Prefácio

Não tenho bem a certeza de quando comecei a escrever a série de ensaios reunidos neste volume, mas creio que foi por volta de 2010.

Importa mencionar que este livro foi publicado no Japão em 2015. Portanto, decorreram sete anos entre a referida data e a presente tradução inglesa de 2022. Gostaria que tivessem isso em mente. Durante esse período, deparámo-nos com acontecimentos cruciais, incluindo a pandemia provocada pelo coronavírus, assim como as guerras desencadeadas por esse mundo fora. Tais circunstâncias obrigaram-nos a mudanças significativas na forma de viver. Estes ensaios, porém, não as refletem, tão-pouco as que experimentei.

Trata-se apenas dos meus pensamentos e sentimentos registados em 2015.

Vem de longe a vontade de querer dizer alguma coisa sobre o processo de escrita e o facto de ser romancista há tanto tempo; por isso, entre trabalhos, comecei aos poucos a anotar os meus pensamentos, organizando-os por tópicos.

João Pedro Vala junta-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 21 de março, uma quinta-feira, pelas 21h00. Consigo traz "Campo Pequeno", o seu último livro, editado pela Quetzal.

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Quero com isto dizer que não redigi estes ensaios a pedido do editor, mas, sim, por iniciativa própria, algo que escrevi para meu benefício.

Elaborei os primeiros capítulos no meu estilo habitual – como estou a escrever aqui –, contudo, quando os reli, a fluência da escrita pareceu-me rígida e um tanto estridente, e não me caiu bem. Por conseguinte, tentei escrever como se estivesse a dirigir-me às pessoas, e isso permitiu-me escrever (falar) com maior fluidez e honestidade. Decidi então dar à coisa a consistência de um discurso. Imaginei-me a discursar numa pequena sala, para aí com trinta ou quarenta pessoas, e reformulei os ensaios num tom mais intimista, precisamente o que se esperaria num cenário desse género. Isto apesar de nunca ter tido oportunidade de ler os referidos textos em frente de alguém.

Porquê? Primeiro, porque me sinto um pouco constrangido, de uma forma direta e assumida, por escrever acerca da minha pessoa e do processo ao qual recorro para escrever romances. Alimento um forte desejo de tentar não explicar os meus romances aos outros. Falar acerca do meu trabalho soa-me sempre de modo um tanto apologético, ou presunçoso, ou como se estivesse a procurar justificar-me.

Mesmo que não seja minha intenção adotar esse tom, é a impressão que fica.

Bem, um dia destes terei decerto oportunidade de abordar o tema em público, mas, por enquanto, ainda é um bocado cedo. Talvez quando for mais velho. Imbuído deste estado de espírito, atirei as páginas escritas para a gaveta.

Volta e meia, tirava-as de lá e trabalhava partes do manuscrito.

A situação – circunstâncias pessoais, circunstâncias sociais – mudava gradualmente, à semelhança da minha maneira de pensar e de sentir. Nesse aspecto, a versão inicial e a versão final agora apresentada são muito diferentes em sentimento e tom. No entanto, a minha postura fundamental e o modo de pensar não mudaram praticamente nada.

Quase me dá a impressão de que ando a dizer as mesmas coisas desde que me iniciei na escrita até aos dias de hoje.

Quando leio o que afirmei há trinta anos, fico surpreendido e penso: «Ena, é praticamente o mesmo que defendo agora!»

Resumindo: considero que o material aqui reunido corresponde a coisas que escrevi e disse vezes sem conta (se bem que a forma possa ter mudado ao longo do tempo). Muitos leitores podem pensar: «Olha lá, não li já isto algures?» Se for o caso, peço-vos que sejam indulgentes para comigo.

Outro motivo que me levou a publicar estes «registos de discursos por fazer» prende-se com o desejo de reunir sistematicamente todas as reflexões que partilhei em diferentes lugares. Ficaria satisfeito se os leitores as encarassem como uma compilação abrangente (à data) das minhas opiniões sobre a arte de escrever romances.

A primeira parte deste livro foi publicada em capítulos na revista Monkey. Motoyuki Shibata arrancou com esta nova publicação em Tóquio (destinada a tornar-se um jornal literário mais intimista) e pediu-me que contribuísse.

Livro: "Romancista como Vocação"

Autor: Haruki Murakami

Editora: Casa das Letras

Data de Lançamento: 19 de março de 2024

Preço: € 15,90

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Aceitei o repto e fiz chegar-lhe às mãos um conto, que, por sinal, acabara de escrever, mas, nessa altura, ocorreu-me e perguntei-lhe: «Sabe, tenho aqui uma série de discursos pessoais que escrevi. Se houver espaço, será que mos podia ir publicando?»

Foi assim que surgiram os primeiros seis capítulos, à razão de um por cada edição mensal da Monkey. Uma tarefa fácil, visto que me limitei a entregar, para estes números, algo que permanecia adormecido na minha gaveta. No total, existem doze capítulos: os primeiros seis, como já referi, publicados em cada número na revista, os últimos seis escritos propositadamente para este livro.

Imagino que a obra seja encarada como «ensaios autobiográficos», embora não fosse esse o propósito. O que me motivou foi escrever, de maneira prática e concreta, sobre o meu trajeto como romancista, bem como sobre as ideias e os pensamentos que alimentei durante o processo. Posto isto, escrever romances é, nada mais nada menos, do que uma forma de uma pessoa se expressar. Logo, perorar sobre o processo de escrita significa que tem de se falar acerca de si próprio.

Para ser sincero, não faço ideia se este livro poderia servir de guia ou introdução àqueles que almejam ser romancistas.

Quero dizer, tenho um modo muito particular de pensar, e desconheço até que ponto se pode generalizar ou aplicar a minha forma de escrever e viver. Contam-se pelos dedos os escritores que conheço; consequentemente, não sei como escrevem, e não me permito estabelecer comparações.

É assim que escrevo porque é assim que o sei fazer. Uma coisa é certa: longe de mim defender que este é o modo correto de escrever romances. Alguns aspectos do meu método podem ser aplicados, mas outros porventura não funcionarão assim tão bem.

Escusado será dizer que, se pegarmos em cem romancistas, encontraremos cem maneiras de escrever romances. Espero que cada um de vós compreenda isso e tire as suas próprias conclusões sobre as devidas aplicações.

No fim de contas, considero-me, essencialmente, uma pessoa normalíssima. Por favor, entendam. Acredito que possuo alguma habilidade inata para os romances (se não tivesse, não os teria escrito durante todos estes anos). Mas, tirando isso, sou o tipo de indivíduo que se encontra em cada esquina, apesar de ser eu que o afirmo. Não aquele que dá nas vistas quando vagueia pela cidade, que é sistematicamente conduzido às piores mesas nos restaurantes. Se não escrevesse romances, duvido que alguém reparasse em mim. Ter-me-ia contentado em levar uma vida banal, anódina. No dia-a-dia, raras vezes penso em mim como escritor.

Todavia, como parece que possuo um certo talento para escrever romances, e tenho sido bafejado pela sorte, a par de uma faceta obstinada (ou, para colocar a questão de uma forma mais simpática, um temperamento firme), isso revelou-se útil. Consegui, durante mais de trinta e cinco anos, fazer da escrita de romance uma profissão. Ainda hoje isso me espanta. Palavra de honra. Do que gostaria de falar neste livro é precisamente desse espanto, do forte desejo (ou vontade, poder-se-ia dizer) de me agarrar à pureza desse sentimento. Provavelmente, os derradeiros trinta e cinco anos da minha vida constituíram a procura ardente no sentido de preservar esse sentimento de espanto. Sem dúvida que me sinto dessa maneira.

Por último, gostaria de acrescentar que não sou o género de pessoa especialista em refletir usando simplesmente a mente. Não sou tão bom quanto isso no que respeita aos argumentos lógicos ou ao pensamento abstrato. Só consigo ordenar os pensamentos pondo-os por escrito. Movendo fisicamente a mão à medida que escrevo, relendo o que escrevo, uma vez e outra, e reformulando-o atentamente – eis como, por fim, organizo os meus pensamentos e os capto, à semelhança das outras pessoas. Como resultado de escrever ao longo do tempo o que se encontra reunido neste volume, e reescrevê-lo vezes sem conta, tenho sido capaz de pensar mais sistematicamente e apreender uma visão mais abrangente de mim, na qualidade de escritor, e do ofício de ser romancista.

Pergunto-me, então, em que medida esta escrita individual algo autocomplacente – não tanto uma mensagem, mas um registo de um processo de reflexão pessoal – será útil ao leitor. Caso se revele minimamente proveitosa na prática, dar-me-ei por muito satisfeito.

Os romancistas são generosos?

Se me dispuser a falar sobre romances, o mais certo é acabar por me alongar excessivamente. Por isso, o melhor será começar por algo específico: os romancistas. Trata-se de um tema de fundo primordial, com mais visibilidade, fácil de entender à primeira e, como tal, suscetível de fluir com relativa naturalidade.

De uma perspetiva puramente pessoal, e com total franqueza, parece-me que os escritores – não todos, óbvio – não primam por ser pessoas com um carácter afável e um ponto de vista imparcial. Tão-pouco pode dizer-se que sejam verdadeiros modelos de comportamento. Com efeito, muitos têm uma propensão para a idiossincrasia e um estilo de vida e hábitos francamente excêntricos. A maioria dos romancistas (cerca de noventa e dois por cento, calculo, e incluo-me no rol) pensa: «O que faço e escrevo está certo.

Salvo raras exceções, os outros escritores estão errados, em maior ou menor grau», e vive o dia-a-dia com base nessa visão do mundo. Ficamos condicionados por essa visão do mundo, embora não se possa dizer isso em voz alta. Ainda que nos expressemos com modéstia, duvido que muitos gostassem de ter como vizinhos ou, deus me livre, amigos, gente assim.

Quando me chegam aos ouvidos histórias de amizade entre escritores, fico sempre com a pulga atrás da orelha.

Até pode ser que haja casos excecionais, mas, aos meus olhos, uma relação genuína e íntima entre escritores não dura muito tempo. Os escritores são fundamentalmente seres egoístas, orgulhosos e por demais competitivos. Reúnam dois deles na mesma sala e o resultado mais provável será que não se ponham de acordo. Acreditem, vivi várias experiências do género.

Há um exemplo muito famoso, ocorrido no ano de 1922, quando Marcel Proust e James Joyce participaram num jantar em Paris. Apesar de estarem sentados próximos um do outro, praticamente não trocaram uma palavra até ao final da refeição. As pessoas em redor perscrutaram-nos pelo canto do olho, retendo a respiração, perguntando-se de que poderiam falar aqueles dois gigantes das letras do século XX. Porém, todos viram as suas expetativas frustradas, pois nenhum deles se dignou dirigir-se ao outro.

Imagino que o orgulho terá representado um grande obstáculo. Sucede frequentemente.

Apesar disso, no que se refere à exclusividade no campo profissional – por outras palavras, sobre uma certa «demarcação do território» – entre grupos profissionais, creio que não há ninguém tão generoso e de coração mais aberto que os romancistas. De facto, sempre me pareceu que é uma das poucas virtudes que temos em comum.

Deixem-me ser um pouco mais concreto.

Vamos partir do princípio de que um escritor com uma boa voz se aventura no mundo da música. Ou que tenha jeito para a pintura e, a partir de certo momento, comece a expor a sua obra. Esse escritor enfrentará, seguramente, todo o tipo de reticências, correndo o risco de ser ridicularizado.

Os críticos entrarão em parafuso. O comentário mais frequente será: «Deveria dedicar-se ao que domina.» Outros dirão: «Um desempenho amador, sem técnica nem talento.»

Os cantores e pintores profissionais limitar-se-ão a tratá-lo com frieza e indiferença. Os comentários poderão mesmo roçar a hostilidade. Dificilmente ouvirá alguém “dizer” «Bem-vindo ao clube.» Duvido que seja bem recebido, e, em todo o caso, em pouquíssimos lugares e em ambientes pequenos.

Para lá de escrever ficção, há trinta anos que me dedico a traduzir literatura americana para o japonês, mas confesso que, no início (e possivelmente até hoje em dia), a pressão sobre mim foi feroz. Ergueu-se um coro de vozes. «A tradução literária não é uma tarefa fácil, passível de ser feita à medida por um amateur», diziam. «Os escritores que se dedicam à tradução não passam de um estorvo.»

Do mesmo modo, quando publiquei Underground, choveu todo o tipo de críticas severas por parte de escritores especializados em não ficção. «Desconhece as regras básicas da não ficção», afirmaram alguns. «Um dramalhão de faca e alguidar.» Outra recensão que tal: «Demasiado diletante.»

A minha ideia não era escrever uma obra que pertencesse ao género «não ficção», seguindo determinados fundamentos ou regras; pensei apenas em produzir uma obra que, para mim, «não fosse inventada». O resultado foi que pisei a cauda dos tigres que vigiavam o sagrado templo da «não ficção».

Nem sequer sabia que existia tal território, ou que poderia haver regras próprias para a não ficção que tivessem de ser respeitadas, daí que, no começo, fiquei deveras confuso.

Quando nos intrometemos numa área que não é a nossa, diz-me a minha experiência que os especialistas na matéria tendem a não nos ver com bons olhos. À imagem dos glóbulos brancos que protegem o nosso organismo de corpos estranhos, também eles repelem todas as forças «alienígenas». Se, mesmo assim, uma pessoa persistir, pouco a pouco começará a ser tratada com condescendência. Apesar de tudo, enfrentaremos inicialmente forte resistência.

Quanto mais restrito e específico for o tema, maiores serão o orgulho e o sentimento de exclusividade em relação aos recém-chegados.

Mas, no caso contrário, quando um cantor, um pintor, ou mesmo um tradutor ou um autor de não ficção decidem escrever um romance, o romancista faz cara de poucos amigos?

Da forma como eu vejo as coisas, não. Não são poucos os cantores, pintores, tradutores ou escritores de não ficção que escreveram romances e foram devidamente reconhecidos, e até encorajados. Nunca ouvi falar de um escritor consagrado que tenha ido aos arames, acusando um estreante de «estar a invadir a sua área». Pelo que sei, os romancistas quase nunca criticam, ridicularizam ou pregam rasteiras a algum novato que se abalance a tal. Pelo contrário, creio que os recém-chegados despertam em nós uma curiosidade genuína, vontade de discutir o seu trabalho e, possivelmente, o desejo de os encorajar.

Claro que haverá sempre romancistas que dirão mal da obra nas costas do autor, mas isso é costume entre os escritores, faz parte do comportamento usual, e não se prende com o facto de terem ficado perturbados com a invasão do seu território. Os romancistas possuem muitos defeitos, mas, regra geral, são generosos e tolerantes para com quem vem de fora. Porque será?

A meu ver, a resposta é bastante clara. Afinal de contas, praticamente todas as pessoas são capazes de escrever um romance para passar o tempo, embora talvez seja pouco delicado pôr a questão nestes termos. Para ser pianista ou bailarina, por exemplo, é preciso passar por um duro e longo processo de treino desde criança. Para ser pintor, a mesma coisa: além de comprar uma data de materiais, um artista tem de adquirir técnicas básicas e um certo grau de conhecimento especializado. Tornar-se alpinista exige um físico acima do normal, treino e coragem.

Um aspirante a romancista, em contrapartida, só precisa de saber escrever (quase todos os japoneses, na minha opinião, são perfeitamente capazes), uma esferográfica, um bloco e alguma imaginação para inventar uma história ou produzir algo que, a bem ou a mal, terá a forma de um romance. Não precisa de ter andado na faculdade de letras.

Se quiser frequentar cursos de escrita criativa, tudo bem, mas é dispensável.

É possível a um autor com um pouco de talento escrever um excelente romance à primeira tentativa. Fico constrangido ao falar do meu caso, mas, verdade seja dita, nunca frequentei qualquer espécie de curso prático para escrever romances. Embora tivesse estudado na Faculdade de Filosofia e Letras, no Departamento de Cinema e Teatro, ditou o contexto histórico da época – nos idos de 1960 – que raramente fosse às aulas. Basicamente, deambulava por ali, todo mal-enjorcado, com o cabelo comprido e a barba por fazer. Não tinha especial interesse em tornar-me escritor, nunca escrevera sequer para praticar, até que um dia dei por mim a redigir o meu primeiro romance (se é que lhe podemos chamar isso), a que chamei Ouve a Canção do Vento. Com ele, recebi o prémio destinado aos novos escritores instituído por uma revista literária. Depois, sem saber muito bem como, nem ter feito um curso, converti-me num escritor profissional. «Será que é de facto assim tão simples?», perguntei-me muitas vezes, abanando a cabeça de espanto, porque, afinal de contas, tudo aquilo me parecia sobejamente fácil.

Ao lerem a minha descrição, talvez haja quem pense, amofinado: «O que é que tu sabes de literatura?» Atenção, limito-me a falar da realidade dos factos, não de literatura.

Independentemente do que os outros pensem, o romance, enquanto género, é uma forma de expressão muito vasta.

De facto, em função de cada qual e do seu modo de pensar, essa amplitude intrínseca pode sem dúvida transformar-se numa das razões fundamentais da extraordinária vitalidade do romance e, ao mesmo tempo, da sua simplicidade. Do meu ponto de vista, afirmar que «qualquer pessoa pode escrever um romance» não constitui nenhuma infâmia, mas sim um elogio.

Posto de outro modo, o género do romance é uma espécie de ringue de luta livre aberto a quem quiser participar.

Entre as cordas que definem o retângulo há espaço suficiente para toda a gente, e até existe um degrau que permite um acesso mais fácil. O ringue é espaçoso. O árbitro não tem um comportamento que passa dos limites, e não há seguranças que tentem impedir a entrada. Os lutadores profissionais (neste caso, os romancistas consagrados) sabem disso e mostram-se resignados.

«Tudo bem, podem subir à vontade e deem o vosso melhor.» O ambiente é – como dizer? – arejado, amistoso, versátil. Resumindo, não é restritivo.

Se bem que subir ao ringue possa ser fácil, já permanecer nele durante muito tempo, não. Nós, os romancistas, estamos cientes desse facto. Escrever um ou dois romances não é assim tão difícil, mas continuar a trilhar o caminho da escrita e viver disso revela-se uma tarefa árdua. Hercúlea, mesmo. Não ao alcance de todos, atrevo-me a dizer. Não sei como explicar de forma precisa, porém, para o conseguir é necessário algo especial. Requer talento, obviamente, bem como determinação. Além do mais, como em muitos outros aspectos da vida, a sorte e a coincidência são fatores importantes.

Acima de tudo, é necessário possuir competência.

Algumas pessoas nascem com ela; outras, não. Em todo o caso, podem sempre conquistá-la à base de esforço.

Ainda se sabe pouco sobre essa capacidade particular, e é raro falar do assunto abertamente, pois trata-se de algo que não pode ser visualizado nem verbalizado. Seja como for, os diretamente interessados aprendem no duro o que fazer para continuarem a ser escritores.

Penso que é essa a razão por que nós, romancistas, somos generosos e tolerantes para com os especialistas de outras áreas que se atrevem a saltar para dentro das cordas do ringue a fim de se lançarem na escrita. «Se querem entrar, sejam bem-vindos», dizem alguns escritores, ao passo que outros não passam cartão aos recém-chegados. Caso esses acabem por ir ao tapete ou desistam por vontade própria (quase sempre por uma destas duas razões), os escritores da velha-guarda dirão: «Foi pena, meu rapaz», ou «Boa sorte».

Mas, se os novatos se mantiverem firmes no ringue, dando mostras de esforço, serão considerados dignos de respeito.

E esse respeito, normalmente, tem tanto de imparcial como de justo (ou, pelo menos, quero acreditar nisso).

Talvez a relativa generosidade dos romancistas esteja relacionada com o facto de a indústria literária não ser uma sociedade em que o ganho de um represente a perda de outro.

Que é como quem diz, mesmo que apareça um novo escritor em cena, isso não significa, evidentemente, que o veterano se arrisque a ficar sem trabalho e a começar do zero. Nesse sentido, o mundo literário e o mundo do desporto profissional são diametralmente opostos. Neste último, quando um novo jogador é contratado, um antigo ou outro novato que não dê conta do recado perde o contrato e abandona a equipa, ou vai parar ao banco de suplentes. Não existe paralelo no mundo da literatura.

Tão-pouco acontece um livro deixar de vender cem mil exemplares porque outro aumentou as vendas em centenas de milhares de exemplares. Pelo contrário, um novel autor de best-sellers pode revitalizar a sua atividade e a indústria literária acabará por ser beneficiada.

Apesar disso, e a longo prazo, parece ocorrer uma espécie de seleção natural. Por mais que o ringue seja espaçoso, tende a albergar um número máximo de escritores. Pelo menos, é a impressão que me dá.

No meu caso particular, dedico-me profissionalmente a escrever romances há trinta e cinco anos ou mais. Ou seja, encontro-me no ringue do chamado «mundo literário» vai para cima de três décadas, e, valendo-me de uma antiga expressão, pode dizer-se que vivo graças «à minha pena».

No sentido restrito da palavra, tal pode ser considerada uma verdadeira conquista.