sondagem publicada na véspera do evento pelo portal especializado Eurovision World, que reuniu mais de 30 mil respostas de eurofans, previa a vitória do trio, com 41% das escolhas (o segundo ficava-se pelos 18%). E, tal como o flamenco tem corrido mundo nas fórmulas urbanizadas de Rosalía ou C. Tangana, muitos pensavam que uma aposta baseada noutro género tradicional espanhol pudesse ser bem recebida. Salvador Sobral, convidado para atuar na gala, demonstrou a sua preferência ao sair do palco: “Estou com as galegas. Viva as galegas!”. O apoio chegava de muitas latitudes, mas na Galiza criou uma unanimidade pouco habitual e sentou em frente à televisão muita gente que nunca quis saber do festival.  “Ver todo o mundo unido por uma vez emocionou-nos muito”, recorda hoje a banda. 

Entre os oito finalistas, as Tanxugueiras obtiveram 71% dos votos dos telespectadores. Só que esses pesavam apenas 25% na decisão final. Havia que somar-lhes os resultados de entrevistas telefónicas aleatórias (outros 25%) e ainda as escolhas de um júri da Rádio Televisão Espanhola (50%), que não lhes deu mais do que o quinto lugar, relegando-as para terceiras na classificação final. Na primeira posição, os especialistas colocaram a cantora e bailarina hispano-cubana Chanel, com um estilo próximo de Beyoncé ou Jennifer Lopez, que nem tinha chegado aos 4% na escolha popular. A decisão tornou-se então num caldo, não o da iguaria galega com esse nome, mas o da polémica.

Votação final (direita) e votação do televoto (esquerda) | DR

À indignação anónima na Internet somou-se a estupefação de várias figuras públicas, sobretudo na Galiza, mas também noutras regiões de Espanha. “Foi um momento bastante estranho, não estávamos habituadas a estar nas bocas de toda a gente”, relembram as Tanxugueiras. O júri da RTVE foi acusado de manipular o resultado para favorecer interesses do mercado. Por exemplo, o citado jornal Nós Diário – que se apresenta como “meio de comunicação de interesses galegos” e segue a corrente reintegracionista (movimento social que defende a reintegração da língua galega no âmbito linguístico do português) –, destacou que “a candidatura de Chanel estava promovida pela grande produtora norte-americana BMG”. Um dos proprietários dessa discográfica, Keith Harris, nome grande na indústria, foi mesmo um dos autores da letra de "SloMo", o tema ganhador. Mais tarde, soube-se também que entre os cinco jurados havia uma antiga colega de trabalho da vencedora. 

O Nós Díario especulava, ainda, outra razão de fundo para a escolha: a discriminação que o Estado espanhol faz das suas línguas cooficiais. Muitos se uniram ao argumento, defendendo que a música das Tanxugueiras teria sido rejeitada por ser cantada em galego (a de Chanel mistura castelhano e inglês). A Mesa, organização que luta pela galeguização da vida pública e pela normalização da língua galega, chegou a convocar concentrações em seis cidades da região autónoma para protestar contra o que consideravam ser “mais uma amostra do desprezo da RTVE” pelo idioma. “Queremos galego na televisão que pagamos”, afirmava à imprensa o presidente da associação. Marcos Maceira referia que apenas “0,5% dos conteúdos diários” da estação estatal são produzidos nessa língua e que na programação infanto-juvenil a percentagem é mesmo de zero. 

Depois dos ecrãs e das ruas, a assembleia. As divergências entre os votos do público e do júri fizeram o Bloco Nacionalista Galego e a coligação Galiza em Comum (integrada no Unidas Podemos) levar o tema ao parlamento nacional. Pediam ao Conselho da RTVE que explicasse os critérios para a seleção dos jurados e demonstrasse o cumprimento dos regulamentos. As exigências surgiam numa altura em que muito se discutia em Espanha sobre a nova lei geral para a comunicação audiovisual. Dias antes, o Parlamento Regional da Galiza, em unanimidade e em colaboração com a associação Mesa, tinha pedido ao governo central mais legislação para proteger o galego. E também outras nacionalidades históricas, com língua própria no país, estavam involucradas no tema. Por exemplo, o Esquerda Republicana da Catalunha, partido independentista integrante da maioria parlamentar que possibilitou a investidura de Pedro Sánchez, exigiu como contrapartida desse apoio ao governo uma série de medidas de promoção do catalão.

Uma questão de número, de grau e também de género

Tanxugueira é um topónimo que resultou da alteração de Teixugueira, vocábulo que designa as terras galegas onde existe ou abunda o teixugo [texugo]. A banda tornou o termo tão popular que, mesmo sem constar nos dicionários, foi eleito pela Real Academia Galega como “Palavra do Ano” em 2021, à frente de outros ligados à pandemia, como resiliencia, vacinódromo ou gromo [surto]. O reconhecimento evidencia como as Tanxugueiras se haviam tornado um ícone de popularidade na região bem antes do festival e ajuda a explicar em parte as reações à sua derrota.

Aida Tarrío (24 anos), Olaia e Sabela Maneiro (31) cresceram no seio do folclore galego – o alalá e a muinheira –, em que tradicionalmente as mulheres usam a voz e a pandeireta enquanto os homens tocam gaita-de-foles. Tal como os companheiros de infância, aprenderam a tocar o seu instrumento desde os quatro anos, em escolas e associações recreativas. Tanto tempo depois, o resultado conseguido no concurso foi gratificante: “conseguir que as pessoas se sentissem orgulhosas da sua cultura e da sua língua foi muito forte, um presente enorme para nós”. As três pandeireteiras reivindicam com orgulho as origens, mas são vistas como o expoente de uma geração aberta à inovação do estilo. “Cremos que há espaço para todas as músicas, as mais afincadas à tradição pura e as que queiram evolucionar”.  E nesse processo de revolução coletiva, o carácter feminino da banda não é um pormenor. 

créditos: RTVE

Nas inúmeras entrevistas relacionadas com o festival, apresentaram-se como “mulheres fortes, valentes e empoderadas, cantoras de uma nova década”. A letra de "Terra", tema que levaram ao concurso, traduz esse posicionamento político: “Para cantar venho eu / Com a pandeireta na mão/ Aturuxa [modo de gritar típico do folk galego] aquando a mim / Que nos escutem berrar”. Afirmaram ter-se inspirado nas avós que mantiveram vivo este estilo e dedicaram a canção a todas as anónimas que fizeram poesia e música, “muitas delas sem saber ler e escrever". Há aqui defesa de classe, sororidade inter-geracional (“Canta tu, cantarei eu / Com o jeito das nossas mães / Festejaremos a vida) e ainda uma ideia de união entre as várias nações que compõem Espanha: cada refrão termina com o verso “não há fronteiras”, cantado em galego, basco, catalão, castelhano e até em asturiano.

Como consequência, têm sido recebidas calorosamente pelos públicos das comunidades autónomas espanholas onde há um idioma próprio. “Entendem o que é ter uma língua e uma cultura diferente e estão na luta para que se lhes deem os direitos que merecem, tal como nós, e isso cria um vínculo muito bonito”. Esta reflexão sobre a unidade foi destacada, entre outros, por Yolanda Díaz, Ministra do Trabalho e Economia Social e segunda vice-presidente do governo, também ela galega, que se declarou “especialmente identificada” com as palavras de "Terra". As Tanxugueiras quiseram destacar uma das partes que formam o todo. É que na sua região, apesar de o movimento independentista não ter tanta representação como na Catalunha ou no País Basco, não deixa de haver um forte patriotismo a nível cultural. Um “orgulho do povo, que todos temos por pertencer à Galiza”, resumem as artistas. E ao valorizarem o berço reivindicam também a ruralidade, outro tema forte na atualidade do país: “Somos da aldeia e a nossa música nasce do rural. Nas cidades antigamente tocava-se piano e era nas aldeias onde se tocava a pandeireta e se fazia música popular”. 

“Estas raparigas estão a revolucionar tudo”, continuou Yolanda Díaz. Militante do Partido Comunista de Espanha, membro da coligação Unidas Podemos e, segundo os últimos barómetros especializados, a política mais bem valorada pelos espanhóis neste momento, Díaz é figura de proa de uma nova geração de mulheres de esquerda em posições de poder no país. A veia feminista da banda fá-la sorrir: “entrego-me às Tanxugueiras”, disse numa entrevista a uma rádio. 

As questões ligadas à igualdade de género ocupam um espaço determinante em todo o espectro político espanhol, não só entre forças progressistas. A pujante capacidade mobilizadora de vários grupos e associações cívicas tem levado a reboque os partidos, mesmo os conservadores. E, embora também em Espanha o feminismo tenha sido apropriado pelo mercado e transformado em múltiplos objetos de consumo, tem um robusto trabalho de base como motor. Num país em permanente confronto – pelo rumo ideológico, pelo sistema político, pela memória, pelo território –, o feminismo talvez seja hoje o movimento social mais transversal. 

Há anos que a violência doméstica em Espanha é designada de violência machista, pois a quase totalidade dos seus perpetradores são homens. Cada feminicídio (em 2021 foram 43) tem repercussão mediática, tal como alguns episódios de abusos sexuais – o caso da “Manada”, grupo de cinco homens que em 2016 violou uma jovem nas festas de Pamplona, levou milhares de pessoas a manifestar-se em cidades de todo o país contra a sentença, o patriarcado e a falta de igualdade. A violência obstetrícia, o direito à baixa laboral por menstruação dolorosa ou a exploração de mulheres pobres para barrigas de aluguer são temas na ordem do dia. Não espanta, portanto, que a discussão sobre o papel social da mulher chegasse à Eurovisão.

As gargantas e os peitos libertadores contra as ancas que enlouquecem

A canção das Tanxugueiras e a de Chanel eram dois mundos em oposição: produção independente versus indústria mainstream, multiculturalismo versus globalização uniformizadora, feminismo versus erotização musical. Enquanto as galegas exultavam as “bravas gargantas” que vinham “para ficar”, Chanel cantava que o seu problema era “deixar louquinhos todos os daddies” e que estava sempre pronta para “quebrar a anca” e os corações. “Gostas de tudo o que eu tenho”, dizia entre movimentos sensuais próprios da pop latina e do reggaeton. Acompanhada por bailarinos atléticos, falava de um “traseiro hipnótico” que faria “querer mais, mais, mais” quem o visse. 

O registo contrastava com o de "Terra" e também com o de "Ay Mamá", canção de Rigoberta Bandini (alter ego da catalã Paula Ribó), que era a outra favorita do certame e ficou na segunda posição, tanto nos votos do júri como nos do público (18%). A sua atuação tem já perto das oito milhões de visualizações no YouTube e tornou-se, desde então, num hino feminista em Espanha. O tema incita todas as mães a parar a cidade “tirando um peito de fora ao estilo Delacroix” (uma alusão à figura feminina de busto descoberto que simboliza a Liberdade na famosa obra do pintor francês). “Não sei porque dão tanto medo as nossas mamas”, diz a autora na letra, já que “sem elas não haveria Humanidade nem Beleza”. 

Num talk show gravado após a polémica, Chanel defendeu que a sua era uma “canção para se desfrutar”, que tinha “uma letra divertida que te faz sentir segura de ti própria”. E falou sobre as reações.  “Quando estava no palco apercebi-me que havia uma energia muito estranha e ao chegar ao hotel disseram-me para não ver as redes sociais”. Viu e pouco depois teve de suspender as suas páginas, “para preservar a saúde mental”. Diz ter sofrido um forte assédio, até ataques racistas e ameaças, a mais grave a de alguém que prometia ir atrás dela até à final da Eurovisão “com uma metralhadora”. Esteve alguns dias sem sair de casa depois do concurso, com receio. 

Face ao sucedido, foi reconfortada publicamente pelos restantes concorrentes, incluindo as galegas. “É uma grande artista, uma grande profissional, o seu espetáculo tem muito trabalho por detrás e aqui tem as Tanxugueiras ao seu lado, vamos apoiá-la até à morte”. Dias mais tarde, convidado a opinar sobre a letra da canção vencedora, o trio respondeu que era “um a música muito poderosa” e que Chanel era “uma animal de palco”. Defenderam que as críticas não deviam ser dirigidas a uma “intérprete a fazer o seu trabalho”. “Goste-se mais ou menos da letra, que pode ser que gere controvérsia, Chanel é uma mera executante de um produto”. A polémica reacendeu-se, estendeu-se por semanas e o resultado tardou em ser aceite por muitos. Segundo o jornal Nós Diário, houve até pedidos de fãs para que as Tanxugueiras participassem no Festival da Canção português, tentando por essa via chegar à Eurovisão, mas isso já não era possível.

Sem representação própria, muitos galegos amantes do concurso viraram a atenção para o outro lado da fronteira. A Televisão da Galiza, que nos últimos anos tem coproduzido vários conteúdos com a RTP (como "Auga Seca"), transmitiu em direto as meias-finais e a final do festival luso (com comentários de Esther Estévez e do português Rodrigo Paganelli, conhecidos pelo programa Dígochoeu, dedicado à língua galega). A estação realizou até uma votação própria entre os seus espectadores, em que “Saudade, Saudade”, de Maro, ficou em segundo lugar, atrás do tema da dupla Pongo & Tristany. 

Nas redes sociais, vários utilizadores assumiram estar a torcer por Portugal no concurso europeu e elogiaram a canção escolhida. “Em termos linguísticos, representa-nos mais, aos galegofalantes, que a da RTVE”, dizia um deles. Quanto às Tanxugueiras, que se assumem “muito identificadas com Portugal”, onde se “sentem em casa”, “o capítulo do Benidorm Fest já está fechado”, depois de tanta repercussão. Enquanto tentam responder a todas as solicitações e vão acumulando prémios, estão agora a terminar o seu terceiro disco, que incluirá a música "Terra".

A grande final do 66.º Festival Eurovisão da Canção é já este sábado e terá transmissão na RTP1, pelas 20h00.

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