Não é preciso ser-se um consumidor ávido de ficção televisiva para se saber que um dos seus grandes pilares é a série policial. O crime, esteja ele plasmado nas páginas de um jornal ou representado na película de um filme, sempre cativou a atenção do público e fez disparar o batimento cardíaco e a imaginação de muitos. Há algo de genuinamente intrigante em ver os protagonistas investigar provas e formular teorias, de excitante em testemunhar a perseguição dos suspeitos e de gratificante em ver mais um caso ser resolvido.

No entanto, por mais séries que nos transmitam a ideia de que as autoridades são infalíveis na luta contra o crime, independentemente dos obstáculos que enfrentem ou dos métodos que apliquem, há outras tantas que nos mostram como a polícia sozinha não consegue dar conta do recado. Seja por descrença no crachá, por uma ânsia em elevar a figura do comum mortal à de herói ou por uma combinação das duas hipóteses, a verdade é que a ficção também tem um longo historial de aventuras onde são os civis a fazer o trabalho de polícia melhor do que a própria polícia: os consultores policiais.

Se os especialistas mais ortodoxos não estiverem disponíveis, as autoridades na televisão também não se coíbem de trabalhar com criminosos, se forem bem controlados. Disso são exemplos Neal Caffrey (“White Collar”), ex-ladrão e burlão que assina um acordo com o FBI em que tem de colaborar com essa força de polícia para resolver crimes de colarinho branco em troca da sua liberdade, ou Raymond "Red" Reddington (“The Blacklist”), um ex-oficial do serviço de informações da Marinha norte-americana que se tornou num dos fugitivos mais perigosos do mundo e que se rende para ajudar o FBI a apanhar os criminosos com que colaborou durante 20 anos, na condição de obter imunidade.

Outros exemplos de consultores policiais que têm surgido na televisão vêm de diversos quadrantes: em “Grantchester”, o vigário Sidney Chambers trabalha com o Inspetor Geordie Keating para resolver crimes no plácido meio rural inglês, ao passo que em “Jonathan Creek” é um assistente de mágico com o mesmo nome da série que passa a ser um consultor de polícia dada a sua aptidão para explicar crimes que pareciam ser de natureza sobrenatural devido à sua experiência com ilusionismo. Há mesmo quem acabe a auxiliar a polícia pela força do seu simples talento criativo. Richard Castle (“Castle”), um popular escritor de policiais e histórias de mistério, vê-se a passar do mundo da ficção para o da realidade quando o departamento de polícia de Nova Iorque requer a sua ajuda para apanhar um assassino que se inspirou nos seus livros. A partir daí, Castle utiliza a sua influência para continuar a colaborar com a polícia usando as investigações como pretexto para se inspirar em futuras histórias.

É na senda destes exemplos menos preocupados com a seriedade soturna do policial clássico e mais centrados em brincar com as convenções do género que chega “Carter”. A premissa é de que o ator Harley Carter, apesar do sucesso da sua série de detetives, sofre um esgotamento – proporcionado por festas, 16 horas de trabalho por dia e a traição da sua mulher supermodelo com um dos seus colegas na série – e isso leva-o a abandonar Hollywood e voltar para a sua pitoresca e costeira cidade natal no Canadá.

No seu regresso, descobre que os seus conterrâneos já não conseguem separá-lo da sua persona televisiva, inclusive o presidente da câmara, e Carter aproveitará isso para se aliar aos seus amigos de infância, uma polícia e um trabalhador de uma bomba de serviço, para resolver crimes verdadeiros. Todavia, a narrativa de Carter, apesar de bem humorada e ligeira, tem um fundo trágico. A personagem principal sente-se impelida a resolver casos não apenas porque sabe fingi-lo bem, mas porque há um arqui-mistério a ensombrar a sua vida – o desaparecimento da sua mãe, 25 anos antes.

Este é o cenário para uma série policial de cariz mais ligeiro, tendo em Carter um consultor policial pouco usual, pois, tendo representado um polícia na televisão, pensa que isso se aplica ao “mundo real”. Por exemplo, ao abordar cenas do crime, diz coisas como “se olharmos para esta cena como se fosse o meu programa de TV, talvez consigamos solucioná-la”. O seu otimismo é recebido com ceticismo, suspiros e rolares de olhos para trás, mas terá ele razão? Resta saber se sim.


Carter estreia dia 5 de setembro, às 22h30, no AXN.

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