A descoberta, feita por uma equipa de investigadores neozelandeses e australianos, levou-os a concluir que a religião e o ritual macabro ajudaram a criar sociedades muito estratificadas, com as elites a usarem-nas como arma de controlo social.

O que não faltam são registos arqueológicos a demonstrar que os rituais de sacrifício humano já estavam presentes nas civilizações antigas, da Europa do Leste à China, passando por África, o continente americano e indo até ao distante e frio Ártico, com os índios Inuit a praticarem-nos. Mas, afinal, para que serviam estas práticas, além de, supostamente, agradar os mal-humorados deuses em tempos de dificuldade e penúria?

As evidências encontradas em algumas regiões do globo não são esclarecedoras, mas elas parecem indiciar que os sacrifícios humanos eram usados pelas elites de uma sociedade para preservar o seu poder, atuando sobre os mais fracos e mantendo sob controlo as populações, ao mesmo tempo que defendiam os seus atos evocando um estatuto divino que lhes dava ainda mais autoridade. Esta é, pelo menos, a teoria de Joseph Watts, especialista em evolução cultural pela Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, baseando-se na chamada “hipótese do controlo social”.

Para colocar à prova esta ideia, Watts e os seus restantes colegas foram aos arquivos e analisaram nada mais nada menos do que 93 culturas tradicionais da Austronésia, sobre as quais existem muitos estudos históricos e etnográficos documentados: este acervo permite conhecê-las tal como eram antes de terem sido influenciadas pela colonização e as grandes religiões, há pouco mais de cem anos. Basicamente, estas sociedades aparentam ter em comum a mesma origem, a atual Ilha Formosa, tendo-se espalhado por várias ilhas e áreas continentais banhadas pelos oceanos Índico e Pacífico, como o Madagáscar, a Ilha da Páscoa ou a Nova Zelândia.

O grupo de investigadores criou três categorias dentro das quais encaixou cada sociedade, assente no nível de estratificação social: igualitária, moderadamente estratificada e elevadamente estratificada. O que descobriram? Dois terços das sociedades elevadamente estratificadas praticavam sacrifícios humanos, enquanto só um quarto das que eram igualitárias o faziam. E o que concluíram a partir destes e outros dados? Estes rituais e a própria estratificação social evoluíram em conjunto, existindo uma maior probabilidade de as culturas tornarem-se fortemente divididas em classes se as suas tradições religiosas incluírem os sacrifícios – de frisar que estes surgiram em primeiro lugar.

Dito de outra forma, os resultados, publicados esta semana na revista Nature, mostram como o ritual ajudava a normalizar a estratificação social assim que esta divisão surgia, conduzindo a rígidos sistemas de classe em que os filhos herdam a mesma condição social dos pais.

Mil e uma maneiras de morrer… mas sempre o mesmo objetivo

A imaginação humana é muito fértil, por vezes pelos piores motivos. De acordo com o estudo, os métodos de sacrifício utilizados envolviam “queimar, afogar, estrangular, bater, enterrar, esmagar debaixo de uma canoa acabada de construir, ser cortado em pedaços, assim como ser atirado do telhado de uma casa e depois decapitado”.

Watts, em declarações ao jornal The Guardian, refere que “os sacrifícios humanos eram geralmente orquestrados pelas elites sociais, como os chefes e os líderes religiosos, e as vítimas eram escolhidas de entre os grupos de baixo estatuto, como os escravos e os cativos”.

Para não variar, a religião tem aqui um papel fulcral, até porque para uma morte ser considerada um sacrifício tem de existir por trás um motivo religioso. “Embora o sacrifício humano não seja usado como uma forma de controlo nas sociedades modernas, a religião, de forma lata, ainda pode servir essa função”, explica ao jornal britânico. “O nosso estudo salienta como é que a religião é vulnerável a ser explorada pelas elites sociais, podendo tornar-se numa ferramenta para construir e manter um controlo social – o recurso a sacrifícios humanos como meio de controlo social é um exemplo horrendo do quão longe isto pode ir”.

Há dúvidas?

Não obstante, já surgiram vozes de ceticismo em relação a estas conclusões. O antropólogo Joseph Henrich, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, desconfia da metodologia utilizada por Watts e os restantes investigadores. A equipa de neozelandeses e australianos baseou-se na existência de uma língua ancestral comum às 93 sociedades, a qual evoluiu e dividiu-se em diferentes ramos. Seguindo as pistas linguísticas (os diferentes ramos criados), construíram árvores genealógicas onde se vê como é que as culturas da Austronésia evoluíram e se relacionam entre si. Através delas, conseguiram calcular se os rituais de sacrifício e os fenómenos de estratificação social apareceram no mesmo local, e se os primeiros deram lugar à divisão hierárquica.

Contudo, e tal como refere a revista Science, com base nas dúvidas de Henrich, “ao assumir que os comportamentos humanos evoluíram exatamente da mesma maneira que os vocabulários, o método ignora a possibilidade de que os comportamentos possam ter-se espalhado entre culturas vizinhas”, algo que pode acontecer quando uma sociedade invade e conquista outra.

Mas há mais. O próprio estudo admite que os sacrifícios na Austronésia nem sempre eram provocados por motivos puramente religiosos, podendo existir outros, desde a punição pela violação de tabus à tentativa de desmoralizar as classes inferiores, ou, ainda, criar um clima de medo e respeito para com as elites. Existe o risco, portanto, de se estar a fazer uma generalização incorreta.

Seja como for, uma coisa parece certa: morrer trucidado por uma canoa novinha em folha é uma das formas mais originais de sacrificar alguém, independentemente do motivo. Outros tempos.

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