À frente da estação de comboios do Rossio, em Lisboa, o Teatro Nacional D. Maria II grita Última Hora. A tarja com o título da peça escrita por Rui Cardoso Martins e encenada por Gonçalo Amorim funciona que nem um ardina. Nos telemóveis, nos rádios dos carros chegam as últimas horas e ali está uma "última hora", estática, para ser contada até ao próximo dia 15 de novembro por um elenco que inclui Miguel Guilherme e Maria Rueff.

No palco há uma redação de um jornal chamado Última Hora. O nome é desenhado com as letras do Diário de Notícias que um dia adornaram o topo da Avenida da Liberdade. Velho e desgastado, é invadido por um tipo demasiado entusiasmado, repleto de números, gráficos e palavras inglesas. Chegou enviado pela administração para tentar salvar um jornal ultrapassado pelos tempos, em que o diretor torce a cara quando ouve a palavra clickbait, como se nem soubesse do que se tratava.

O diretor do jornal cuja sobrevivência - ou não - vai ser contada em três atos na sala Garrett do Teatro D. Maria II, é Miguel Guilherme, ator que passou um mês na redação do Público para encarnar a personagem. "Pensava que era uma coisa que já não se fazia", disse Rui Cardoso Martins aos jornalistas no final do ensaio aberto à imprensa.

Mas, alto e pára o baile. Esta não é uma peça para jornalistas, desengane-se quem o pense. A ressalva é feita numa conversa com o autor do texto que será editado em livro pela Tinta-da-China. Esta é uma peça sobre jornalismo, uma sátira às crises de hoje e de ontem, mas é igualmente a história de "pessoas que estão a viver dramas também familiares e filosóficos, de honra, de cumprir o seu trabalho, de amor à verdade, ou não, de amor à mentira".

Rui Cardoso Martins é um jornalista, romancista, escritor de comédia e de teatro. Aqui apresenta todas as suas dimensões de forma ficcional, com traços roubados aos lugares por onde passou e às pessoas com quem se cruzou. Conta que quando se começa a escrever "acontecem coisas verdadeiramente quase místicas" e é por isso que dedica a peça ao pai e na entrevista relembra Vicente Jorge Silva, o jornalista que fez parte do grupo fundador do Público e que foi o seu primeiro diretor.

Não, não é uma peça para salvar o jornalismo, mas é uma sátira - de esperança - a um regresso heróico para que os mais novos de hoje não sejam "carne para hambúrguer" e possam conhecer e aprender com toda a sorte que alguns da sua geração tiveram.

Tenho a impressão de que todos os jornais portugueses, de uma maneira ou de outra, estiveram ou estão sempre nesse sopé da montanha em que parece que tudo vai acabar e recomeçar

Portanto, a história é sobre um jornal que vai fechar, vai falir...

[encolhe os ombros] Talvez. Está num daqueles processos de desagregação.

O Rui, ao longo da sua carreira, alguma vez viveu esses últimos suspiros da vida de um jornal?

Tenho a impressão de que todos os jornais portugueses, de uma maneira ou de outra, estiveram ou estão sempre nesse sopé da montanha em que parece que tudo vai acabar e recomeçar. Mas não, nunca tive naquela situação claríssima em que o jornal vai fechar. Passei alguns períodos críticos do jornal Público, a começar pelo falso lançamento, em que ao contrário do que se passa na peça havia dinheiro, faltou foi a técnica, estive em plenários em que se discutiu o futuro do jornal, o que podia ser, redução do pessoal... Creio que quase todos os jornais em Portugal passam por isso e estão a passar cada vez mais com a sucessão de crises. Faz parte da própria imprensa, sempre foi um bocado assim. Há alguém que diz lá na peça: "todos os dias nascem jornais, morrem jornais".

É uma verdade dos tempos.

Se formos ver a história do jornalismo e não só em Portugal, também nos Estados Unidos, há imensos jornais que morreram nos últimos anos, quando apareceu a rádio, a Internet.

Ainda nascem muitos jornais em Portugal?

Nascer não. Houve alturas loucas, ali no século XIX, a seguir às guerras liberais. [Havia] os jornais que estavam pelo D. Miguel e os que estavam pelo D. Pedro, eram imensos. Chegou a haver dezenas e dezenas de jornais diários em Portugal, que nasciam e morriam. Isto aqui é diferente, estamos num quadro em que criei um jornal fictício, mas quem conhece minimamente a situação pode reconhecer vários traços. Esta peça pega em coisas que já têm algum tempo, mas também pega em coisas de hoje.

O que é que se mantém igual nas crises do jornalismo?

Quase que me apetece citar o Tolstoi e dizer que todos os jornais "felizes são iguais, todos os infelizes são infelizes à sua maneira". Há coisas muito específicas que derivam de coisas mais novas. Sempre houve manipulação, sempre houve interferências, sempre existiram notícias falsas, mas a entrada da Internet com uma massa crítica de leitores… E o facto de o dinheiro ter transitado quase de corsários, de piratas, para as plataformas digitais. A falta de dinheiro é terrível, porque leva a que se vão embora as pessoas que ganham mais e que já estão mais habituadas. Os novos, que ficam, são transformado em carne para hambúrgueres. O que é que eu hei-de dizer?

Perdem-se as principais referências?

Acabam por se perder as referências, mas também a sorte que algumas das pessoas da minha geração tiveram ao existirem jornais com alguma pujança que nos levaram para todo o mundo. Eu passei por isso tudo, tive essa sorte.

Andou em reportagem pelo México, Bósnia...

Sim, andei por vários sítios. África do Sul...

É uma coisa que hoje em dia é mais rara de acontecer.

Há na peça uma personagem que fala nisso. O repórter de guerra paga as suas próprias reportagens de guerra. E há casos assim em Portugal, em que quem quer ir tem de se desenrascar, "a gente paga-te qualquer coisita para ajudar na viagem", mas não paga o trabalho, a comida, o alojamento. A pessoa tem que fazer o seu trabalho ou com base no dinheiro que tem guardado ou na ajuda dos próprios entrevistados.

O que é uma coisa meio estranha.

É uma coisa meio estranha até porque isso pode contaminar o trabalho, como a gente sabe. No início, o Público não aceitava sequer patrocínios. Não havia viagens pagas, nem a convite nem nada. Era assim um princípio que o Vicente Jorge Silva tinha. A independência... a peça é sobre homens que, com todos os seus defeitos, são pessoas, não é? Tentam manter a sua integridade dentro de um quadro em que tudo se está a desagregar, em que está tudo a cair. Não é só sobre jornalismo, é sobre relações humanas.

créditos: Gonçalo Gomes | MadreMedia

É sobre uma redação.

A redação como microcosmos, como um micromundo de relações, pessoas, famílias desagregadas... da vida.

Como é que um cenário desses consegue ser cómico? Porque a peça é apresentada como sendo uma comédia.

O Dinis Machado, que tive o gosto de conhecer e com quem privei um bocadinho, perguntava sempre quando escrevia: qual é o lado cómico disto? Há sempre um lado cómico. A tragédia e a comédia andam sempre ligadas. O Aristóteles disse de uma forma muito simples que comédia e tragédia escrevem-se com as mesmas letras do alfabeto e a nossa vida é assim. A minha experiência jornalística e a minha experiência de ficção foi sempre neste campo, tragédia, comédia, tragicomédia que é no fundo a nossa vida. Mas para fazermos uma comédia temos de ter boas piadas e boas piadas, felizmente, de vez em quando surgem-me e outras vezes ouço-as. Sou atento às coisas que ouço. Fui pondo, fui construindo uma história, três atos, uma estrutura clássica, do mais à antiga que há. Nesse aspeto quis mesmo criar um texto de raiz que pudesse ser visto também como um texto literário. É uma comédia porque está cheia de momentos cómicos. O problema é que também está cheia de momentos trágicos. Não diria extremamente trágicos, mas dramáticos.

Mas a comédia vence o drama.

Acho que sim, estou muito curioso de ver. Já tive pessoas que leram o texto e que me disseram, "isto não é uma comédia" e outras que dizem "epá, mas é uma comédia".

Vai ser estranho descortinar esses sentimentos com uma audiência de máscara.

Já nos vamos habituando a ler os olhos. É um dos exercícios mais interessantes que tenho. Agora, estou a dar aulas em duas universidades, lido com alunos que não conheço a cara e estou a imaginar o que está por debaixo da máscara. Às vezes há um que a tira e descubro, 'olha aquele tem um nariz muito maior do que parecia'.

Imagina caras.

Quem é que não o faz? Aqui vou ser um bocadinho inconveniente, mas vemos uma mulher bonita e queremos ver-lhe a cara. De repente até parece que temos aqui uma espécie de mistério das 1001 noites. Enfim, os meus atores vão estar de cara descoberta, como é óbvio. O problema para eles vai ser pior do que para mim que já fiz o meu trabalho, mas se se ouvirem gargalhadas, se se ouvirem soluços, é o que eu pretendo. Como dizia William Faulkner, "o meu objetivo é criar emoção". Acho que a literatura é mesmo isso, como qualquer arte: criar emoção. Não é outra coisa.

Espero que isto não seja visto como uma peça para jornalistas, isto são pessoas que estão a viver dramas também familiares e filosóficos, de honra

Mais importante do que o texto ou o livro é a reação do leitor ou do espectador.

Acho que um bom livro tem um coração qualquer lá dentro e um cérebro que ativa em cada pessoa uma coisa diferente. Espero que isto não seja visto como uma peça para jornalistas, isto são pessoas que estão a viver dramas também familiares e filosóficos, de honra, de cumprir o seu trabalho, de amor à verdade, ou não, de amor à mentira.

Mas tem essa mensagem clara relativa à crise do jornalismo. É uma sátira também.

Sem dúvida que é uma sátira a uma série de movimentos que estão a acontecer e a reduzir cada vez mais a qualidade do jornalismo e a qualidade de vida dos jornalistas. E da verdade.

E por consequência da democracia?

E por consequência da democracia e da liberdade. A liberdade de imprensa para mim implica liberdade mesmo quando as pessoas ficam presas a compromissos comerciais ou políticos que, volto a dizer, sempre existiram. É dita na peça uma frase do Karl Kraus, um jornalista austríaco que fazia uma enorme crítica ao jornalismo e que escreveu "Os Últimos Dias da Humanidade", de onde tiro esta parte: "Quem tiver alguma coisa a dizer, avance e fique em silêncio". Tem a ver com a manipulação que havia nos jornais durante a I Guerra Mundial, as mentiras completas, as coisas absurdas que pareciam ficção. Ele foi muito crítico do jornalismo e da manipulação e eu também sou. Não me estou a comparar ao Karl Kraus, mas sou. Tenho de ser.

Falamos de jornalismo todos os dias, na televisão, na rádio, nas redes sociais. É um tema de discussão banal, mas que não costumamos ver abordado desta forma, em cima de um palco. Achou que era importante levar esta realidade de bastidores às pessoas?

Se conseguirmos criar a ilusão de um mundo que as pessoas possam conhecer... É um falso realismo, atenção. Esta peça tem uma linguagem bastante trabalhada que pode passar por uma conversa solta, mas não, é intrincado. Tem muitos anos em cima, por assim dizer.

Quando é que começou a escrever a peça?

Há mais de três anos. Isto começou com um convite do Teatro Nacional, através do Tiago Rodrigues. Perguntou-me se eu queria fazer uma peça. Um desafio tremendo, o Teatro Nacional. No mesmo encontro, acordámos que haveria de ser sobre jornalismo e eu disse logo que queria escrever uma comédia. Ele riu-se e disse "uma comédia, boa ideia".

Há três anos.

Tive uma facilidade que foi convidar a Maria Rueff e o Miguel Guilherme e o teatro tê-los assegurado. Escrevi duas personagens já com duas caras na cabeça o que facilita. Duas das personagens principais estão aqui. É uma peça escrita já com a facilidade de saber coisas. Por exemplo, sabia que ia ter seis estagiários de teatro a fazer de estagiários. Foi logo a minha decisão, vão fazer de estagiários também porque há aqui de certeza uma série de coisas que lhes vai tocar, a precariedade, a dúvida sobre como é que as coisas se fazem, já estarem a tentar constituir família muitas vezes, mas ainda a ganhar uma miséria... Nós sabemos do que estamos a falar, não é? E cada vez mais. A grande dificuldade era saber restringir: que mundo ia contar? Era só uma redação de jornal? Vou recuperar aqueles bares onde antes se discutia depois de o jornal fechar? Atenção, esta peça foi terminada antes da pandemia. Em janeiro.

Antes? Não foi um daqueles momentos em que um escritor aproveitou o período de quarentena para escrever desenfreadamente?

Não, em janeiro já estava a versão final. Para mim, aliás, é uma grande alegria saber que a peça vai estrear.

Houve uma altura em que achou que não ia acontecer?

Sabíamos lá se isto não era uma daquelas coisas que arrasa metade da população mundial? A certa altura parecia isso.

Foram períodos de tempo muito estranhos.

É uma coisa muito estranha, mas o teatro também serve para fugirmos disso. Numa das conversas que tive com o Miguel Guilherme, ele disse-me "epá, não ponhas nada da pandemia". As pessoas estão fartas da pandemia, está em todo o lado, em todo o discurso, a toda a hora. Isso não é preciso, as pessoas querem ir ver outra coisa.

A minha esperança é que o jornalismo regresse

Fartas da Covid-19, fartas dos jornalistas?

Era uma das coisas com que parti para a peça, a maneira como os jornalistas são encarados com desconfiança pelas pessoas, mas também como agem com muita ignorância, porque acham que dominam as coisas, porque leram umas patacoadas que, na realidade, não percebem. A minha esperança é que o jornalismo regresse. O jornalismo de vez em quando tem regressos heróicos. Tenho esperança de que pelo menos uma parte importante da massa crítica consiga convencer-se de que vale a pena gastar o dinheiro de um café num bom jornal. A grande asneira mundial foi todos os jornais terem começado a abrir-se e a entregar de borla o seu trabalho, o seu dinheiro, porque toda a gente estava a fazer o mesmo. Um erro tremendo.

Quando estive na Alemanha, vi que estavam muito empenhados em pôr o Facebook e a Google a pagar pela partilha. Mas, afinal de contas, que coisa é esta? Não fazem nenhum e ainda ficam com o dinheiro?

E as pessoas passaram a encarar isso com naturalidade. Em Portugal, no online, há muito essa perceção, do jornalismo como algo à borla, adquirido.

Mas já está a regressar um bocadinho. Alguns jornais já conseguiram criar algumas barreiras que não permitem a qualquer um ler tudo. É uma luta terrível. Quando estive na Alemanha, para onde fui através de uma bolsa que ganhei para trabalhar sobre esta peça, vi que estavam muito empenhados em pôr o Facebook e a Google a pagar pela partilha. Mas, afinal de contas, que coisa é esta? Não fazem nenhum e ainda ficam com o dinheiro? Quer dizer, ainda podiam ficar com o dinheiro, mas fazer algum, mas não fazem nenhum. É uma coisa de malucos. Os alemães estavam muito empenhados junto da Comissão Europeia. Eu fui sempre um defensor de primeira hora [desta necessidade de o jornalismo ser pago]. Aliás tive algumas discussões com pessoas que conhecia e que escreviam um artigo para um jornal e de manhã partilhavam-no no Facebook. Então... assim a pessoa não vai comprar o jornal. Isso está errado. A ti não te faz diferença, que recebeste, mas o jornal vai morrer. E depois já não podes escrever mais. Se estás a dar à borla o que te estão a pagar… não pode ser'. "Tudo é economia, tudo é economia", como diz uma das personagens, aliás sinistra, da peça.

Qual é a relação atual do Rui com o jornalismo?

Continuo a escrever crónicas de tribunal no Jornal de Notícias, já escrevo lá para aí há seis anos. Faço aos domingos na revista, que é uma das revistas que se mantém, de grande qualidade, a Notícias Magazine. Faço a última página todos os dias com uma história nova. Já fiz mais de mil histórias.

O levante-se o réu.

São histórias no sentido de casos, crónicas baseadas naquilo que vejo nos tribunais. Sem ficção nenhuma.

O levante-se o réu era o que via nos tribunais, o que ainda vê, aliás. Esta peça é uma espécie do levante-se o réu do jornalismo? Uma recriação daquilo que viu ao longo dos anos?

É um bocadinho. Muitos dos diálogos são construções feitas em conversas com amigos ou coisas que eu ouvi e que de uma maneira ou de outra me ficaram nos ouvidos, pequenas anedotas, coisas dramáticas, coisas duras, mas que têm o seu lado cómico como tudo... mas ter que escrever o obituário de um amigo, como já me aconteceu, é das coisas mais duras... ou fazer a reportagem de fecho de um jornal. Aconteceu-me. Como diz lá o diretor Santos Ferreira, "na minha juventude fui coveiro de jornais". Também fui. Alguma parte daquela paródia é minha. E uma parte da tragédia também é minha. Mas isso faz parte de qualquer criação.

Há alguma parte do que está na peça que seja uma etapa visível da sua carreira? Momentos, lugares, pessoas.

É uma grande misturada. São personagens de ficção. Ninguém pode dizer que é este ou aquele, mas de facto agradeço aqui no fim do livro [editado pela Tinta-da-China] a amigos, a partes da família, mas também aqui a estes que morreram [aponta para o nome de Vicente Jorge Silva]. É uma pequena homenagem a pessoas com quem aprendi muito, inclui aqui o Rogério Rodrigues que é o pai do Tiago [Rodrigues, diretor do teatro D. Maria II]... Sabe, acontecem coisas verdadeiramente quase místicas. No dia em que este livro foi para a gráfica foi o dia em que morreu o Vicente Jorge Silva, um dos meus mestres. Não está aqui nenhuma personagem que seja ele, mas há uma coisa da loucura saudável, incrível, da energia do Vicente que aqui está. Sabia que ele estava doente ... quando uma pessoa começa a escrever começam a acontecer coisas que só fazem sentido depois. O meu pai morreu também há dois meses. A peça é-lhe dedicada, já não vai vê-la, ainda teve um exemplar final da peça, não chegou a ver nem o livro nem a peça. Mas eu estive nos hospital dos Capuchos, [a acompanhá-lo] num tratamento de cancro e encontrei lá o Vicente. Estivemos os três a conversar, eles os dois de chapéu. O meu pai era professor de grego, de latim e de português. Os dois a conversar, a falar sobre mim que estava ali numa situação estranha, duas pessoas doentes... O meu pai morreu antes dele e eu não sabia que o estado de saúde do Vicente se tinha precipitado. Foi uma enorme surpresa, um grande choque.

Porque quando esteve com ele dessa vez…

Ele já estava doente há muitos anos, mas não sabia que a coisa tinha piorado assim. Fiquei de facto em choque e aconteceu no dia em que este livro foi para a gráfica. E ainda está aqui o nome dele. À última hora. Última Hora. À última hora consegui. Ficaria tristíssimo se não viesse aqui o nome dele.

Também dizemos "safei-me à última hora". Safei-me à última hora, à última hora chegou a salvação. E aqui também está essa nota de esperança

O título nasce dessas emergências?

Isso fui eu que me lembrei. Soube depois que existiu, e ele também vem citado aqui, um Última Hora no Brasil onde trabalhou o Nelson Rodrigues, famoso cronista e também autor de teatro que escrevia as crónicas A Vida como ela É, e peças de teatro muito escandalosas. Um homem bastante conservador, mas como uma rebeldia qualquer. Um grande escritor. Mas última hora em português tem vários sentidos, não é? O sentido inglês de breaking news, ainda se usa. Mas quando chegar a nossa última hora também é um sinal de morte e de fim. Também dizemos "safei-me à última hora". Não é à “[última] da hora” como as pessoas dizem. Safei-me à última hora, à última hora chegou a salvação. E aqui também está essa nota de esperança. É um título com várias camadas, várias espessuras como, espero eu, leituras.

O Rui é jornalista, escreveu humor, teatro, romance. Como é viver entre estes géneros? A diferença entre escrever uma reportagem nada tem a ver com escrever uma peça. Não é muito estranho saltar de processo para processo?

É por isso que me vi aflito para escrever isto [ri-se]. É um processo diferente, juntou-se escrever ficção de teatro ao jornalismo. Tive que aprofundar uma coisa que já tive de fazer para o romance que é escrever contra o jornalista que há em mim. A linguagem é outra. Usamos as mesmas letras e às vezes métodos semelhantes, por isso é que podemos falar perfeitamente em jornalismo literário, em jornalismo não ficção, que é uma coisa que eu respeito muito e que pode mesmo alcançar uma dimensão incrível, mas neste caso tive mesmo que fazer várias ginásticas e várias noites de sofrimento para não fazer isto uma peça banal sobre uma redação, um telefilme qualquer.

Existia esse risco de ser um tema que podia cair numa certa banalidade?

Esse foi o meu medo. Desde o princípio que lutei para que isto tivesse leituras muito fortes de várias dimensões, contradições, de riqueza, de linguagem e de surpresa.

O texto vai ser editado em livro pela Tinta-da-China. Como olha para o mercado da literatura dramática em Portugal? Acha que há espaço para ele?

Espero que haja. Li várias peças e quando são bem escritas são fantásticas. É melhor que um bom guião. O teatro tem outra energia, a força da palavra tem de se impor por si sem ficar palavroso, sem ficar chato. O cinema tem a vantagem de com menos palavras se conseguirem outros objetivos. Tenho um mestre antigo, por assim dizer, um russo, Nikolai Gogol, que me ajudou muito. Tenho um livro que foi editado agora em russo, o "Se eu gostasse muito de morrer".

Rui Cardoso Martins acompanhado de Gonçalo Amorim, o encenador da peça
créditos: Gonçalo Gomes | MadreMedia

O seu primeiro livro.

Exatamente. Fala muito de Dostoevsky, do "Crime e Castigo", aquelas leituras da adolescência. Fui a São Petersburgo por causa disso e por causa de um concurso literário. Lá me convidaram, lá fui eu e por extraordinária coincidência foi na mesma semana em que o Tiago Rodrigues foi receber o seu prémio. Isto já foi depois de eu estar a trabalhar, atenção. Fui também ao teatro onde o Nikolai Gogol fez a estreia das suas peças todas, a começar pela grande comédia "O Inspetor Geral" que é um livro que se lê às gargalhas, que é uma coisa que raramente me aconteceu na vida.

E que é uma peça de teatro.

Também já a vi. Há uma versão com o Francisco Nicholson, antiquíssima, e com o Wallenstein velho, o pai desta geração de Wallensteins, a fazerem uns papéis engraçadíssimos. A preto e branco. Eu acredito no poder de uma peça também poder ser lida.

A pergunta seguia também na sequência do fecho da editora Cotovia que editava muita literatura dramática.

Isso é uma péssima notícia, não é? Tenho algumas edições da Cotovia de teatro. Não é que eu seja um grande leitor de teatro, mas gosto de ler. Há peças que se lêem como livros. O Tchekhov é um caso extraordinário. Uma pessoa comove-se, ri sem problema nenhum. Não precisa de estar a ver. Às vezes quando se vê até é pior [risos].

[Rui pega nuns pequenos binóculos] Há aí alguma história?

[Sorri] Não consegui sair daquele teatro [em São Petersburgo] sem trazer uns binóculos para conseguir acabar a peça.São binóculos tipo século XIX. Conto levá-los na estreia para ver melhor os pormenores e as princesas no camarote que era assim que se fazia.

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